— Quer que ligue para ela? — perguntou a secretária. Era redonda e imperturbável.
— Quem? Ora, merda, Peg, tinha esquecido... É... ligue para o Dragão.
O Dragão era a mulher do editor, Mong Pa-tok, chefe atual da imensa família Mong, dona do jornal, de três outros jornais chineses e cinco revistas, cujos antecedentes remontavam aos primeiros dias. Dizia-se que os Mongs descendiam do primeiro editor-proprietário do jornal, Morley Skinner. Contava-se que Dirk Struan dera a Skinner o controle do jornal em troca da sua ajuda contra Tyler Brock e seu filho Gorth, abafando a história da morte de Gorth em Macau. Dizia-se que Dirk Struan provocara o duelo. Os dois homens lutaram com ferros de combate. Uma vez, há muitos anos, Toxe ouvira a velha Sarah Chen, meio bêbada, relatar que, quando os Brocks vieram buscar o corpo de Gorth, não o reconheceram. A velha acrescentara que seu pai, Sir Gordon Chen, tivera que mobilizar quase todo o Bairro Chinês para impedir que os Brocks ateassem fogo aos armazéns da Struan. Tyler Brock incendiara Tai-ping Shan, em seu lugar. Apenas o grande tufão que veio naquela noite impediu que toda a cidade fosse destruída pelo fogo... o mesmo holocausto que destruíra a Casa Grande de Dirk Struan, e ele e sua mulher secreta, May-may.
— Está na linha 2.
— Hem? Ah, está bem, Peg. Toxe soltou um suspiro.
— Ah, Sr. Toxe, estava esperando o seu telefonema, heya?
— No que posso servi-la, ou ao Sr. Mong?
— Seus artigos sobre o Ho-Pak Bank, ontem e hoje, que os rumores adversos sobre o Ho-Pak são inverídicos e iniciados por tai-pans e outro grande banco. Vejo que há mais, hoje.
— É. Haply tem absoluta certeza.
— Meu marido e eu ouvimos não ser verdade. Nenhum tai-pan ou banco estão espalhando boatos, ou já espalharam boatos. Talvez sensato abandonar ataque.
— Não é um ataque, sra. Mong, só uma atitude. Sabe como os chineses são suscetíveis aos boatos. O Ho-Pak é tão forte quanto qualquer banco da colônia. Estamos certos de que os boatos foram iniciados por um gran...
— Não por tai-pans nem por grande banco. Meu marido e eu não gostamos desta atitude, faz favor. Queira mudar — falou, e ele ouviu o granito na sua voz.
— Isso é política editorial, e eu tenho controle sobre a política editorial — respondeu ele sombriamente.
— Nós somos editor. É o nosso jornal. Nós dizemos você parar, então você pára.
— Está me ordenando que pare?
— Claro que é ordem.
— Pois bem. Como ordenou, paramos.
— Ótimo! — O aparelho ficou mudo. Christian Toxe quebrou o lápis, jogou-o contra a parede, e começou a xingar. A secretária soltou um suspiro e fechou discretamente a porta; quando acabou, Toxe abriu a porta. — Peg, quer me trazer um café? Mac! Martin!
Toxe recostou-se na cadeira, que rangeu. Enxugou o suor das faces, acendeu um cigarro e tragou profundamente.
— Sim, Chris? — perguntou Haply.
— Martin, cancele o artigo que íhe pedi e faça outro sobre o sistema bancário de Hong Kong e a necessidade de se ter algum tipo de seguro bancário...
Os dois homens o fitaram, boquiabertos.
— Nosso editor não gosta do enfoque dos boatos. Martin Haply enrubesceu.
— Ora, ele que se foda! Você mesmo ouviu os caras, na festa do tai-pan.
— Isso nada prova. Você não tem provas. Vamos parar com esse enfoque. Não está provado, portanto não posso tomar posição.
— Mas, olh...
O pescoço de Toxe ficou roxo.
— Paramos e pronto! — rugiu. — Entendeu?
Haply começou a dizer qualquer coisa, mas mudou de idéia. Sufocado de raiva, girou sobre os calcanhares e se afastou. Cruzou o salão, abriu com violência a porta da frente, e bateu-a atrás de si.
Christian Toxe soltou a respiração.
— Mas que droga de gênio terrível tem esse rapaz! Apagou o cigarro e acendeu outro.
— Deus, estou fumando demais! — Ainda fervendo, seus olhos castanhos fitaram o homem mais velho. — Alguém deve ter ligado para ela, Mac. Agora, que favor você gostaria de receber em troca, se fosse a sra. Dragão Mong?
Subitamente, Mac abriu um sorriso.
— Não um título de sócio votante do Turf Club!
— Primeiro da turma!
Singh, o repórter indiano, entrou na sala, trazendo trinta centímetros de teletipo.
— Pode precisar disso para a edição extra, Chris. Era uma série de boletins Reuter do Oriente Médio. "Teerã, 8h32m. — Fontes diplomáticas de alto nível no Irã relatam que súbitas e extensas manobras militares soviéticas tiveram início junto de sua fronteira setentrional, perto da área fronteiriça petrolífera de Azerbaijão, onde mais distúrbios ocorreram. Consta que Washington pediu permissão para mandar observadores para aquela área."
O parágrafo seguinte dizia:
"Tel Aviv, 6 h. — O Parlamento israelense confirmou no fim da noite de ontem que outro imenso projeto de irrigação foi iniciado para desviar ainda mais as águas do rio Jordão para o deserto meridional de Neguev. Houve uma reação adversa e hostil imediata da Jordânia, Egito e Síria".
— Neguev? A usina atômica novinha em folha de Israel não fica no Neguev? — perguntou Toxe.
— Fica. Que bela adição para as mesas de conferências de paz. A água seria para isso?
— Não sei, Mac, mas isso com certeza vai deixar secas algumas gargantas jordanianas e palestinas. Água, água por todo canto, e nenhuma gota para se tomar um banho. Puxa vida, seria bom se chovesse! Singh, ajeite esses boletins, e nós os colocaremos na última página. Não venderão um mísero jornal. Faça um novo artigo sobre os Lobisomens para a primeira página: "A polícia estendeu uma vasta rede, mas os perversos seqüestradores do Sr. John Chen continuam a enganá-la. Segundo fontes chegadas à família de seu pai, o representante nativo da Struan, ainda não se recebeu nenhuma nota de resgate, mas espera-se uma a qualquer momento. O China Guardian pede a todos os seus leitores que ajudem na captura desses monstros..." Esse tipo de coisa.
Em Aberdeen, Wu Óculos viu a velha sair do cortiço, com uma cesta de compras na mão, e se meter no meio da multidão barulhenta, no beco estreito. Ele a seguiu cautelosamente, sentindo-se muito satisfeito consigo mesmo. Enquanto esperava que ela reaparecesse, puxara conversa com um vendedor ambulante cujo local de vendas permanente era um pedaço de calçada quebrada, do lado oposto. O ambulante vendia chá e pequenas tigelas de congee (mingau de arroz) quente. Wu pedira uma tigela, e durante a refeição o ambulante lhe falara da velha, Ah Tam, que estava no bairro desde o ano passado. Chegara à colônia vinda de uma aldeia perto de Cantão, junto com as imensas ondas de imigrantes que tinham cruzado a fronteira no verão anterior. Não tinha família, e as pessoas para quem trabalhava não tinham filhos com cerca de vinte anos, embora a tivesse visto com um rapaz dessa idade naquela manhã.
— Disse que a aldeia dela era Ning-tok...
Foi então que Wu sentiu-se animar por aquele golpe de sorte. Ning-tok era a aldeia de onde vinham seus próprios pais, e ele falava o dialeto do lugar.
Agora, estava vinte passos atrás dela, e ficou vendo-a pechinchar habilmente ao comprar legumes, selecionando apenas as melhores cebolas e verduras, todas fresquinhas, recém-chegadas dos campos dos Novos Territórios. Comprou muito pouco, e ele deduziu que a família para a qual ela trabalhava era pobre. Depois, ficou diante da barraca de aves, com suas camadas de galinhas esquálidas, que mal viviam ainda, enfiadas nas gaiolas, de pernas atadas. O barraqueiro rotundo barganhava com ela, ambos curtindo a linguagem obscena, os insultos, escolhendo esta ave, depois aquela, depois outra, cutucando-as, deixando-as de lado, até o negócio ser feito. Como era uma boa negociante, tinhosa, o homem concordou em reduzir seu lucro. Depois, estrangulou a ave habilmente, sem pensar, jogando a carcaça para a filha de cinco anos, acocorada numa pilha de penas e restos, para que a depenasse e limpasse.
— Ei, senhor vendedor — chamou Wu. — Quero uma ave pelo mesmo preço. Aquela! — Apontou para uma galinha razoável, e não ligou para os resmungos do homem. — Irmã Mais Velha — dirigiu-se a ela cortesmente —, está claro que me poupou muito dinheiro. Gostaria de tomar uma xícara de chá enquanto esperamos que nossas aves sejam limpas?