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— Ah, sim, obrigada, meus velhos ossos estão cansados. Iremos para lá! — O dedo nodoso dela apontou para uma barraca em frente. — Assim, poderemos vigiar, e receber as aves por que pagamos.

O vendedor de aves resmungou uma obscenidade, e eles riram.

Ela foi abrindo caminho aos empurrões para o outro lado da rua, sentou-se num banco, pediu chá e um bolo, e não demorou estava contando a Wu como detestava Hong Kong e viver no meio de estranhos. Foi fácil para ele amolecê-la pelo uso casual de uma palavra no dialeto de Ning-tok, depois fingir surpresa quando ela passou a falar naquele dialeto e contou que vinha da mesma aldeia, e ah, que maravilha encontrar um vizinho, depois de tantos meses entre estranhos! Contou-lhe que trabalhara para a mesma família, em Ning-tok, desde os sete anos. Mas, infelizmente, há três anos, sua patroa — a criança que criara, agora uma senhora de idade igual a ela — morrera.

— Fiquei na casa, mas eles estavam passando por um período difícil. E então, no ano passado, a fome foi grande. Muitos resolveram vir para este lugar. O pessoal do presidente Mao não se incomodou. Ao contrário, nos encorajou... "Bocas Inúteis", era como eles nos chamavam. Não sei como nos separamos, e consegui cruzar a fronteira e chegar até aqui, sem tostão, faminta, sem família, sem amigos, sem saber para que lado me virar. Finalmente, arrumei um emprego, e agora trabalho como cozinheira e amah para a família Ch'ung, que é de varredores de ruas. Os miseráveis só me dão casa e comida, e a primeira mulher Ch'ung é uma bruxa desbocada, mas logo estarei livre de todos eles! Disse que seu pai veio para cá com a família há dez anos?

— É. Tínhamos um campo perto da vereda de bambus junto do rio. O nome dele era Wu Cho-tam e...

— Ah, sim, acho que me lembro da família. É, acho que sim. É, e conheço o campo. A minha família era a Wu Ting-top, e a família deles era dona da farmácia da encruzilhada há mais de cem anos.

— Ah, o Honorável Wu Farmácia? Mas claro!

Wu Óculos lembrava-se bem da família. Wu Farmácia sempre fora um simpatizante maoísta. Certa vez, tivera que fugir dos nacionalistas. Naquela aldeia de mil pessoas, fora muito apreciado e respeitado, e mantivera a vida na aldeia o mais calma e protegida dos estranhos possível.

— Quer dizer que é um dos filhos de Wu Cho-tam, Irmão Mais Moço? — dizia Ah Tam. — Eeee, antigamente era uma maravilha em Ning-tok, mas nos últimos anos... terrível.

— É. Nós tivemos sorte. Nosso campo era fértil, e cultivávamos a terra como sempre, mas após alguns anos chegou gente de fora, que acusou todos os proprietários de terras... como se fôssemos exploradores! Nós apenas cultivávamos o nosso próprio campo. Mesmo assim, de vez em quando alguns proprietários eram levados dali, outros, fuzilados. Certa noite, há dez anos, meu pai fugiu com todos nós. Agora meu pai está morto, mas moro com minha mãe, não muito distante daqui.

— Houve muitas fugas e fome no início. Ouvi dizer que agora está melhor. Também ouviu? Gente de fora chegou, não foi? Eles chegaram e foram embora. A aldeia não está tão ruim, novamente, Irmão Mais Moço, ah, não! Gente de fora nos deixou em paz. É, eles deixaram a nós e a minha patroa em paz porque o Pai era importante, e um dos simpatizantes do presidente Mao, desde o começo. O nome da minha patroa era Fang-ling, mas agora está morta. Não há nenhuma organização coletivista perto de nós, portanto a vida é como sempre foi, embora todos tenhamos que estudar o Livro vermelho do presidente Mao. A aldeia não é tão ruim, todos os meus amigos estão lá... Hong Kong é um lugar horrível, e a minha aldeia é o meu lar. A vida sem família não vale nada. Mas agora...

— A velha baixou o tom de voz, e casquinou, cheia de prazer.

— Mas agora os deuses me favoreceram. Dentro de um ou dois meses irei para casa, para sempre. Terei dinheiro bastante para me aposentar, e comprarei a casinha que fica no fim da minha rua, e quem sabe um campo pequeno e...

— Aposentar? — perguntou Wu, instigando-a a continuar. — E quem tem dinheiro para isso, Irmã Mais Velha? Disse que não lhe pagavam nada...

— Ah — replicou a velha, toda inchada —, tenho um amigo importante.

— Que espécie de amigo?

— Um amigo de negócios, muito importante, que precisa da minha ajuda! Como lhe fui muito útil, prometeu me dar uma imensa quantia...

— Está inventando tudo isso, Irmã Mais Velha — debochou. — Será que sou um estranho tonto que...

— Estou lhe dizendo que meu amigo é tão importante que pode manter a ilha inteira escravizada!

— Não existe gente assim!

— Ah, mas existe, sim! — Ela baixou a voz e murmurou, roucamente: — E quanto aos Lobisomens?

Wu Óculos fitou-a, de boca aberta.

— O quê?

Ela casquinou de novo, radiante com o impacto da sua confidencia.

— É.

O rapaz recompôs rapidamente os pedaços de sua mente baratinada. Se aquilo fosse verdade, receberia a recompensa e a promoção, e quem sabe o convite para ingressar no Serviço Especial de Informações.

— Está inventando essa história!

— E eu lá ia mentir para alguém da minha própria aldeia? Meu amigo é um deles, estou lhe dizendo. Também é um 489; e a irmandade dele vai ser a mais rica de toda a Hong Kong.

— Eeee, que sorte tem, Irmã Mais Velha! E quando o vir de novo, pergunte-lhe por favor se tem utilidade para alguém como eu. Sou lutador de rua, de profissão, embora minha tríade seja pobre, e o líder, um burro e um estrangeiro. Ele é de Ning-tok?

— Não. Ele... é meu sobrinho — disse ela, e o rapaz percebeu que era mentira. — Vou vê-lo mais tarde. É, ele vem aí, mais tarde. Está me devendo algum dinheiro.

— Eeee, que bom! Mas não o ponha no banco, especialmente no Ho-Pak ou...

— Ho-Pak? — replicou, desconfiada, os olhinhos estreitando-se subitamente nos vincos do rosto. — Por que fala no Ho-Pak? O que o Ho-Pak tem a ver comigo?

— Nada, Irmã Mais Velha — disse Wu, amaldiçoando-se pelo deslize, sabendo que agora ela fechara a guarda. — Vi as filas hoje de manhã, só isso.

Ela balançou a cabeça, sem se sentir convencida. Depois notou que sua galinha já estava pronta e embrulhada, portanto agradeceu-lhe pelo chá e o bolo e se afastou, resmungando sozinha. Com muito cuidado, ele a seguiu. De vez em quando, ela olhava para trás, mas não o viu. Tranqüilizada, foi para casa.

O homem da CIA saltou do carro e entrou rapidamente no quartel-general da polícia. O sargento uniformizado na mesa de informações cumprimentou-o.

— Boa tarde, Sr. Rosemont.

— Tenho hora marcada com o Sr. Crosse.

— Sei, ele o está esperando.

Azedamente, Rosemont dirigiu-se ao elevador. "Esta merda de ilha maldita! Tenho vontade de cagar nela, e nos malditos britânicos."

— Alô, Stanley — cumprimentou Armstrong. — O que está fazendo aqui?

— Ah, oi, Robert. Tenho um encontro com o seu chefe.

— Já tive esse desprazer hoje, uma vez. Exatamente às sete horas e um minuto.

A porta do elevador se abriu. Rosemont entrou, e Armstrong o seguiu.

— Espero que tenha boas novas para Crosse — comentou Armstrong, bocejando. — Ele está num humor terrível.

— E? Você também vai participar do encontro?

— Parece que sim. Rosemont enrubesceu.

— Merda, pedi um encontro particular.

— Sou particular.

— Claro que é, Robert. E Brian, e todo mundo. Mas tem um filho da mãe que não é.

O bom humor de Armstrong desapareceu.

— É?

— É.

Rosemont não disse mais nada. Sabia que magoara o inglês, mas não se importava. "É a verdade", pensou, com amargura. "Quanto mais cedo esses malditos ingleses abrirem os olhos, melhor."