Com irritação, Armstrong jogou-o numa cadeira e abriu bruscamente a porta. Os três policiais e as duas secretárias fitaram-no em silêncio.
— Sargento, leve este sacana para o QG, sob a acusação de tentar subornar um policial. Olhe para isso...
Fez sinal para que entrasse, e mostrou-lhe a gaveta. Os olhos do sargento Yat se arregalaram.
— Dew neh loh moh!
— Conte-o e faça com que os dois homens assinem o recibo pela quantia exata, e leve-o para o QG com eles, e entregue ali o dinheiro.
— Sim, senhor.
— Cabo, comece a revistar os arquivos. Vou à sala ao lado. Volto já.
— Sim, senhor.
Armstrong se retirou. Sabia que o dinheiro seria contado rapidamente, assim como o restante do dinheiro que havia nas salas (se aquela gaveta estava cheia, outras também estariam), depois o dinheiro a ser entregue seria negociado rapidamente entre as partes, o sargento Yat, Lo e Tak, e o restante dividido entre eles. Lo e Tak acreditariam que ele receberia uma fatia grande, e seus próprios homens o considerariam louco por não recebê-la. Não fazia mal. Não se importava. O dinheiro era roubado, o sargento Yat e seus homens eram bons policiais, e seu salário totalmente inadequado para as suas responsabilidades. Um pouco de h'eung yau não lhes faria mal, seria um presente dos céus.
Não seria?
Na China era preciso ser pragmático, disse consigo mesmo, sombriamente, enquanto batia na porta do 721 e entrava. Uma secretária atraente ergueu os olhos do seu almoço — uma tigela de arroz branco, fatias de carne de porco assada e brócolos verdes fumegando agradavelmente.
— Boa tarde. — Armstrong mostrou rapidamente o seu cartão de identificação. — Gostaria de ver o Sr. Vee Cee Ng, por favor.
— Lamento, senhor — disse a moça, o inglês bom, e os olhos inexpressivos. — Ele saiu, foi almoçar.
— Onde?
— No clube dele, acho. Hoje não volta antes das cinco.
— Que clube?
Ela lhe disse. Jamais ouvira falar nele, o que não queria dizer nada, já que havia centenas de clubes chineses particulares para almoço, jantar ou mah-jong.
— Como se chama?
— Virgínia Tong, senhor — acrescentou, pensando melhor.
— Importa-se se eu der uma olhada por aí? — Viu os olhos dela brilharem nervosamente. — Eis aqui o meu mandado de busca.
Ela o pegou e leu, e ele pensou: "Nota 10, mocinha".
— Não pode esperar até as cinco? — indagou.
— Vou dar só uma espiadinha, agora.
Ela deu de ombros, levantou-se, e abriu a porta da sala interna. Era pequena e vazia, excetuando duas mesas desarrumadas, telefones, arquivos, cartazes de navegação e itinerários dos navios. A sala tinha duas portas internas e mais uma porta dos fundos. Abriu uma delas, no lado da 720, mas era um banheiro úmido e fétido, com uma pia suja. A porta dos fundos estava trancada com ferrolhos. Ele correu os ferrolhos e saiu para o escuro patamar das escadas de serviço, que serviam como saída de incêndio improvisada e meio alternativo de saída. Voltou a trancar a porta, observado o tempo todo por Virgínia Tong. A última porta, do outro lado, estava trancada.
— Quer abri-la, por favor?
— O Sr. Vee Cee tem a única chave, senhor. Armstrong soltou um suspiro.
— Eu tenho um mandado de busca, srta. Tong, e o direito de arrombar a porta, se necessário.
Ela apenas o fitou. Então ele deu de ombros, afastou-se da porta e preparou-se para arrombá-la com um chute. De verdade.
— Só... só um momento, senhor — gaguejou ela. — Vou... vou ver se... se ele deixou a chave antes de sair.
— Ótimo. Obrigado.
Armstrong olhou enquanto ela abria uma gaveta da mesa, e fingia procurar, depois outra gaveta, e mais outra, e então, pressentindo a impaciência dele, encontrou a chave debaixo de uma caixinha de dinheiro.
— Ah, aqui está! — exclamou, como se um milagre tivesse acontecido. Ele notou que ela estava suando. Ótimo, pensou. Ela destrancou a porta e recuou. A porta dava diretamente para uma outra. Armstrong abriu-a, e soltou um assobio involuntário. A sala que ficava do outro lado era grande, luxuosa, com carpete espesso, sofás elegantes de couro acamurçado, mobília de pau-rosa e belos quadros. Foi entrando. Virgínia Tong ficou olhando, parada à porta. A bela mesa antiga de pau-rosa, tampo de couro, estava nua, limpa e lustrada. Sobre ela apenas um vaso de flores, e algumas fotos emolduradas, todas de um chinês sorridente segurando um cavalo de corrida com uma guirlanda ao pescoço, e uma do mesmo chinês em traje a rigor, apertando a mão do governador, Dunross nas proximidades.
— Este é o Sr. Ng?
— Sim, senhor.
De um lado da sala, um toca-discos de alta qualidade e um armário alto, tipo bar. A sala tinha outra porta, que estava parcialmente aberta. Ele a empurrou, deparando com um dormitório elegante e muito feminino, com uma cama imensa e desfeita, teto de espelhos, e um banheiro adjacente todo decorado, com perfumes, loções após barba, ferragens modernas e brilhantes e muitos baldes de água.
— Interessante — comentou, e olhou para ela. Ela ficou calada, esperando.
Armstrong viu que usava meias de náilon e era muito jeitosa, com cabelos e unhas bem-tratados. Aposto que é um dragão, e dispendiosa. Deu-lhe as costas e olhou ao seu redor, pensativo. Estava claro que aquele apartamento independente ocupava a suíte adjacente. "Bem", disse para si mesmo, com um toque de inveja, "se você é rico e quer um apartamento particular e secreto para uma tarde de prazer por trás do seu escritório, não há lei que o proíba. Nenhuma. E nenhuma lei que proíba ter uma secretária atraente. Filho da mãe sortudo. Eu mesmo não acharia ruim ter um lugar desses."
Distraidamente, abriu uma gaveta da mesa. Estava vazia. Todas as gavetas estavam vazias. A seguir, vasculhou as gavetas do dormitório, mas não encontrou nada de interessante. Um dos armários continha uma boa máquina fotográfica, algum equipamento de iluminação portátil e alguns materiais de limpeza, mas nada de suspeito.
Voltou à sala principal, satisfeito por não ter deixado passar nada. Ela ainda o fitava, e embora tentasse disfarçar, ele podia sentir o seu nervosismo.
"É compreensível", falou consigo mesmo. "Se eu fosse ela, meu patrão tivesse saído e um quai loh nojento viesse bisbilhotar, também ficaria nervosa. Não há mal em ter um lugar particular como esse. Muita gente rica tem, em Hong Kong." Teve a atenção despertada pelo armário de pau-rosa, tipo bar. A chave na fechadura o atraía. Abriu a porta. Nada fora do comum. E então, seus olhos vivos e bem-treinados notaram a largura incomum das portas. Uma inspeção de momento, e abriu as portas falsas. Caiu-lhe o queixo.
As paredes laterais do armário estavam cobertas com dúzias de fotos de Portões de Jade em toda a sua glória. Cada foto estava emoldurada com capricho, e etiquetada com um nome e uma data datilografados. Involuntariamente, deixou escapar uma risada de embaraço, depois olhou ao seu redor. Virgínia Tong havia sumido. Rapidamente, correu os olhos pelos nomes. O dela era o antepenúltimo.
Outro paroxismo de riso foi contido a custo. O policial sacudiu a cabeça, desanimado. "O que certos sacanas fazem para se divertir... e certas moças por dinheiro! Pensei que já tinha visto de tudo, mas isto... Ng Fotógrafo, hem? Então, é daí que vem o apelido dele."
Tendo superado o choque inicial, examinou as fotos. Cada uma fora tirada com a mesma lente, da mesma distância.
"Santo Deus", pensou depois de um minuto, estupefato, "tem mesmo um bocado de diferença entre... Quero dizer, se a gente puder esquecer o que está vendo, e apenas olhar, bem, tem uma diferença fantástica no formato e tamanho do todo, na posição e protuberância da Pérola no Degrau, na qualidade e quantidade de pêlos púbicos... ayeeyah, tem uma aqui pat jam gai." Olhou para o nome: "Mona Leung... ora, onde ouvi esse nome antes? É curioso... geralmente os chineses consideram a falta de pêlos uma coisa azarada. Ora, por que... ah, meu Deus!" Espiou bem para a próxima etiqueta, para certificar-se. Não havia erro algum. Vênus Poon. "Ayeeyah", pensou, encantado, "então esta é a dela, é assim que ela é realmente, a queridinha da TV que diariamente projeta tão bem uma inocência assaz doce e virginal!"