— Não em Aberdeen, meu rapaz. Quanto a mim, tudo bem. Fechei todas as minhas contas. Saquei cada tostão. Estou numa boa. Se fosse você, faria o mesmo.
Armstrong sentiu-se nauseado. Todas as suas economias estavam no Victoria.
— O Vic tem que estar bem. Todos os fundos do governo estão depositados lá.
— É isso aí. Mas nada nos estatutos deles diz que seu dinheiro também está protegido. Bem, tenho que voltar ao trabalho.
— É. Obrigado pela informação. Lamento quanto ao seu ombro.
— Pensei que iam esmagar a minha maldita cabeça. Os sacanas começaram com a velha história: "matem os quai loh". Pensei que tinha chegado a minha hora.
Armstrong não conseguiu conter um arrepio. Desde os levantes de 56, ele tinha freqüentes pesadelos de que estava de novo no meio daquela turba enlouquecida e ululante. Fora em Kowloon. A turba tinha acabado de virar o carro em que estavam o cônsul da Suíça e a mulher e ateara fogo nele. Ele e outros policiais haviam aberto caminho à força entre a turba para salvá-los. Quando chegaram ao carro, o homem já estava morto, e a jovem mulher, em chamas. Quando conseguiram arrastá-la para fora, o fogo devorara cada peça de roupa dela, e a sua pele soltara-se inteiramente do corpo. E ao redor deles, homens, mulheres e jovens esbravejavam "Matem os quai loh..."
Ele estremeceu de novo, as narinas ainda sentindo o cheiro da carne queimada.
— Deus, que filhos da mãe!
— É, mas tudo faz parte de um dia de trabalho. Se aquele maldito Lobisomem voltar a Aberdeen, estará numa rede mais apertada do que o eu de um borrachudo.
30
14h20m
Phillip Chen parou de manusear sua correspondência, o rosto subitamente sem cor. No envelope estava escrito: "Sr. Phillip Chen, pessoal".
— O que foi? — perguntou a mulher.
— É da parte deles. — Com mãos trêmulas, mostrou-lho. — Dos Lobisomens.
— Oh! — Estavam à mesa do almoço, posta descuidadamente num canto da sala de estar da casa que ficava bem na crista do Mirante de Struan. Nervosamente, ela pousou a xícara de café. — Abra-a, Phillip. Mas... mas é melhor usar o lenço, para... o caso de haver impressões digitais — acrescentou, inquieta.
— É, mas é claro, Dianne, que burrice a minha! — Phillip Chen parecia muito velho. Seu casaco estava nas costas da cadeira, e a camisa, úmida. Da janela aberta às suas costas vinha uma leve brisa, mas era quente e úmida, e uma névoa vespertina pairava sobre a ilha. Cuidadosamente, ele usou um cortador de papel de marfim e desdobrou o papel. — É, é dos... Lobisomens. É... sobre o resgate.
— Leia em voz alta.
— Está bem: "Para Phillip Chen, representante nativo da Casa Nobre, saudações. Venho lhe informar agora como deve ser pago o dinheiro do resgate. Quinhentos mil para você significa tanto quanto o grito de um porco no matadouro, mas para nós, pobres agricultores, seria uma herança para os nossos..."
— Mentirosos! — sibilou Dianne, o belo colar de ouro e jade brilhando à luz de um raio de sol discreto. — Como se os agricultores fossem capazes de seqüestrar John, e mutilá-lo daquele jeito. Tríades estrangeiros sujos, nojentos! Continue, Phillip.
— "... seria uma herança para nossos netos esfaimados.
Que você já tenha consultado a polícia, para nós é a mesma coisa que mijar no oceano. Mas agora não consultará. Não. Agora manterá segredo, ou a segurança de seu filho estará ameaçada. Ele não voltará, e tudo será culpa sua. Cuidado, temos olhos em toda parte. Se tentar nos trair, o pior acontecerá, e será tudo culpa sua. Hoje à noite, às seis horas, vou lhe telefonar. Não conte a ninguém, nem à sua mulher. Nesse mei..."
— Tríades sujos! Filhos da puta sujos, tentando criar problemas entre marido e mulher — disse Dianne, com raiva.
— "... nesse meio tempo prepare o dinheiro do resgate em notas usadas de cem dólares..." — Com irritação, Phillip Chen olhou para o relógio. — Não tenho muito tempo para chegar ao banco. Terei...
— Acabe a carta!
— Está certo, seja paciente, minha querida — falou, apaziguadoramente, o coração sobrecarregado falhando uma batida, ao reconhecer a irritação na voz dela. — Onde estava? Ah, sim... "dólares. Se obedecer fielmente às minhas instruções, poderá ter seu filho de volta ainda hoje..." Ah, Deus, espero que sim — falou, interrompendo-se momentaneamente, depois continuou: — "Não consulte a polícia ou tente nos preparar uma armadilha. Nossos olhos o estão vigiando agora mesmo. Assinado: Lobisomem". — Tirou os óculos. Os olhos estavam vermelhos e cansados. A testa estava molhada de suor. — "Vigiando-o, agora mesmo"? Será que um dos criados... ou o motorista está a serviço deles?
— Não, claro que não. Há anos que estão conosco.
Ele enxugou o suor, sentindo-se muito mal, querendo John de volta, querendo que estivesse a salvo, querendo estrangulá-lo.
— Isso não quer dizer nada. Acho... melhor chamar a polícia.
— Deixe para lá! Deixe para lá até sabermos o que você tem a fazer. Vá ao banco. Pegue apenas duzentos mil... deve conseguir que eles aceitem essa quantia. Se pegar mais, pode sentir-se tentado a entregar-lhes tudo, se esta noite... se eles realmente estão falando a sério.
— É... muito sensato. Se conseguirmos que aceitem isso... — Hesitou. — E quanto ao tai-pan? Acha que devo contar ao tai-pan, Dianne? Ele, ele poderia ajudar.
— Hum! — exclamou ela, desdenhosamente. — Que ajuda pode nos dar? Estamos lidando com tríades ossos-de-cachorro, não demônios estrangeiros ladrões. Se precisarmos de ajuda, teremos que contar com a nossa gente. — Os olhos dela fitaram-no intensamente. — E agora é melhor que me conte qual é o problema, realmente. Por que ficou tão zangado, anteontem à noite, e por que tem estado como um gato irritado com um espinho no rabo, desde então, sem cuidar dos negócios?
— Tenho cuidado dos negócios — disse, na defensiva.
— Quantas ações comprou? Hem? Ações da Struan? Tirou vantagem do que o tai-pan nos contou sobre a alta vindoura? Lembra-se do que o Velho Cego Tung predisse?
— Claro, claro que lembro — gaguejou. — Eu, eu dobrei secretamente os nossos valores, e dei ordens secretas a vários corretores para dobrarem mais metade.
A mente de ábaco de Dianne Chen iluminou-se ao pensar no vasto lucro, e em todo o lucro particular que ela ganharia com todas as ações que comprara em seu próprio nome, dando como garantia toda a sua carteira de ações. Mas manteve a fisionomia fria e a voz gelada.
— E quanto pagou?
— Em média 28,90.
— Hum! Segundo os jornais de hoje, a Casa Nobre abriu a 28,80 — falou com um fungado de reprovação, furiosa porque ele pagara cinco cents menos por ação do que ela. — Devia ter estado na Bolsa hoje de manhã, ao invés de ficar aqui em casa pelos cantos, passando o tempo dormindo.
— Não estava me sentindo muito bem, querida.
— Tudo está ligado a anteontem à noite. O que o fez ficar furioso daquela maneira? Heya?
— Não foi nada. — Levantou-se, na esperança de fugir.
— Nada...
— Sente-se! Nada para que você tenha gritado comigo, sua fiel mulher, na frente dos criados? Nada para que eu fosse mandada para dentro da minha sala de jantar, como uma prostituta comum? Heya? — A voz dela começou a aumentar de volume, e ela continuou, sabendo instintivamente que aquela era a hora certa, agora que estavam sozinhos na casa, sabendo que ele estava indefeso e que ela podia tirar vantagem disso.
— Acha que não é nada o fato de me tratar mal, a mim, que lhe dei os melhores anos da minha vida, trabalhando, mourejando e cuidando de você por vinte e três anos? Eu, Dianne Mai-wei T'Chung, em cujas veias corre o sangue dó grande Dirk Struan, que o conheceu virgem, com propriedade em Wanchai, North Point e até em Lan Tao, com títulos e ações e a melhor educação na Inglaterra? Eu, que nunca reclamo dos seus roncos, das suas prevaricações, ou do moleque que teve com aquela dançarina de cabaré que mandou estudar nos Estados Unidos!