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— Hem?

— É, sei tudo sobre você e ela e todas as outras, e todas as outras coisas feias que você faz, e que nunca me amou, mas só queria os meus bens e um enfeite perfeito para a sua vida insípida...

Phillip Chen estava tentando fechar os ouvidos, mas não conseguia. Seu coração batia com força. Detestava brigas, e detestava a voz aguda dela, que conseguia o tom exato para fazê-lo rilhar os dentes, que fazia com que seu cérebro oscilasse e seus intestinos ficassem revoltos. Tentou interrompê-la, mas ela não deixou, atormentando-o, acusando-o de todo tipo de prevaricações, erros e assuntos particulares. Saber o quanto ela sabia o deixou chocado.

—... e quanto ao seu clube?

— Hem, que clube?

— O clube chinês particular para almoço de quarenta e três membros, chamado 74, num quarteirão perto da Pedder Street, com um cozinheiro gourmet de Xangai, recepcionistas adolescentes, dormitórios, saunas e dispositivos que os velhotes sujos precisam para levantar os seus Talos Murchos? Hem?

— Não é nada disso — gaguejou Phillip Chen, aterrorizado ao ver que ela sabia. — É um lug...

— Não minta para mim! Você pagou oitenta e sete mil bons dólares americanos de sinal, com Shitee TChung e aqueles seus dois amigos sebosos, e continua pagando quatro mil HK de mensalidade. A troco do quê? É melhor... Aonde pensa que vai?

Humildemente, ele se sentou de novo.

— Ia... estou com vontade de ir ao banheiro.

— Hum! Sempre que temos uma discussão, quer ir ao banheiro! O que você tem é vergonha do modo como me trata, e sentimento de culpa... — Então, vendo que ele estava prestes a estourar com ela, mudou de tática rapidamente, a voz meiga e baixa. — Pobre Phillip! Pobrezinho! Por que estava tão zangado? Quem o magoou?

Então ele lhe contou, e logo que começou a contar, sentiu-se melhor. Sua angústia, medo e fúria começaram a se dissolver. As mulheres eram espertas e astutas nessas coisas, disse com seus botões, confiante, continuando a narrativa. Contou-lhe como abrira a caixa de depósito bancário de John, falou-lhe das cartas para Linc Bartlett, da duplicata da chave do próprio cofre do quarto deles.

— Trouxe todas as cartas de volta — falou, quase à beira das lágrimas. — Estão lá em cima, pode lê-las você mesma. Meu próprio filho! Ele nos traiu!

— Meu Deus, Phillip — exclamou ela —, se o tai-pan descobrir que você e o Pai Chen-chen estavam guardando... se soubesse, nos arruinaria!

— É, eu sei! Foi por isso que fiquei tão nervoso! Pelas regras do legado de Dirk, ele tem o direito e os meios. Ficaríamos arruinados. Mas, mas não é só isso. John sabia onde ficava o nosso cofre secreto no jardim e...

— O quê?

— É, e o desenterrou. Contou a ela sobre a moeda.

— Ayeeyah! — Ela o fitou em choque absoluto, metade da sua mente cheia de terror, a outra de êxtase, pois agora, quer John voltasse, quer não, ele estava destruído. John jamais herdaria, agora! Seu Kevin era o Filho Número Um, agora, e futuro representante nativo da Casa Nobre! Então, seus temores abafaram o entusiasmo, e ela murmurou, aterrorizada: — Se ainda existir a Casa dos Chens.

— Como? O que foi que disse?

— Nada, deixe para lá. Espere um momento, Phillip, deixe-me pensar. Ah, o rapaz perverso! Como pôde John fazer isso com a gente, nós que o adoramos toda a sua vida! É... é melhor você ir ao banco. Saque trezentos mil para o caso de ter que barganhar mais um pouco. Precisamos trazer o John de volta, custe o que custar. Será que guardava a moeda com ele, ou estaria na outra caixa de depósito bancário?

— Estaria na caixa... ou escondida no seu apartamento no Sinclair Towers.

A fisionomia dela se fechou.

— Como podemos revistar aquele lugar com ela morando ali? Aquela mulher dele? Aquela vagabunda da Barbara! Se ela suspeitar que estamos atrás de alguma coisa... — Sua mente agarrou um fio solto. — Phillip, seja quem for que apresente a moeda, receberá o que quiser?

— É.

— Eeeee! Que poder!

— É.

Agora, sua mente funcionava com clareza.

— Phillip — disse, novamente controlada, todo o resto esquecido —, precisamos de toda a ajuda que conseguirmos obter. Telefone para o seu primo Quatro Dedos... — Ele olhou para ela, espantado, depois começou a sorrir. — Peça a ele para mandar alguns dos seus lutadores de rua seguirem você secretamente para protegê-lo quando for pagar o resgate, depois para seguirem o Lobisomem até o covil dele, e salvarem John, custe o que custar. Haja o que houver, não mencione a moeda... só que você quer ajuda para salvar o pobre John. Só isso. Temos que trazer o pobre John de volta, custe o que custar.

— É — replicou ele, muito mais feliz, agora. — Quatro Dedos é a escolha perfeita. Deve-nos um ou dois favores. Sei onde posso encontrá-lo, hoje à tarde.

— Ótimo. Pode ir indo para o banco, mas dê-me a chave do cofre. Vou cancelar a minha hora no cabeleireiro e ler os papéis de John, agora mesmo.

— Muito bem. — Levantou-se, imediatamente. — A chave está lá em cima — mentiu, e saiu às pressas, não querendo que ela fosse bisbilhotar o cofre.

Havia lá várias coisas que não queria que ela visse. "É melhor que eu as esconda noutro lugar, por via das dúvidas", pensou, inquieto. Sua euforia desapareceu, e a ansiedade sufocante retornou. "Oh, meu pobre filho", falou consigo mesmo, quase em lágrimas. "O que deu em você? Fui um bom pai para você, e será sempre meu herdeiro, e amei-o como amei sua mãe. Pobre Jennifer, pobrezinha, morrendo de parto do meu primeiro filho. Oh, todos os deuses: permitam que o meu pobre filho volte para mim em segurança, não importa o que tenha feito, deixem que nos livremos de toda esta loucura, e dotarei um templo novo para todos vocês, igualmente!"

O cofre ficava por trás da armação da cama de metal. Ele a afastou da parede, abriu o cofre e tirou de lá todos os papéis de John, depois as suas escrituras, cartas e notas promissórias particulares, que enfiou no bolso do casaco, e desceu de novo as escadas.

— Tome as cartas de John — falou. — Quis lhe poupar o trabalho de arrastar a cama.

Ela notou o volume no bolso do casaco dele, mas ficou calada.

— Estarei de volta às cinco e meia em ponto.

— Tudo bem. Guie com cuidado — falou, distraidamente, todo o seu ser concentrado num único problema... como obter a moeda para Kevin e para si mesma. Secretamente.

O telefone tocou. Phillip Chen parou à porta de entrada, enquanto ela atendia.

— Weyyyy? — Seus olhos ficaram vidrados. — Oh, alô, tai-pan, como está?

Phillip Chen empalideceu.

— Muito bem, obrigado — respondeu Dunross. — Phillip está?

— Está, sim, um minutinho. — Podia ouvir muitas vozes ao fundo, além da de Dunross, e pensou ter notado na voz dele uma urgência velada que aumentou o seu pavor. — Phillip, é para você — disse, tentando disfarçar o nervosismo. — O tai-pan!

Estendeu-lhe o fone, fazendo um sinal silencioso para que ele o mantivesse um pouco afastado do ouvido, para ela poder escutar também.

— Sim, tai-pan?

— Alô, Phillip. Quais são seus planos para hoje à tarde?

— Nada de especial. Estava saindo para ir ao banco, por quê?

— Antes de ir, passe pela Bolsa. O mercado enlouqueceu. A corrida ao Ho-Pak agora está espalhada por toda a colônia, e as ações estão balançando, embora Richard as esteja apoiando com tudo o que tem ao seu alcance. A qualquer momento, vão cair. A corrida está se espalhando para muitos outros bancos, ao que consta... o Ching Prosperity, até mesmo o Vic... — Phillip Chen e a mulher se entreolharam, perturbados. — Parece que o Vic está com problemas em Aberdeen e na central. Tudo baixou, todas as nossas blue chips: O Victoria and Albert, Investimentos Kowloon, Companhia de Força de Hong Kong, Rothwell-Gornt, Propriedades Asiáticas, Títulos Mobiliários Zong, Tecelagem Solomon, nós... todo mundo.