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— Duzentas mil.

Sir Luís franziu o cenho.

— Já há trezentas mil no quadro... mais duzentas? É um ataque sem quartel?

— Ele... ele não disse, mas acho que sim.

— É uma grande pena que aqueles dois não possam fazer as pazes.

— É.

O homem mais velho pensou por um momento, depois falou, em voz mais pausada:

— Estou pensando em suspender as transações com as ações do Ho-Pak e, desde a hora do almoço, com as da Casa Nobre. Estou muito preocupado. Neste exato momento, uma derrocada do Ho-Pak, juntamente com uma derrocada da Casa Nobre, poderia destruir todo o mercado. Minha nossa! É inconcebível uma derrocada da Casa Nobre. Arrastaria consigo centenas de nós, talvez toda a Hong Kong. É inconcebível.

— Talvez a Casa Nobre precise de uma vistoria. Posso tomar emprestadas duzentas mil ações?

— Primeiro me responda, sim ou não, e se for sim, quando: devemos suspender as transações com as do Ho-Pak? Devemos suspender também as da Struan? Já colhi os votos de todos os membros do comitê, exceto o seu. Estão divididos quase igualmente.

— Nenhuma delas jamais foi suspensa. Seria ruim suspender qualquer uma delas. Esta é uma sociedade livre... no melhor sentido, creio. Deixe que as coisas se ajeitem por si. Eles que se entendam, os Struans, os Gornts, e todo o resto, que os melhores atinjam o topo, e os piores... — Stern sacudiu a cabeça, cansadamente. — Ah, mas para mim é fácil falar, Luís, não sou grande investidor em nenhuma das duas.

— Onde está o seu dinheiro?

— Em diamantes. Todos os judeus precisam de coisas pequenas, coisas que possam ser carregadas e escondidas, coisas que possam ser convertidas em dinheiro vivo com facilidade.

— Não há necessidade de você ter medo aqui, Joseph. Há quantos anos a sua família está aqui, e prosperando? Olhe para Solomon... certamente ele e sua família são os mais ricos de toda a Ásia.

— Para os judeus, o medo é um estilo de vida. E ser odiado também.

Mais uma vez, o velho soltou um suspiro.

— Ah, este mundo, este belo mundo, como deveria ser belo. — Um telefone tocou, e ele atendeu delicadamente, as mãos minúsculas, seu português soando doce e líquido aos ouvidos de Stern, embora não entendesse uma palavra. Percebeu apenas "Sr. Mata" dito respeitosamente várias vezes, mas o nome nada significava para ele. Dentro de um momento, Sir Luís recolocara o fone no gancho, com ar muito pensativo, — O secretário de finanças ligou logo depois do almoço, muito perturbado. Há uma delegação do Parlamento aqui, e uma falência de banco ficaria extremamente mal para todos nós — disse. Deu um sorriso matreiro. — Sugeri que ele apresentasse ao governador legislação que regulamente os bancos, como na Inglaterra, e o pobre coitado quase teve um treco. Não devo implicar tanto com ele! — Stern sorriu junto com ele. — Como se precisássemos da interferência do governo aqui! — Seus olhos ficaram mais penetrantes. — Então, Joseph, vota para deixar as coisas como estão... ou para suspender uma, ou as duas ações, e quando?

Stern olhou para o relógio. Se fosse até o quadro agora, teria tempo de sobra para anotar as duas ofertas de venda, e ainda desafiar Forsythe. Era uma sensação gostosa saber que tinha o destino das duas casas nas mãos, ainda que temporariamente.

— Talvez fosse muito bom, talvez ruim. Como está a votação, até agora?

— Como falei, quase empatada.

Houve outra explosão de alvoroço, e os dois homens ergueram os olhos. Mais ações da Struan mudavam de mãos. A cotação baixara para 24,70. Agora, era Phillip Chen que se debruçava sobre a mesa de Holdbrook.

— Pobre Phillip, não está com uma cara nada boa — disse Sir Luís, penalizado.

— É. Uma pena a história do John. Eu gostava dele. E quanto aos Lobisomens? Acha que os jornais estão exagerando?

— Não, não acho. — Os velhos olhos brilhavam maliciosos. — Não mais do que você, Joseph.

— Como?

— Decidiu deixar como está. Quer deixar o tempo de hoje se esgotar, não é? É o que quer, não é?

— Que melhor solução poderia haver?

— Se eu não fosse tão velho, concordaria com você. Mas, sendo velho, e desconhecendo o dia de amanhã, ou se viverei para ver o amanhã, prefiro o meu drama hoje mesmo. Muito bem. Não contarei o seu voto, desta vez, e agora a votação do comitê está empatada, portanto decidirei, como me cabe por direito. Pode tomar emprestadas duzentas mil ações da Casa Nobre até sexta-feira, sexta-feira às duas. Então, poderei pedi-las de volta... tenho que pensar na minha própria Casa, não? — Os olhos vivos mas bondosos no rosto enrugado instaram Stern a se levantar. — O que vai fazer agora, meu amigo?

Joseph Stern deu um sorriso triste.

— Sou corretor.

Foi até o quadro e escreveu na coluna de venda do Ho-Pak com mão firme. Depois, no novo silêncio, foi até a coluna da Struan e escreveu o número com clareza, cônscio de que agora era o alvo de todas as atenções. Podia sentir a inveja e o ódio. Mais de quinhentas mil ações da Casa Nobre estavam em oferta agora, mais do que em qualquer época na história da Bolsa. Esperou, desejando que o tempo se esgotasse. Houve um alvoroço de interesse quando Soorjani, o parse, comprou alguns blocos de ações, mas era notório que ele era representante de muitos membros das famílias Struan e Dunross, e de seus correligionários. E embora tivesse comprado cento e cinqüenta mil, aquilo fazia pouca diferença diante da enormidade da oferta de Gornt. O silêncio chegava a doer. Faltava um minuto.

— Nós compramos!

A voz do tai-pan quebrou o silêncio.

— Todas as minhas ações? — perguntou Stern, com voz rouca, o coração disparado.

— É. As suas e todo o resto. Ao preço de mercado! Gornt se pôs de pé.

— Com o quê? — perguntou, sardonicamente. — São quase nove milhões em dinheiro.

Dunross também se pôs de pé, um meio sorriso de sarcasmo no rosto.

— A Casa Nobre tem crédito para isso... e milhões a mais. Alguém já duvidou disso?

— Eu duvido... e vendo a descoberto amanhã!

Nesse momento, a campainha de encerramento tocou, estridente, a tensão se rompeu, e ouviu-se um rugido de aprovação.

— Meu Deus, mas que dia...

— O bom e velho tai-pan...

— Não dava para eu agüentar muito mais...

— Será que o Gornt o derrota, desta vez?...

— Talvez todos aqueles malditos boatos não passem de besteira...

— Pombas, ganhei uma fortuna em comissões...

— Acho que o Ian está com medo...

— Não esqueça que ele tem cinco dias para pagar as ações...

— Não vai poder comprar assim amanhã...

— Meu Deus, amanhã! O que vai acontecer amanhã?... Casey mudou de posição na cadeira, o coração batendo loucamente. Afastou com esforço o olhar de cima de Gornt e Dunross, e fitou Bartlett, que estava simplesmente olhando para o quadro, soltando um assobio mudo. Estava assombrada... assombrada e um pouco assustada.

Pouco antes de vir encontrar-se com Dunross, Linc lhe falara dos seus planos, do seu telefonema para Gornt, do encontro que tinham tido.

— Agora, está sabendo de tudo, Casey — dissera suavemente, sorrindo para ela. — Agora, os dois foram engabelados, e nós controlamos o campo de batalha, tudo por dois milhões. Os dois estão se engalfinhando, cada um procurando a jugular do outro, prontos para se devorarem. Agora, é só esperar. Segunda-feira é o Dia D. Se Gornt ganhar, nós ganhamos. Se Dunross ganhar, nós ganhamos. Haja o que houver, seremos a Casa Nobre.

32

15hO3m

Aleksei Travkin, que treinava os cavalos de corrida da Casa Nobre, subiu o beco movimentado que dava para a Nathan Road, em Kowloon, e entrou no Restaurante Dragão Verde. Usava um pequeno 38 sob o braço esquerdo, e tinha o passo leve para um homem da sua idade.

O restaurante era pequeno, comum e escuro, e não havia toalhas na dúzia de mesas ali existentes. Sentados a uma delas, quatro chineses tomavam ruidosamente sopa de talharim e, quando ele entrou, um garçom entediado junto à caixa registradora ergueu os olhos do programa de corridas e começou a levantar-se, segurando um cardápio. Travkin fez que não com a cabeça e cruzou o arco que levava à parte dos fundos.