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A salinha continha quatro mesas. Estava vazia, exceto pela presença de um homem.

— Zdrástvuitie!¹— disse Suslev indolentemente, nas suas roupas leves e bem-talhadas.

¹ “Boa tarde." Em russo no original. (N. do E.)

— Zdrástvuitie — replicou Travkin, seus olhos eslavos estreitando-se ainda mais. Depois, continuou, em russo: — Quem é você?

— Um amigo, Alteza.

— Por favor, não me chame assim, não sou alteza. Quem é você?

— Ainda um amigo. No passado, você foi um príncipe. Quer me fazer companhia? — Suslev indicou cortesmente uma cadeira. Havia uma garrafa de vodca aberta sobre a mesa, e dois copos. — Seu pai, Nikolai Petróvitch, também foi príncipe, como o pai dele, e diversas gerações passadas, príncipe de Kurgan e Tobol.

— Está falando por enigmas, amigo — falou Travkin, aparentemente calmo, e sentou-se diante do outro. O contato do 38 contra seu corpo diminuiu um pouco sua apreensão. — Pelo seu sotaque, é moscovita... e georgiano. Suslev riu.

— Tem bom ouvido, príncipe de Kurgan. É, sou moscovita, mas nasci na Geórgia. Meu nome não importa, mas sou um amigo que...

— Meu, da Rússia ou dos soviéticos?

— Dos três. Vodca? — perguntou Suslev, levantando a garrafa.

— Por que não? — Travkin ficou vendo o outro homem servir os dois copos, depois, sem hesitar, pegou o copo errado, aquele que estava mais longe de si, e ergueu-o. — Saúde!

Sem hesitar, Suslev pegou o outro, fez "tim-tim", esvaziou-o e encheu-o outra vez.

— Saúde!

— É o homem que me escreveu?

— Tenho notícias de sua mulher.

— Não tenho mulher. O que quer de mim, amigo?

O modo como Travkin empregou a palavra era um insulto. Viu o clarão de raiva quando Suslev ergueu os olhos do copo, e se preparou.

— Desculpo sua grosseria por esta vez, Aleksei Ivánovitch — disse Suslev, com dignidade. — Não tem motivo para ser grosseiro comigo. Nenhum. Por acaso o insultei?

— Quem é você?

— O nome de sua mulher é Nestorova Mikail, e o pai dela era o príncipe Anatóli Zergueiev, cujas terras abrangem Karaganda, que não fica muito longe das terras da sua própria família, a leste dos Urais. Ele era um casaque, não era?, um grande príncipe dos casaques, a quem algumas pessoas ainda chamam de cossacos?

Travkin manteve as mãos nodosas imóveis, e a fisionomia impassível, mas não pôde evitar que o sangue lhe fugisse do rosto. Estendeu a mão e serviu mais dois copos, a garrafa ainda cheia pela metade. Sorveu a bebida.

— Boa vodca, não como o mijo aqui de Hong Kong. Onde a conseguiu?

— Em Vladivostok.

— Ah. Estive lá, certa vez. É uma cidade chata e suja, mas a vodca é boa. Bem, qual é o seu nome verdadeiro, e o que quer?

— Conhece bem Ian Dunross? Travkin ficou surpreso.

— Treino os cavalos dele... já há... este é o meu terceiro ano, por quê?

— Gostaria de ver a princesa Nestoro...

— Santo Deus, seja você quem for, já lhe disse que não tenho mulher. Agora, pela última vez, o que quer comigo?

Suslev encheu o seu copo, e a sua voz tornou-se ainda mais bondosa.

— Aleksei Ivánovitch Travkin, sua mulher, a princesa, hoje está com sessenta anos. Mora em Iakutsk, no...

— No Lena? Na Sibéria? — Travkin sentiu que o coração ia explodir. — Em que gulag, seu bosta?

Do outro lado do arco, na outra sala, que agora estava vazia, o garçom ergueu os olhos momentaneamente, depois bocejou e continuou a ler.

— Não é um gulag, por que seria um gulag? — falou Suslev, a voz tornando-se mais dura. — A princesa foi para lá por vontade própria. Mora lá desde que saiu de Kurgan. A...

— Suslev enfiou a mão no bolso, tirando de lá a carteira. — Esta é a sua dacha, em Iakutsk — disse, pousando na mesa uma fotografia. — Creio que pertencia à família dela.

O chalé estava cercado de neve, dentro de uma clareira simpática, as árvores ao fundo, as cercas bem-cuidadas, e era bonito, com a fumaça saindo da chaminé. Uma figurinha encapotada acenava alegremente para a máquina fotográfica... longe demais para que se pudesse ver com clareza o seu rosto.

— E essa é a minha mulher? — perguntou Travkin, a voz áspera.

— É.

— Não acredito!

Suslev mostrou uma fotografia. Um retrato. A senhora era grisalha, na casa dos cinqüenta ou sessenta anos, e, embora os problemas de todo um mundo a tivessem marcado, o rosto dela era ainda elegante, ainda aristocrático. O calor de seu sorriso pareceu chegar a ele, e o arrasou.

— Seu... seu bosta do KGB — disse com voz rouca, certo de tê-la reconhecido. — Seu nojento, seu podre, seu filho da m...

— Por tê-la encontrado? — exclamou Suslev, com raiva.

— Por ter visto que cuidaram dela, deixaram-na em paz, não a incomodaram, nem a mandaram para... para os locais de correção que ela e toda a sua classe mereciam? — Irritado, serviu-se de outra bebida. — Sou russo, e tenho orgulho disso. Você emigrou, você saiu de lá. Meu pai e o pai dele foram propriedade de um dos da sua classe. Meu pai morreu nas barricadas em 1916, e minha mãe... e antes de morrerem já viviam à míngua. Eles... — Deteve-se, com esforço. Depois, falou, num tom de voz diferente: — Concordo que há muito o que perdoar e esquecer, dos dois lados, e tudo isso já passou, mas digo-lhe que nós, soviéticos, não somos todos animais... não todos nós. Não somos como o Béria Sanguinário e aquele arqui-demônio assassino, o Stálin... Não todos. — Apanhou o seu maço de cigarros. — Fuma?

— Não. Você é do KGB ou do gru?

O KGB era o Comitê para Segurança do Estado; o gru era o Diretório de Informações do Estado-Maior. Não era a primeira vez que Travkin era abordado por um deles. Antes, sempre conseguira despistá-los, disfarçado em alguém desinteressante e sem importância. Mas agora estava numa armadilha. Aquele homem sabia demais a seu respeito, verdades demais. "Quem é você, seu filho da mãe? E o que está realmente querendo?", pensou, ao ver Suslev acender um cigarro.

— Sua mulher sabe que está vivo.

— Impossível. Ela está morta. Foi assassinada pelas turbas quando o nosso pala... quando nossa casa em Kurgan foi saqueada, incendiada, destroçada... a mansão mais linda, e a mais desarmada, num raio de quilômetros.

— As massas tinham o direito de...

— Aquele não era o meu povo. Estava sendo guiado por trotskistas importados, que depois assassinaram os meus camponeses aos milhares... até que eles próprios foram todos eliminados por outros da sua própria ralé.

— Talvez sim, talvez não — disse Suslev, friamente. — Mesmo assim, príncipe de Kurgan e Tobol, ela escapou com uma velha criada e fugiu para o leste, pensando que poderia encontrá-lo, que poderia escapar atrás de você, pela Sibéria, para a Manchúria. A criada era natural da Áustria, e se chamava Pavchen.

Os pulmões de Travkin pareciam não ter mais ar.

— Mais mentiras — ouviu-se dizer, sem acreditar mais nas suas palavras, o espírito destroçado pelo lindo sorriso dela. — Minha mulher está morta. Jamais iria tanto para o norte.

— Ah, mas foi. O trem em que fugia foi desviado para o norte. Era outono. As primeiras nevadas já tinham chegado, e então ela resolveu esperar o inverno passar, em Iakutsk. Tinha que esperar... — Suslev pousou outra foto na mesa. — Estava grávida. Este é o seu filho, e a família dele. Foi tirada no ano passado. — O homem era bonito, quarentão, usando a farda de major da força aérea soviética, e sorria constrangido para a câmara, enlaçando com o braço uma bela mulher na casa dos trinta anos, com três crianças felizes, um bebê, uma garota sorridente de seis ou sete anos, com os dentes da frente faltando, e um garoto de dez anos que tentava bancar o sério.