— Sua mulher deu-lhe o nome de Piotr Ivánovitch, como seu avô.
Travkin não tocou na foto. Apenas a fitou, o rosto sem cor. Depois, desviou os olhos dela, com esforço, e serviu-se de uma bebida. A seguir, serviu também uma para Suslev.
— É... é uma reconstrução brilhante — disse, tentando ser convincente. — Brilhante.
— A criancinha se chama Viktoria, a garota é Nichola, como sua avó. O garoto é Aleksei. O major Ivánovitch é piloto de bombardeiro.
Travkin ficou calado. Seus olhos voltaram para a foto da bela senhora idosa. Estava quase chorando, mas ainda controlava a voz.
— Ela sabe que estou vivo, é?
— Sabe.
— Há quanto tempo?
— Três meses. Há uns três meses. Um dos nossos lhe contou.
— Quem são eles?
— Quer vê-la?
— Por que apenas há três meses... por que não um ano, três anos?
— Foi apenas há seis meses que descobrimos quem você é.
— Como fizeram isso?
— Esperava ficar anônimo para sempre?
— Se ela soubesse que estou vivo, se um dos seus lhe contou, ela teria me escrito... É. Eles teriam pedido a ela que o fizesse, se... — A voz de Travkin estava esquisita. Parecia estar fora de si, num pesadelo, enquanto tentava pensar com clareza. — Ela me teria escrito uma carta.
— E escreveu. Eu a darei a você dentro dos próximos dias. Quer vê-la?
Travkin forçou-se a engolir sua agonia. Indicou o retrato da família.
— E... ele também sabe que estou vivo?
— Não. Nenhum deles sabe. Isso não foi sugestão nossa, Aleksei Ivánovitch. Foi idéia da sua mulher. Por medida de segurança... para protegê-lo, pensou. Como se fôssemos nos vingar dos filhos pelos pecados dos pais! Ela passou dois invernos esperando em Iakutsk. A essa altura, a Rússia já estava em paz, e então ela ficou lá. Nessa época, imaginava que você estivesse morto, embora tivesse esperança de que ainda vivesse. O menino cresceu acreditando que você tivesse morrido, e nada sabia a seu respeito. Ainda não sabe. Como pode ver, é motivo de orgulho para vocês dois. Foi primeiro aluno da escola local, depois foi para a universidade, como vão todas as crianças bem-dotadas, hoje em dia... Sabe, Aleksei Ivánovitch, na minha época fui o primeiro de toda a minha província a freqüentar uma universidade, o primeiríssimo, de uma família de camponeses. Hoje em dia somos justos, na Rússia.
— Quantos cadáveres teve que fazer, para se tornar o que é hoje?
— Alguns — disse Suslev, de cara fechada —, todos eles criminosos ou inimigos da Rússia.
— Fale-me a respeito deles.
— Falarei. Algum dia.
— Lutou na última guerra... ou era do comissariado?
— Fui comandante do 16.° Batalhão Blindado, 45.° Exército. Estive em Sebastópol... e em Berlim. Quer ver sua mulher?
— Daria a minha vida, se esta é realmente a minha mulher, e se está viva.
— Está. Posso dar um jeito.
— Onde?
— Em Vladivostok.
— Não. Aqui em Hong Kong.
— Lamento, é impossível.
— Claro. — Travkin soltou uma risada sem humor. — Claro, amigo. Beba! — Serviu o restante da vodca, dividindo-a igualmente. — Saúde!
Suslev fitou-o. Depois, olhou para o retrato da mulher e para a foto do major da força aérea com a família, e apanhou-os, imerso em pensamentos. O silêncio aumentou. Ele cocou a barba. Depois disse, decisivamente:
— Está bem. Aqui em Hong Kong. O coração de Travkin deu um salto.
— Em troca do quê? Suslev apagou o cigarro.
— Informações. E cooperação.
— Como?
— Quero saber tudo o que você sabe sobre o tai-pan da Casa Nobre, tudo o que você fez na China, quem conhece, com quem se encontrou.
— E a cooperação?
— Isso vem depois.
— E, em troca, trará a minha mulher para Hong Kong?
— Trarei.
— Quando?
— Até o Natal.
— Como posso confiar em você?
— Não pode. Mas, se cooperar, ela estará aqui pelo Natal. — Travkin observava as duas fotos com que Suslev brincava, depois notou o olhar dele, e seu estômago se retorceu. — De qualquer maneira, tem que ser sincero comigo. Com ou sem sua mulher, príncipe de Kurgan, ainda temos o seu filho e netos como reféns.
Travkin sorveu sua bebida demoradamente.
— Agora, acredito que você seja o que é. Por onde quer começar?
— Pelo tai-pan. Mas, primeiro, vou dar uma mijada. Suslev se levantou, perguntou ao garçom onde ficava o banheiro, e saiu pela porta da cozinha.
Agora que Travkin estava sozinho, o desespero tomou conta dele. Pegou a foto do chalé que ainda estava sobre a mesa, e olhou para ela. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Afastou-as com a mão, e sentiu a arma sob o ombro. Não o ajudaria, agora. Com toda a sua força interior resolveu ser sensato e não acreditar, mas no fundo do coração sabia que tinha visto a foto dela, e que faria qualquer coisa, arriscaria qualquer coisa para vê-la.
Durante anos tentara evitar os caçadores, sabendo que era sempre perseguido. Fora o líder dos brancos na sua área junto à Ferrovia Transiberiana, e matara muitos vermelhos. Finalmente, cansara-se das matanças e, em 1919, fora para Xangai e um novo lar, até que chegaram os exércitos japoneses. Fugira deles para se unir aos guerrilheiros chineses, abrindo caminho, sempre lutando, para o sul e para o oeste, para Chungking, onde se unira a outros saqueadores, ingleses, franceses, australianos, chineses — qualquer um que pagasse —, até que os japoneses se renderam incondicionalmente, e ele voltara para Xangai, de onde em breve fugiria outra vez. Sempre fugindo, pensou.
"Pelo sangue de Cristo, minha querida, sei que você está morta. Eu sei. Quem me contou viu a turba saquear o nosso palácio, depois cair sobre você...
"Mas, agora?
"Você está mesmo viva?"
Travkin olhou com ódio para a porta da cozinha, sabendo que se sentiria atormentado eternamente, até ter certeza quanto a ela. "Quem é este filho da puta?", pensou. "Como foi que me encontraram?"
Sombriamente, esperou e esperou, e então, num pânico repentino, foi procurá-lo. O banheiro estava vazio. Correu para a rua, mas estava cheia de outras pessoas. O homem desaparecera.
Travkin sentiu um gosto amargo na boca, e ficou doente de apreensão. "Em nome de Deus, o que ele quer com o tai-pan?"
33
17h50m
— Alô, Ian — disse Penelope. — Chegou cedo! Como foi o dia?
— Bom, bom — disse Dunross, distraidamente. Além de todos os outros desastres, pouco antes de sair do escritório recebera um relatório de Brian Kwok dizendo, entre outras coisas, que Alan Medford Grant fora provavelmente assassinado, e advertindo-o para tomar sérias precauções.
— Ah, foi um dia daqueles, é? — disse ela, prontamente. — Que tal uma bebida? É. Que tal um pouco de champanha?
— Boa idéia. — Então, notou o sorriso dela, retribuiu-o, e sentiu-se muito melhor. — Penn, você sabe ler pensamentos!
Jogou a pasta sobre um aparador e acompanhou-a até uma das salas de estar da Casa Grande. O champanha já estava no balde de gelo, aberto, com duas taças parcialmente cheias e outra esperando por ele, no gelo.
— Kathy está lá em cima. Está lendo uma história para Glenna dormir — disse Penelope, servindo-lhe a bebida. — Ela... ela acaba de me contar sobre... sobre a moléstia.
— Ah! — Aceitou a taça. — Obrigado. Como foi que Andrew reagiu? Ele não tocou no assunto hoje.
— Ela vai lhe contar hoje à noite. O champanha era para lhe dar alguma coragem. — Penelope ergueu os olhos para ele, angustiada. — Ela vai ficar boa, não vai, Ian?
— Acho que sim. Tive uma longa conversa com o dr. Tooley. Ele foi animador, deu-me os nomes dos três maiores especialistas da Inglaterra, e outros três dos Estados Unidos. Já telegrafei marcando hora com os três da Inglaterra, e o dr. Ferguson vai mandar pelo correio o histórico dela... estará lá quando vocês chegarem.