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Ela sorveu o seu champanha. Uma leve brisa tornava o dia abafado mais ameno. As portas envidraçadas estavam abertas para o jardim. Eram quase seis horas.

— Acha que devemos ir imediatamente? Será que alguns dias farão diferença?

— Acho que não.

— Mas devemos ir?

— Se fosse você, Penn, teríamos tomado o primeiro avião.

— É. Se eu tivesse lhe contado.

— Teria me contado.

— É, suponho que sim. Fiz reservas para amanhã. Kathy também achou boa idéia. No vôo da BOAC.

Ele ficou surpreso.

— Claudia não me disse nada. Ela sorriu.

— Eu mesma as fiz. Sou bastante capaz. Fiz reservas para Glenna, Kathy e eu. Poderemos levar o histórico conosco. Achei melhor Kathy não levar nenhum dos filhos. Ficarão perfeitamente bem com as amahs.

— É, é muito melhor assim. O dr. Tooley foi inflexível sobre a questão do repouso. É o principal, disse ele, muito descanso. — Dunross sorriu para ela. — Obrigado, Penn.

Ela fitava as gotas de condensação no lado externo da garrafa e do balde de gelo.

— Que coisa horrível, não é?

— Pior, Penn. Não há cura. Ele acha... acha que a medicação deterá a doença. — Terminou de beber, e serviu novamente as duas taças. — Algum recado?

— Ah, desculpe! Sim, estão sobre o aparador. Houve um telefonema interurbano de Marselha, há pouco.

— Susanne?

— Não. Um tal Sr. Deland.

— É o nosso agente lá.

— Uma desgraça o que aconteceu com o jovem Borge.

— É.

Dunross correu os olhos pelos recados. Johnjohn, no banco, Holdbrook, Phillip Chen, e o inevitável "por favor, ligue para Claudia". Soltou um suspiro. Fazia apenas meia hora desde que deixara o escritório, e ia ligar para ela, de qualquer modo. "Os maus não têm descanso", pensou, e sorriu com os seus botões.

Gostara de ter passado a perna no Gornt, na Bolsa. O fato de não ter dinheiro no momento para pagar não o preocupava. "Tenho cinco dias de prazo", pensou. "Tudo está sob controle... com sorte. Ah, sim, com joss!"

Desde que seu corretor lhe telefonara em pânico, alguns minutos depois das dez, contando os boatos que varriam a Bolsa, e que as ações dele estavam oscilando, ele estivera guardando suas defesas contra o ataque repentino e inesperado. Junto com Phillip Chen, Holdbrook, Gavallan e De Ville, reunira todos os principais acionistas que puderam encontrar e contara-lhes que os boatos de que a Struan não poderia cumprir suas obrigações eram bobagem, e sugeriu que se recusassem a emprestar a Gornt grandes blocos de ações da Struan, mas que lhe cedessem algumas ações, aqui e ali. Contou a uns poucos escolhidos, muito confidencialmente, que o contrato com a Par-Con estava assinado, selado, e prestes a ser carimbado, e que aquela era uma oportunidade maravilhosa de esmagar para sempre a Rothwell-Gornt.

— Se o Gornt vender a descoberto, ele que o faça. Fingiremos ser vulneráveis, mas sustentaremos as ações. Então, na sexta, faremos o comunicado, nossas ações subirão vertiginosamente, e ele perderá a camisa, a gravata e as calças — dissera-lhes. — Teremos de volta a nossa companhia aérea, além da dele, e, com os navios dele e os nossos, juntos, dominaremos todo o comércio aéreo e terrestre que entra e sai da Ásia!

"Se pudéssemos realmente esmagar o Gornt", pensou fervorosamente, "ficaríamos a salvo por gerações. E poderemos, com joss, a Par-Con e mais joss! Mas vai ser um sufoco!"

Ele transpirara confiança o dia todo, sem se sentir nada confiante. Muitos dos seus grandes acionistas lhe tinham telefonado, nervosos, mas ele os acalmara. Tanto Tung Pão-Duro quanto Wu Quatro Dedos possuíam grandes blocos de ações, através de representantes tortuosos. Ele ligara para ambos, à tarde, para obter sua concordância em não emprestar ou vender seus principais títulos, durante a próxima semana. Ambos haviam concordado, mas a coisa não fora fácil com nenhum dos dois.

"Bem", pensou Dunross, "de um modo geral eu me livrei do ataque inicial. Amanhã é que se saberá a história real... ou na sexta-feira: Bartlett é um inimigo, um amigo ou um judas?"

Sentiu a raiva crescer, mas controlou-se. "Acalme-se", disse para si mesmo, "pense calmamente. É o que farei, mas é curioso que tudo o que Bartlett disse na noite da festa (todas aquelas coisas secretíssimas que apresentou tão pronta e subitamente para abalar minhas defesas) tenha hoje milagrosamente varrido o mercado como um tufão. Quem é o espião? Quem lhe deu as informações? Será o mesmo espião da Sevrin? Bem, deixe para lá, no momento tudo está sob controle. Acho eu."

Dunross foi até o telefone e pediu à telefonista uma ligação pessoal para o Sr. Deland, e que ela o chamasse quando ele estivesse na linha.

— Será que Susanne já chegou lá? — indagou Penelope.

— Acho que sim, se o avião estiver no horário. São cerca de onze horas, hora de Marselha, portanto não deve ser uma emergência. Uma tristeza o que houve com o Borge! Eu gostava dele.

— O que Avril vai fazer?

— Vai ficar tudo bem com ela. Avril vai voltar para casa para criar o filho, e logo encontrará um Príncipe Encantado, um príncipe novo, e o filho dela entrará para a Struan, e nesse meio tempo ela estará protegida e amparada.

— Acredita mesmo nisso, Ian... sobre o Príncipe Encantado?

— Sim — disse ele com firmeza. — Acredito que tudo vai dar certo. Vai dar tudo certo, Penn, para ela, para Kathy, para... para todo mundo.

— Você não pode carregar todo mundo, Ian.

— Eu sei. Mas ninguém, ninguém na família vai sentir falta de coisa alguma enquanto eu estiver vivo, e isso será para sempre.

A mulher olhou para ele, e lembrou-se da primeira vez que o vira, um jovem semelhante a um deus sentado no seu caça destroçado que deveria ter sido abatido, mas que, milagrosamente, não o fora. Ian, simplesmente sentado ali, depois saindo do avião, abafando o terror, ela vendo nos olhos dele pela primeira vez o que era a morte, mas ele a dominando, e voltando, e simplesmente aceitando a xícara de chá, dizendo: "Oh, mas que ótimo, obrigado. Você é nova aqui, não é?"

Seu lindo sotaque aristocrático era tão distante do ambiente dela!

Fazia tanto tempo, fazia mil anos, uma outra vida, pensou. Que dias maravilhosos, pavorosos, terríveis, belos, angustiantes. "Será que ele vai morrer hoje, ou voltar hoje? Será que vou morrer hoje, no bombardeio matutino ou no noturno? Onde estão papai e mamãe, e será que o telefone não está funcionando, como de costume, ou será que a casinha miserável em Streat-ham sumiu junto com outros milhares iguais a ela?"

E, certo dia, sumira, e então ela não tinha mais passado. Apenas Ian, seus braços, sua força e confiança, e ela apavorada de que ele se fosse, como os demais. Aquela fora a pior parte, disse consigo mesma. A espera, a expectativa, sabendo como os aviadores eram vulneráveis, e como todos o somos. "Meu Deus, como tivemos que crescer depressa!"

— Espero que seja para sempre, querido — falou, na sua voz fria, inexpressiva, querendo ocultar a imensidão do seu amor. — É, quero que você seja imortal!

Ele abriu um sorriso para ela, cheio de amor.

— Sou imortal, Penn, não se preocupe. Depois de morto, ainda estarei cuidando de você, Glenna, Duncan, Adryon e todo o resto.

Ela o fitou.

— Como faz Dirk Struan?

— Não — disse, agora com seriedade. — Ele é uma presença que jamais igualarei. Ele é perpétuo... eu sou temporário. — Os olhos dele a observavam. — Está um tanto séria, hoje, não está?

— Está um tanto sério, hoje, não está? Riram.

— Estava só pensando em como a vida é transitória, como é violenta, inesperada, cruel — disse ela. — Primeiro John Chen, e agora Borge, Kathy... — Um arrepio percorreu seu corpo, sempre o medo de perdê-lo. — Quem será o próximo?