— Qualquer um de nós. Nesse meio tempo, seja chinesa. Lembre-se de que, sob os céus, todos os corvos são pretos. A vida é boa. Os deuses cometem erros e vão dormir. Assim sendo, a gente faz o melhor que pode, e nunca confia num quai loh!
Ela riu, em paz novamente.
— Há momentos, Ian Struan Dunross, em que gosto muito de você. Acho...
O telefone tocou. Ela parou e pensou: "Maldito seja esse desgraçado desse telefone. Se fosse onipotente, proibiria todos os telefonemas depois das seis da tarde, mas aí o pobre do Ian ficaria maluco e a maldita Casa Nobre desmoronaria, e ela é a vida do pobre Ian. Eu estou em segundo lugar, e as crianças também, e é assim que tem que ser. Não é?"
— Oh, alô, Lando — dizia Dunross —, o que há de novo?
— Espero não estar incomodando, tai-pan.
— De modo algum — replicou, toda a sua energia concentrada. — Acabo de chegar. Em que posso ajudá-lo?
— Lamento, mas vou retirar os quinze milhões de apoio que lhe prometi para amanhã. Temporariamente. O mercado está me deixando nervoso.
— Não há com o que se preocupar — disse Dunross, o estômago se contorcendo. — É só o Gornt fazendo das dele. Só isso.
— Estou realmente muito preocupado. Não é só o Gornt. É o Ho-Pak e o modo pelo qual todo o mercado está reagindo — disse Mata. — Com a corrida aos bancos atingindo o Ching
Prosperity e até mesmo o Vic... todos os sinais são muito ruins. Portanto, quero esperar e ver.
— O dia é amanhã, Lando. Amanhã. Estava contando com você.
— Triplicou a nossa próxima remessa de ouro, como pedi?
— Sim, fiz isso pessoalmente. Tenho as confirmações por telex de Zurique no código de costume.
— Excelente, excelente!
— Vou precisar de sua carta de crédito amanhã.
— Naturalmente. Se mandar um mensageiro agora até minha casa, dar-lhe-ei o meu cheque com a quantia integral.
— Cheque pessoal? — Dunross conteve o seu espanto. — De que banco, Lando?
— Do Victoria.
— Pombas, mas é um bocado de dinheiro para retirar agora.
— Não o estou retirando, estou apenas pagando por um pouco de ouro. Prefiro ter um pouco dos meus fundos em ouro fora de Hong Kong durante a próxima semana, e este é o momento ideal para fazê-lo. Mande que avisem por telex amanhã logo cedo. Logo cedo. É. Não estou sacando fundos, Ian, apenas pagando pelo ouro. Se eu fosse você, também tentaria obter liquidez.
O estômago dele deu outra reviravolta.
— O que foi que você andou ouvindo? — perguntou, com voz controlada.
— Você me conhece. Sou mais cauteloso do que você, tai-pan. O custo do meu dinheiro é muito alto.
— Não mais do que o meu.
— É. Esperemos o dia de amanhã, depois veremos. Mas não conte com os nossos quinze milhões. Lamento.
— Você soube de alguma coisa, conheço-o muito bem. O que é? Chi pao pu chu huo. Literalmente, "O papel não pode embrulhar o fogo", isto é, não se pode manter um segredo para sempre.
Fez-se uma longa pausa, depois Mata falou em voz mais baixa:
— Confidencialmente, Ian, o velho Pão-Duro está vendendo com força total. Está se preparando para se desfazer de todos os seus títulos. O diabo velho pode estar morrendo, mas seu faro para a perda de uma moeda é tão apurado como sempre foi, e jamais soube que ele se tivesse enganado.
— Todos os seus títulos? — perguntou Dunross, vivamente. — Quando foi que falou com ele?
— Estivemos em contato o dia todo. Por quê?
— Falei com ele depois do almoço, e ele me prometeu que não venderia ou emprestaria nenhuma ação da Struan. Mudou de idéia?
— Não. Estou certo de que não. Não pode. Não tem nenhuma ação da Struan.
— Tem quatrocentas mil ações!
— Tinha, tai-pan, embora na verdade o número estivesse mais próximo de seiscentas mil. Sir Luís tinha muito poucas ações, pessoalmente, é um dos muitos representantes de Pão-Duro. Desfez-se de todas as seiscentas mil ações. Hoje.
Dunross abafou uma exclamação obscena.
— É mesmo?
— Ouça, meu jovem amigo, isto é estritamente confidencial, mas você deve estar preparado: Pão-Duro ordenou a Sir Luís que vendesse ou emprestasse todos os seus títulos da Casa Nobre no momento em que os boatos começaram, hoje de manhã. Cem mil foram distribuídos pelos corretores e vendidos prontamente, o restante... o meio milhão de ações que você comprou de Gornt eram do Pão-Duro. No momento em que ficou evidente que havia um grande ataque à casa, e que Gornt estava vendendo a descoberto, Pão-Duro ordenou a Sir Luís que emprestasse tudo, exceto mil ações simbólicas, que conservou. Para não desmoralizar você quando a Bolsa fechou, Pão-Duro estava muito satisfeito. Teve hoje quase dois milhões de lucro.
Dunross estava imóvel. Notou que sua voz estava natural, serena e controlada, e isso o deixou satisfeito, mas estava em choque. Se Pão-Duro vendera, os Chins venderiam, e mais uma dúzia de amigos lhe seguiriam o exemplo, e isso seria o caos.
— O velho sacana! — exclamou, sem raiva dele. A culpa era sua, pois não falara com Pão-Duro a tempo. — Lando, e quanto às suas trezentas mil ações?
Ouviu o português hesitar, e seu estômago se revolveu outra vez.
— Ainda as tenho. Comprei-as a 16 logo que vocês se tornaram empresa de capital aberto. Portanto, ainda não estou preocupado. Talvez Alastair Struan tivesse razão quando desaconselhou a medida... a Casa Nobre só é vulnerável por esse motivo.
— Nosso índice de crescimento é cinco vezes o de Gornt, e sem termos nos tornado empresa de capital aberto jamais teríamos podido agüentar os desastres que herdei. Temos o apoio do Victoria. Ainda temos nossas ações do banco e um voto majoritário na diretoria. Portanto, eles têm que nos apoiar.
Somos realmente muito fortes, e uma vez que esta situação temporária tenha sido resolvida, seremos o maior conglomerado da Ásia.
— Talvez. Mas talvez você tivesse agido mais sensatamente aceitando a nossa proposta, ao invés de ficar permanentemente aberto aos riscos de compras de controle e desastres de mercado.
— Não podia naquela época. Não posso agora. Nada mudou.
Dunross deu um sorriso amargo. Lando Mata, Tung Pão-Duro e Chin Jogador, coletivamente, lhe haviam oferecido vinte por cento das rendas do seu sindicato de ouro e jogo em troca de cinqüenta por cento da Struan, se ele a mantivesse como companhia totalmente particular.
— Vamos, tai-pan, seja sensato! Pão-Duro e eu lhe daremos cem milhões em espécie hoje, em troca de cinqüenta por cento da empresa. Dólares americanos. Sua posição como tai-pan será intocável, dirigirá o novo sindicato e administrará os nossos monopólios de ouro e jogo, secreta ou abertamente... com dez por cento de todos os lucros a título de honorários pessoais.
— Quem indica o próximo tai-pan?
— Você... dependendo de consulta.
— Pronto. Está vendo? É impossível. Um controle de cinqüenta por cento dá a vocês poder sobre a Struan, e isso não me é permitido dar. Isso negaria o legado de Dirk, invalidaria o meu juramento, e cederia o controle absoluto. Lamento, não é possível.
— Por causa de um juramento a um deus desconhecido e incognoscível em que você não acredita... em nome de um pirata assassino que está morto há mais de cem anos?
— Seja por que motivo for, a resposta é não, obrigado.
— Você bem que pode perder toda a companhia.
— Não. Os Struans e os Dunrosses juntos temos sessenta por cento do controle de votação, e eu sozinho voto todas as ações. O que tenho a perder são todas as coisas materiais que possuímos, e deixar de ser a Casa Nobre, e juro pelo Senhor Deus que isso também não vai acontecer.
Fez-se um longo silêncio. Depois Mata disse, a voz amistosa como sempre:
— Nossa oferta é válida por duas semanas. Se a sorte estiver contra você, e você falhar, a oferta para dirigir o novo sindicato permanece de pé. Venderei ou emprestarei minhas ações a 21.