— Abaixo de 20... não a 21.
— Vai baixar tanto assim?
— Não. É só um hábito que tenho. 20 é melhor que 21.
— É. Bem. Então, vejamos o que o amanhã trará. Desejo-lhe boa sorte. Boa noite, tai-pan.
Dunross desligou o telefone e tomou o resto do seu champanha. Estava no mato sem cachorro. "Aquele velho sacana do Pão-Duro", pensou de novo, admirando a esperteza dele. "Concordar com tanta relutância em não vender nem negociar nenhuma ação da Struan, sabendo que só lhe restavam mil, sabendo que a renda das quase seiscentas mil já estava segura... aquele velho safado é um grande negociador. É muita esperteza da parte do Lando e do Pão-Duro fazerem a nova oferta agora. Cem milhões! Santo Deus, isso faria o Gornt parar de peidar na igreja! Eu podia usar essa grana para esmagá-lo, e logo a seguir assumir o controle das Propriedades Asiáticas e aposentar o Dunstan prematuramente. A seguir, passaria a Casa para o Jacques ou o Andrew, em grande forma, e...
"E depois, o quê? O que iria fazer, então? Mudar-me para as charnecas e caçar tetrazes? Dar festancas em Londres? Ou ir para o Parlamento e dormir na bancada dos deputados novatos, enquanto os socialistas entregam o país aos comunistas? Santo Deus, iria morrer de tédio! Iria..."
— O que foi? — exclamou, espantado. — Ah, desculpe, Penn, o que foi que disse?
— Disse que parece que você teve más notícias.
— É, foi sim. — Então, Dunross abriu um sorriso e toda a sua ansiedade se desfez. — É joss! Sou o tai-pan — disse, satisfeito —, é de se esperar. — Pegou a garrafa. Estava vazia. — Acho que merecemos outra... Deixe, meu bem, eu pego. — Foi até a geladeira, embutida num imenso aparador chinês antigo, laqueado de escarlate.
— Como é que você agüenta, Ian? — perguntou ela. — Quero dizer, sempre parece acontecer algo de ruim, desde que você assumiu o cargo... e há sempre algum desastre, a cada telefonema. Você trabalha o tempo todo, nunca tira férias... desde que voltamos para Hong Kong. Primeiro seu pai, depois Alastair, e depois... será que nunca vai parar de chover a cântaros?
— Claro que não... o serviço é esse.
— E vale a pena?
Ele se concentrou na rolha, sabendo que a conversa não tinha razão de ser.
— Claro.
"Vale para você, Ian", pensou ela. "Mas não para mim." Após um momento, disse:
— Então quer dizer que posso ir?
— Sim, claro. Ficarei de olho em Adryon, e não se preocupe com Duncan. Divirta-se bastante e volte logo.
— Vai subir a montanha, no domingo?
— Vou. Depois vou para Taipé, e volto na terça-feira. Vou levar Bartlett comigo.
Ela ficou pensando em Taipé, e imaginando se haveria uma garota lá, uma garota especial, uma chinesa, com a metade da sua idade, com uma pele linda e macia, e com calor, não muito mais quente do que ela mesma, nem mais macia, nem mais esguia, mas com a metade da sua idade, com um sorriso sempre a postos, sem os terríveis anos de sobrevivência a curvá-la... os anos nojentos do crescimento, os anos bons e terríveis da guerra, os anos em que teve filhos, criou filhos, e a realidade exaustiva do casamento, mesmo com um bom homem.
"Fico pensando, pensando, pensando. Se eu fosse homem... há tantas beldades aqui, tão ansiosas por agradar, tão facilmente disponíveis! Se a gente acreditar em um décimo do que se conta..."
Ela o observou enquanto ele servia o vinho fino, as bolhas e a espuma, o rosto dele forte, vigoroso e muito agradável, e perguntou-se: "Será que alguma mulher possui qualquer homem por mais do que uns poucos anos?"
— O quê? — perguntou ele.
— Nada — disse, amando-o. Levantaram as taças e brindaram. — Cuidado na subida da montanha.
— Claro.
— Como você dá conta de ser tai-pan, Ian?
— Como você dá conta de cuidar da casa, criar as crianças, levantando-se às horas mais estranhas, ano após ano, mantendo a paz, e todas as outras coisas que teve que fazer? Eu não poderia. Jamais. Teria batido as botas há muito tempo. É parte treinamento, e parte o que a gente nasceu para fazer.
— O lugar de uma mulher é dentro de casa?
— Não sei quanto às outras, Penn, mas contanto que você esteja na minha casa, tudo vai bem no meu mundo.
Estourou a rolha com capricho.
— Obrigada, querido — disse ela, sorrindo. Depois, franziu o cenho. — Mas temo não ter muita opção, nem nunca ter tido. Claro que agora é diferente, e a próxima geração tem sorte, vai mudar as coisas, provocar uma virada e dar aos homens o troco que merecem, de uma vez por todas.
— É? — comentou ele, mais concentrado em Lando Mata, no dia seguinte, e em como obter os cem milhões sem ceder o controle.
— É, sim. As moças da nova geração não vão agüentar a chatura do "lugar de mulher é no tanque". Deus, como odeio o serviço doméstico, como toda mulher odeia o serviço doméstico! Nossas filhas vão mudar tudo isso! Pelo menos Adryon. Meu Deus, detestaria ser marido dela!
— Toda geração pensa que vai mudar o mundo — disse Dunross, enchendo as taças. — Excelente champanha. Lembra como nós pensávamos? Lembra como nos queixávamos, ainda nos queixamos, das atitudes dos nossos pais?
— É verdade. Mas nossas filhas têm a pílula, e isso muda completamente a coisa, e...
— Hem? — Dunross fitou-a, chocado. — Quer dizer que Adryon toma pílula? Santo Deus, há quanto tempo... quer dizer que ela...
— Acalme-se, Ian, e ouça. Aquela pilulazinha trancou para sempre as portas do medo para a mulher... para os homens também, de certo modo. Acho que pouquíssimas pessoas se dão conta da enorme revolução social que ela vai criar.
— Agora, todas as mulheres podem fazer amor sem medo de ficarem grávidas, podem usar seus corpos como os homens usam os deles, para a gratificação, para o prazer, e sem vergonha. — Olhou vivamente para ele. — Quanto a Adryon, toma pílulas desde os dezessete anos.
— O quê?
— Claro. Preferiria que ela tivesse um filho?
— Santo Deus, Penn, claro que não — gaguejou Dunross.
— Mas, Santo Deus, quem? Quer... quer dizer que ela está tendo um caso, teve casos ou...
— Mandei-a ao dr. Tooley. Achei melhor que fosse consultá-lo.
— Você o quê?
— É. Quando estava com dezessete anos, veio me perguntar o que fazer. Disse que a maioria das suas amigas tomava pílula. Como existem vários tipos, quis que ela tivesse orientação de um perito. O dr. Too... Por que está assim tão vermelho, Ian? Adryon está com dezenove anos, fará vinte no mês que vem. É tudo muito comum.
— Não é, por Deus que não é!
— Och, meu rapaz, mas é — falou ela, imitando o sotaque escocês da Vovó Dunross, a quem ele adorara —, e o que estou querendo enfatizar é que as moças de hoje sabem o que estão fazendo. E não ouse contar a Adryon que lhe contei, senão esquento suas calças!
Ele a fitou.
— Saúde! — Com ar satisfeito, ela ergueu a taça. — Viu o Guardian extra desta tarde?
— Não mude de assunto, Penn. Não acha que devo falar com ela?
— De jeito nenhum. Não. É... um assunto muito particular. É o corpo dela, e a vida dela. E não importa o que você diga, Ian, ela tem o direito de fazer da sua vida o que lhe aprouver, e nada do que você diga vai fazer nenhuma diferença. Será tudo muito embaraçoso para vocês dois. É uma questão de prestígio — acrescentou, satisfeita com a sua esperteza. — Claro que Adryon vai ouvir com carinho os seus pontos de vista, mas você realmente precisa ser adulto e moderno, tanto para o seu bem quanto para o dela.
Subitamente, uma onda incontrolável de calor subiu ao rosto dele.
— O que foi? — perguntou ela.
— Estava pensando em... estava só pensando.
— Em quem foi, é ou poderá ser o amante dela?
— É.
Penelope Dunross soltou um suspiro.
— Pelo bem da sua sanidade, Ian, não pense! Ela é muito sensata, tem mais de dezenove anos... bem, é bastante sensata. Por falar nisso, não a vi hoje o dia todo. A safadinha fugiu com o meu lenço novo antes que eu pudesse pegá-la. Lembra da blusa que lhe emprestei? Encontrei-a toda amassada, largada no chão do banheiro! Ficarei muito satisfeita quando ela ficar independente, morando no seu próprio apartamento.