— Ela é menina demais, pelo amor de Deus!
— Não estou de acordo, querido. Como eu dizia, não há nada que se possa fazer contra o progresso, e a pílula é um salto à frente maravilhoso, fantástico, inacreditável. Você precisa ser mais sensato. Por favor.
— É que... pombas, foi uma coisa muito repentina, só isso.
Ela deu uma risada gostosa.
— Se estivéssemos falando de Glenna, eu poderia compre... Ora, Ian, pelo amor de Deus, estou só brincando! Nunca me ocorreu que você não tivesse imaginado que Adryon era uma senhorita muito saudável, ajustada, embora com um gênio terrível, irritante, e muito frustrada, sendo que a maioria dessas frustrações deriva de tentar nos agradar, a nós, com as nossas idéias antiquadas.
— Tem razão. — Tentou parecer convincente, mas não conseguiu, e disse com azedume: — Tem razão, embora... tem razão.
— Meu rapaz, não acha que está na hora de visitar a nossa Árvore dos Gritos? — falou, com sotaque escocês, e um sorriso.
Era um costume antigo do clã, no país de origem deles, que próximo da moradia da mulher mais velha da família do chefe ficaria a Árvore dos Gritos. Quando Ian era moço, Vovó Dunross era a mais velha, e o seu chalé se situava numa clareira nas colinas atrás de Kilmarnock e Ayrshire, onde ficavam as terras dos Struans. A árvore era um grande carvalho. Era para essa árvore que a pessoa se dirigia quando estava "com o diabo no corpo", e então, sozinha, a pessoa gritava e xingava o quanto queria.
—... e assim, minha filha — a linda velhinha lhe dissera na primeira noite —...e assim, minha filha, sempre há paz no lar, e ninguém precisa xingar o marido, a mulher, o amante, o filho. É apenas uma árvore, e a árvore pode suportar todos os xingamentos que o próprio Diabo inventou.
Penelope estava se lembrando de como a velha Vovó Dunross a aceitara no clã e no seu coração, desde o primeiro momento. Fora pouco depois de eles terem se casado. Era a sua segunda visita, Ian de licença por motivos de saúde, ainda de muletas, as pernas muito queimadas, mas sarando, o resto do corpo intacto, depois da aterrissagem forçada, flamejante, e ele furioso por não mais poder voar, ela secretamente feliz, agradecendo a Deus pela trégua.
— Mas, minha menina — acrescentara Vovó Dunross com uma risadinha, naquela noite, com os ventos do inverno uivando nas charnecas, granizo do lado de fora, e eles quentinhos e aconchegados diante do fogo da lareira, a salvo dos bombardeios, bem alimentados, e sem outra preocupação que não fosse Ian ficar bom depressa —, certa vez, quando este Dunross tinha seis anos, e, puxa vida, que gênio tinha já nessa idade, e o pai dele, Colin, tinha viajado para um desses países pagãos estrangeiros, como sempre, este Dunross vinha passar as férias do colégio interno aqui em Ayr. É, e às vezes vinha me visitar, e eu lhe contava histórias do clã e do seu avô, e do seu bisavô. Mas, desta feita, nada conseguia afastar o demônio que tomara conta dele. Era uma noite igual a esta, e então eu o mandei lá para fora, o pirralhinho, é, eu o mandei para a Árvore dos Gritos... — A velhinha dera muitas risadinhas, sorvera o seu uísque e continuara: — É, e lá se foi o diabinho, todo empertigado, o vento levantando o seu saiote, e xingou a árvore. É, até os animais da floresta fugiram ante a sua ira, e depois ele voltou.
"— Deu-lhe uma boa bronca? — perguntei eu.
"— Dei — disse ele na sua vozinha. — É, vovó, dei-lhe uma boa bronca, a melhor de todas.
"— Ótimo — falei. — E agora está em paz!
"— Bem, não exatamente, vovó, mas estou cansado.
"E foi então, menina, naquele momento, que se ouviu um estrondo pavoroso, a casa inteira tremeu e pensei que era o fim do mundo, mas o pirralhinho correu para ver o que tinha acontecido e um raio fizera em pedaços a Árvore dos Gritos.
"— Puxa, vovó — disse na sua vozinha aguda, quando voltou, de olhos arregalados —, essa foi mesmo a melhor que já fiz. Posso fazer de novo?
"Ian caíra na risada.
"— Isso é história sua, não lembro de nada disso. Você está inventando, vovó!
"— Pois sim! Você estava com cinco ou seis anos, e no dia seguinte fomos escolher a nova árvore, a que você verá amanhã, menina, e a abençoamos em nome do clã, e eu disse ao jovem Ian que fosse um pouco mais cuidadoso, da próxima vez!"
Haviam rido juntos e depois, durante a noite, ela acordara e não encontrara Ian, nem suas muletas. Ficara atenta, esperando. Quando ele voltou, estava ensopado, mas cansado e em paz. Fingiu que dormia até que ele tivesse se metido na cama de novo. Aí, virou-se para ele, dando-lhe todo o calor de que era capaz.
— Lembre-se, minha menina — Vovó Dunross dissera-lhe em particular, no dia em que partiram —, se quiser manter o seu casamento, providencie para que este Dunross tenha sempre por perto uma Árvore dos Gritos. Não tenha medo. Escolha uma, sempre escolha uma, onde quer que estejam. Este Dunross precisa de uma Árvore dos Gritos por perto, embora não o admita, e só vai usá-la raramente. Ele é como Dirk. É forte demais...
E assim, aonde quer que fossem, tinham uma árvore. Penelope insistira. Certa vez, em Chungking, para onde Dunross fora mandado como oficial de ligação dos Aliados, depois que se curou, ela fizera de um bambu a Árvore dos Gritos deles. Ali em Hong Kong era um imenso jacarandá que dominava o jardim inteiro.
— Não acha que devia fazer uma visitinha a ela?
A árvore era sempre "ela" para ele, e "ele" para ela.
"Todo mundo devia ter uma Árvore dos Gritos", pensou Penelope. "Todo mundo."
— Obrigado — disse ele. — Agora estou bem.
— Como foi que Vovó Dunross teve tanta sabedoria e continuou tão maravilhosa depois de tanta tragédia na vida?
— Não sei. Vai ver que elas eram feitas de material mais forte, naquela época.
— Sinto saudade dela. — Vovó Dunross estava com oitenta e cinco anos quando morreu. Era Agnes Struan quando se casou com o primo Dirk Dunross, Dirk McCloud Dunross, cuja mãe, Winifred, única filha de Dirk Struan, dera-lhe o nome do pai, como homenagem. Dirk Dunross fora o quarto tai-pan, e morrera no mar, levando o Sunset Cloud para casa. Tinha apenas quarenta e dois anos, ao desaparecer, e ela, trinta e um. Jamais se casou de novo. Tiveram três filhos e uma filha. Dois dos filhos morreram na Primeira Guerra, o mais velho em Galípoli, com vinte e um anos, o outro em Ypres, Flandres, com dezenove. A filha Anne casara-se com Gaston de Ville, pai de Jacques. Anne morrera nos bombardeios de Londres, para onde haviam fugido todos os De Villes, exceto Jacques, que ficara na França e lutara contra os nazistas, com os maquis. Colin, o último dos seus filhos, pai de Ian, também tivera três filhos e uma filha, Kathren. Dois filhos também tinham morrido na Segunda Guerra Mundial. O primeiro marido de Kathren, líder da esquadrilha de Ian, fora morto na Batalha da Inglaterra. — Tantas mortes, mortes violentas — disse Penelope, com tristeza. — Ver todos eles nascerem, e todos morrerem... terrível! Pobre vovó! No entanto, quando morreu, pareceu partir tão serenamente, com aquele seu lindo sorriso.
— Talvez fosse joss. Mas os outros, também era o destino deles. Apenas fizeram o que tinham que fazer, Penn. Afinal de contas, nesse aspecto, a história da nossa família é bem comum. Somos britânicos. A guerra tem sido um meio de vida há séculos. Olhe só para a sua família. Um dos seus tios morreu no mar, na marinha, na Primeira Grande Guerra; outro na última, em El-Alamein; seus pais morreram na blitz... tudo muito comum. — A voz dele endureceu. — Não é fácil explicar para um estranho, é?
— Não. Todos tivemos que crescer tão depressa, não é, Ian? — Ele fez que sim com a cabeça, e depois de um momento, ela falou: — É melhor ir se vestir para o jantar, querido, vai se atrasar.