— Não estou com vontade de ir — falou ele bruscamente. Shitee T'Chung é um chato, e agora que virou Sir Shitee, é um chato ao quadrado. — Há anos o nome Shi-teh fora adulterado e se transformara em "Shitee", apelido usado pelos amigos íntimos. — De qualquer maneira, ainda nem são oito horas, o jantar é só às nove e meia, e ele está sempre atrasado. Os banquetes dele começam sempre uma hora atrasados, pelo menos. Pelo amor de Deus, vá você!
— Ayeeyah, você tem que ir. É uma questão de prestígio — replicou, igualmente mal-humorada. — Meu Deus, depois do que houve hoje na Bolsa... se não formos, ficaremos terrivelmente desprestigiados, e isso vai fazer com que as ações caiam mais ainda! Hong Kong inteira vai rir de nós. Mal podem esperar. Dirão que estamos com tanta vergonha de a Casa não poder pagar as suas contas que nem queremos dar as caras em público. Hum! E quanto à nova mulher de Shitee, Constance, aquela meretriz bajuladora nem pode esperar para me ver humilhada! — Estava quase guinchando. As perdas dela naquele dia ultrapassavam cem mil, dos seus dólares secretos e particulares. Quando Phillip telefonara da Bolsa, pouco depois das três, para contar-lhe o que se passara, ela quase desmaiara. — Oh ko, você tem que vir, ou ficaremos arruinados!
Com ar infeliz, o marido concordou. Sabia que fofocas e fofoqueiros abundariam no banquete. O dia todo fora inundado de perguntas, gemidos e pânico.
— Suponho que tenha razão. — Perdera quase um milhão naquele dia, e se a corrida continuasse e Gornt vencesse, sabia que seria destruído. "Oh, oh, oh, por que fui confiar no Dunross e comprar tanto?", perguntava-se, com tanta raiva que sentia vontade de dar um chute em alguém. Ergueu os olhos para a mulher. Seu coração se apertou ao notar os sinais do formidável desprazer dela em relação ao mundo em geral, e a ele em particular. Tremeu por dentro. — Está bem — disse, humildemente. — Não demoro nada.
Quando chegou à porta, o telefone tocou. Mais uma vez, seu coração se apertou, e sentiu-se nauseado. Recebera quatro telefonemas desde as seis horas. Todos tinham sido telefonemas comerciais lamentando o destino das ações, e "será que os boatos eram verdade, e oh ko, Phillip, é melhor eu vender...", cada um deles pior do que o anterior.
— Weyyyy? — atendeu, irado.
Fez-se uma breve pausa, depois uma voz igualmente rude disse num cantonense grosseiro:
— Você está de péssimo humor, seja lá quem for! Onde estão os seus bons modos, porra?
— Quem é? Quem está falando? — indagou em cantonense.
— Aqui é o Lobisomem. O Lobisomem-Chefe, por todos os deuses! Quem é você?
— Oh! — O sangue fugiu do rosto de Phillip Chen. Em pânico, fez sinal para a mulher. Ela veio depressa, e inclinou-se para ouvir também, tudo o mais esquecido, exceto a segurança da Casa. — Aqui... aqui fala o Honorável Chen — disse, cautelosamente. — Por favor, qual... qual é o seu nome?
— Está com cera nos ouvidos? Falei que era o Lobisomem. Acha que sou burro de lhe dar o meu nome?
— Des... desculpe, mas como posso saber que... que está falando a verdade?
— Como posso saber quem você é? Talvez seja um polícia comedor de bosta. Quem é você?
— Sou o Chen da Casa Nobre. Juro!
— Ótimo. Então, eu lhe escrevi uma carta dizendo que ligaria por volta das dezoito horas de hoje. Não recebeu a carta?
— Sim, recebi, sim — dizia Phillip Chen, tentando controlar um alívio a que se misturavam fúria, frustração e terror. — Deixe-me falar com meu Filho Número Um, por favor.
— Isso não é possível, não, não é possível! Um sapo pode pensar em comer um cisne? Seu filho está noutra parte da ilha... na verdade está nos Novos Territórios, longe de um telefone, mas a salvo, Chen da Casa Nobre, ah, sim, a salvo. Nada lhe falta. Tem o dinheiro do resgate?
— Tenho... pelo menos pude levantar cem mil. O...
— Todos os deuses testemunhem a porra da minha paciência! — exclamou o homem, irado. — Sabe muito bem que pedimos quinhentos mil. Quinhentos ou um milhão ainda é o mesmo que um fio de pêlo em dez bois, para você!
— Mentiras! — guinchou Phillip Chen. — Tudo mentiras e boatos difundidos por meus inimigos! Não sou tão rico assim... Não ouviu falar do que houve na Bolsa, hoje?
Phillip Chen tateou em busca de uma cadeira, o coração batendo com violência, e sentou-se, ainda segurando o fone de maneira a que Dianne também pudesse escutar.
— Ayeeyah, Bolsa! Nós, pobres agricultores, não aplicamos na Bolsa de Valores! Está querendo a outra orelha dele?
Phillip Chen empalideceu.
— Não. Mas precisamos negociar. Quinhentos é demais. Posso dar um jeito de arranjar cento e cinqüenta mil.
— Se eu aceitar cento e cinqüenta mil serei motivo de chacota de toda a China! Está me acusando de vender gato por lebre? Cento e cinqüenta pelo Filho Número Um dos Chens da Casa Nobre? Impossível! Eu ficaria desmoralizado! Certamente, pode entender isso.
Phillip Chen hesitou.
— Bem — falou, razoavelmente —, nesse ponto tem razão. Primeiro, quero saber quando vou ter meu filho de volta.
— Logo que o resgate seja pago! Prometo-lhe pelos ossos dos meus ancestrais! Poucas horas depois de recebermos o dinheiro, nós o poremos na estrada principal de Sha Tin.
— Ah, ele está em Sha Tin, agora?
— Ayeeyah, você não consegue me fazer cair em armadilhas, Chen da Casa Nobre. Estou sentindo cheiro de bosta nessa conversa! A merda da polícia está escutando? O cão está bancando o valente porque o amo está escutando? Chamou a polícia?
— Não, juro. Não chamei a polícia e não estou tentando fazê-lo cair em nenhuma armadilha, mas, por favor, preciso de garantias, garantias razoáveis. — Phillip Chen estava orvalhado de suor. — Você está seguro, tem minha palavra, não chamei a polícia. Por que chamaria? Se o fizer, como poderemos negociar?
Outra longa hesitação, depois o homem disse, um pouco apaziguado:
— Concordo. Mas estamos com o seu filho; assim, qualquer coisa que aconteça é culpa sua, não nossa. Está certo, também serei razoável. Aceitarei quatrocentos mil, mas tem que ser esta noite!
— É impossível! Está me pedindo para pescar no mar e apanhar um tigre! Só recebi sua carta depois que os bancos tinham fechado, mas tenho cem mil em notas de baixo valor... — Dianne cutucou-o e ergueu dois dedos. — Ouça, Honorável Lobisomem, quem sabe posso pedir mais emprestado, ainda hoje. Quem sabe... ouça, dou-lhe duzentos mil esta noite. Estou certo de poder levantar essa quantia, em uma hora. Duzentos mil!
— Que todos os deuses me abatam e matem, se aceitar essa merda dessa ninharia. Quero trezentos e cinqüenta mil!
— Duzentos mil dentro de uma hora!
— A outra orelha dele dentro de dois dias, ou trezentos mil esta noite!
Phillip Chen gemeu, suplicou, bajulou e xingou, e negociaram mutuamente. Os dois homens eram peritos. Logo estavam engajados numa batalha de habilidade, cada um usando todos os seus poderes, o seqüestrador usando ameaças, Phillip Chen usando malícia, lisonja e promessas. Finalmente, Phillip Chen falou:
— Você é bom demais para mim, um negociador bom demais. Pagarei duzentos mil esta noite, e mais cem mil dentro de quatro meses.
— Dentro de um mês!
— Três!
Phillip Chen ficou estarrecido com o fluxo de obscenidades que se seguiu, e perguntou-se se tinha avaliado mal o adversário.
— Dois!
Dianne cutucou-o de novo, para que concordasse.
— Pois bem, concordo. Mais cem mil em dois meses.
— Ótimo! — O homem parecia satisfeito, depois acrescentou: — Pensarei no que propôs, e ligarei depois.
— Mas, espere um momento, Honorável Lobisomem. Quando li...