— Dentro de uma hora.
— Ma... — O telefone emudeceu. Phillip Chen praguejou, depois enxugou de novo a testa. — Pensei que o tinha nas mãos. Deus amaldiçoe o bosta de cachorro sem mãe.
— É. — Dianne estava eufórica. — Agiu muito bem, Phillip! Apenas duzentos agora e mais cem daqui a dois meses! Perfeito! Tudo pode acontecer em dois meses. Quem sabe a suja da polícia os prende, e então não teremos que pagar os cem mil! — Toda feliz, pegou um lenço de papel e enxugou delicadamente o suor que lhe encimava os lábios. A seguir, seu sorriso desapareceu. — E quanto a Shitee T'Chung? Temos que ir, mas você tem que esperar.
— Ah, já sei! Leve o Kevin, eu vou depois. Haverá espaço bastante para mim, quando chegar lá. Fico... fico esperando que ele telefone de novo.
— Excelente! Como você é esperto! Temos que pegar a nossa moeda de volta. Ah, que ótimo! Talvez nossa sorte tenha mudado e a alta do mercado possa acontecer, como predisse o Velho Cego Tung. Kevin está tão preocupado com você, Phillip! O pobrezinho está muito nervoso com todos os problemas que você está tendo. Está muito preocupado com a sua saúde! — Saiu apressadamente agradecendo aos deuses, sabendo que estaria de volta muito antes de John Chen voltar em segurança. "Perfeito", pensava, "Kevin pode usar o seu novo dinner jacket branco lustroso. Está na hora de começar a viver de acordo com a sua nova posição." — Kevinnnn!
A porta se fechou. Phillip Chen soltou um suspiro. Quando conseguiu reunir forças, foi até o aparador e serviu-se de um conhaque. Depois que Dianne e Kevin foram embora, serviu-se de outro. Às quinze para as nove, o telefone tocou de novo.
— Chen da Casa Nobre?
— Sim... sim, Honorável Lobisomem?
— Aceitamos. Mas tem que ser esta noite. Phillip Chen soltou um suspiro.
— Pois bem. Agora, que...
— Pode conseguir todo o dinheiro?
— Posso.
— As notas serão de cem, como pedi?
— Sim. Tenho cem mil e posso obter mais cem com um amigo...
— Tem amigos ricos — disse o homem, desconfiado. — Mandarins.
— Ele é bookmaker — disse Phillip Chen rapidamente, amaldiçoando-se pelo deslize. — Quando você desligou, eu... entrei em contato com ele. Felizmente, hoje foi uma das suas grandes noites.
— Está bem. Escute, tome um táxi...
— Ah, mas tenho carro e...
— Sei que tem uma merda dum carro, sei qual é a placa __disse o outro com grosseria —, e sabemos tudo a seu respeito; se tentar nos atraiçoar com a polícia, jamais verá seu filho de novo, e será o próximo da nossa lista. Compreendeu?
— Sim, sim, claro, Honorável Lobisomem — disse Phillip Chen, apaziguadoramente. — Devo tomar um táxi... para onde?
— O jardim em triângulo em Kowloon Tong. Ali há uma estrada chamada Essex Road. Ali há um muro, e um buraco no muro. Uma flecha desenhada na calçada terá a ponta indicando o buraco. Enfie a mão pelo buraco e receberá uma carta. Leia-a e depois os nossos combatentes de rua se acercarão de você e dirão Tin koon chi fook, e você lhes entregará a sacola.
— Oh! Não é possível que eu a entregue ao homem errado?
— Não entregará. Entendeu a senha, e todo o resto?
— Sim... sim.
— Quanto tempo demorará para chegar lá?
— Irei imediatamente. Eu... pegarei a outra quantia no caminho, posso ir imediatamente.
— Então venha imediatamente. Venha só, não pode vir com mais ninguém. Estará sendo vigiado no momento em que sair pela porta.
Phillip Chen enxugou a testa.
— E meu filho? Quando vou...
— Obedeça às instruções! Tome cuidado e venha sozinho. Novamente o aparelho emudeceu. Os dedos dele tremiam ao pegar o copo e engolir todo o conhaque. Sentiu o calorzinho gostoso, mas aquilo não diminuiu em nada sua apreensão. Quando se sentiu mais controlado, ligou para um número muito particular.
— Quero falar com Wu Quatro Dedos — disse, no dialeto de Wu.
— Um momento, por favor. — Ouviu algumas vozes abafadas em haklo, e depois: — É o Sr. Chen, Sr. Phillip Chen? — a voz perguntou, num inglês dos Estados Unidos.
— Oh! — exclamou, espantado, depois acrescentou, cautelosamente: — Quem fala?
— Aqui é Paul Choy, Sr. Chen, sobrinho do Sr. Wu. Meu tio precisou sair, mas deixou instruções para que eu esperasse até o senhor ligar. Tomou algumas providências para o senhor. É mesmo o sr, Chen?
— Sim, sim, sou eu.
— Ah, ótimo! Teve notícias dos seqüestradores?
— Sim, sim, tive.
Phillip Chen não se sentia bem falando com um estranho, mas agora não tinha opção. Contou a Paul Choy as instruções que recebera.
— Um momentinho, senhor. — Ouviu uma mão tapando o bocal, e novamente uma conversa indistinta e abafada no dialeto haklo. — Tudo acertado, senhor. Mandaremos um táxi para a sua casa... está telefonando do Mirante de Struan?
— É, estou em casa.
— O motorista será um dos nossos. Haverá mais... gente do meu tio espalhada por Kowloon Tong, portanto não se preocupe, estará coberto a cada passo do caminho. Basta entregar o dinheiro, e eles... cuidarão de tudo. O lugar-tenen... o ajudante dele disse para não se preocupar, a área inteira estará enxameando de... Sr. Chen?
— Ainda estou aqui. Obrigado.
— O táxi chegará aí em vinte minutos.
Paul Choy desligou o aparelho.
— O Chen da Casa Nobre manda agradecer, Honorável Pai — disse para Wu Quatro Dedos, apaziguadoramente, no dialeto deles, tremendo sob o olhar de pedra do velho. O suor orvalhava-lhe o rosto. Tentou, sem êxito, disfarçar dos outros o seu medo. Estava quente e abafado na cabine principal, lotada, do junco antigo, amarrado numa vaga permanente a uma doca igualmente antiga num dos inúmeros estuários de Aberdeen. — Posso ir com seus combatentes, também?
— A gente manda um coelho lutar contra um dragão? — rosnou Wu Quatro Dedos. — Você é treinado como combatente de rua? Eu sou um idiota feito você? Traiçoeiro feito você? — Apontou um polegar caloso para Poon Bom Tempo.
— Guie os combatentes!
O homem saiu, às pressas. Os outros o seguiram.
Agora, os dois homens estavam sozinhos na cabine.
O velho estava sentado em cima de um barril de cabeça para baixo. Acendeu outro cigarro, tragou profundamente, tossiu e cuspiu ruidosamente no chão do convés. Paul Choy o fitava, com o suor escorrendo pelas costas, mais de medo do que de calor. Ao seu redor havia algumas escrivaninhas velhas, arquivos, cadeiras desconjuntadas e dois telefones, pois ali ficava o escritório e o centro de comunicações de Quatro Dedos. Era dali, principalmente, que mandavam mensagens para a sua frota. Grande parte dos seus negócios era transporte de carga legal, mas onde quer que tremulasse a bandeira com a Lótus Prateada, sua ordem para os capitães era: qualquer coisa, transportada para qualquer lugar, a qualquer hora... pelo preço certo.
O velho durão tossiu de novo e fitou-o ferozmente sob as sobrancelhas espessas.
— Eles ensinam modos curiosos na Montanha Dourada, heya?
Paul Choy ficou calado e esperou, o coração disparado, e desejou jamais ter voltado para Hong Kong, estar ainda nos Estados Unidos, ou melhor ainda, em Honolulu, surfando nas Grandes Ondas, ou deitado na areia ao lado da sua namorada. Seu espírito se retorceu ao pensar nela.
— Ensinam você a cuspir no prato em que comeu, heya?
— Não, Honrado Pai, lamen...
— Ensinam que meu dinheiro é seu, minha fortuna é sua, e meu carimbo é seu, para usar como desejar, heya?
— Não, Honrado Senhor. Lamento tê-lo desagradado — murmurou Paul Choy, fraquejando ante o peso do próprio medo.
Naquela manhã bem cedo, quando Gornt entrara animado no escritório, vindo do seu encontro com Bartlett, as secretárias ainda não tinham chegado. Portanto Paul Choy perguntou se poderia ajudá-lo em alguma coisa. Gornt mandou que ligasse para diversas pessoas. Para outras ele próprio discou, na sua linha particular. Paul Choy não dera importância, na hora, até que, por acaso, ouviu parte do que eram, obviamente, informações sigilosas da Struan sendo sussurradas confidencial-mente pelo telefone. Lembrando-se do telefonema de Bartlett, logo cedo, deduzindo que Gornt e Bartlett tinham tido um encontro (bem-sucedido, a julgar pelo bom humor de Gornt), e dando-se conta de que Gornt estava fazendo as mesmas confidencias, repetidas vezes, sua curiosidade aumentou. Mais tarde, conseguiu ouvir Gornt dizer aos seus advogados: