— "...vendendo a descoberto... Não, não se preocupe, nada vai acontecer até que eu esteja coberto, não antes das onze horas... Claro. Mando o pedido, carimbado, tão logo..."
O telefonema seguinte que Gornt solicitou que ele desse foi um interurbano para o gerente do Banco da Suíça e Zurique, ao qual, discretamente, prestou atenção.
—...estou esperando um depósito grande de dólares americanos hoje de manhã, antes das onze horas. Ligue para mim no instante preciso em que estiver na minha conta.
Assim, intrigado, juntara as diversas peças da equação e formulara uma teoria: "Se Bartlett estabeleceu uma sociedade súbita e secreta com Gornt, o inimigo declarado da Struan, para dar início a uma de suas incursões; se Bartlett também assume parte do risco, ou a sua maioria — colocando secretamente uma grande quantia em uma das contas numeradas de Gornt na Suíça, para cobrir quaisquer prejuízos com as vendas a descoberto; — e, finalmente, se convenceu Gornt a ser o testa-de-ferro enquanto ele fica em cima do muro, vai dar a maior confusão na Bolsa, e as ações da Struan vão cair."
Isso precipitou uma decisão comercial imediata: "Entre na dança depressa e venda ações da Struan a descoberto antes dos figurões, e ganhe uma nota preta!"
Lembrava-se agora como quase gemera em voz alta porque não tinha dinheiro, nem crédito, nem ações, nem meios de tomá-las emprestadas. A seguir, lembrou-se do que um dos seus instrutores na Escola de Administração de Harvard vivia martelando na cabeça deles: um coração débil jamais conquistou uma bela moça. Assim, entrou numa sala particular e ligou para o seu novo amigo, Ishwar Soorjani, o agiota e dono da casa de câmbio, a quem ficara conhecendo por intermédio do velho eurasiano da biblioteca.
— Escute, Ishwar, seu irmão é o chefe dos Corretores Soorjani, não é?
— Não, Jovem Amo. Ar jan é meu primo-irmão. Por quê?
— Se eu quisesse vender ações a descoberto, ele me apoiaria?
— Certamente, como já lhe disse antes, vendendo ou comprando eu o apoiarei integralmente, se tiver uma quantia razoável para cobrir os prejuízos... ou o equivalente. Sem dinheiro ou equivalente, nada feito.
— E se eu tiver uma informação quentíssima?
— O caminho para o inferno e para a prisão dos devedores está coalhado de informações quentíssimas, Jovem Amo. Aconselho-o a não se fiar em informações quentíssimas.
— Puxa — exclamou com tristeza Paul Choy. — Poderíamos ganhar algumas centenas de milhares antes das três.
— É? Gostaria de sussurrar o ilustre nome das ações?
— Você me apoiaria com... vinte mil dólares americanos?
— Ah, lamento, Jovem Amo, eu empresto dinheiro, não dou. Meus ancestrais o proíbem!
— Vinte mil HK?
— Nem mesmo dez dólares em dinheiro confederado.
— Puxa, Ishwar, você não está sendo de grande ajuda!
— Por que não pede ao seu ilustre tio? O carimbo dele... e eu lhe daria imediatamente até meio milhão de HK.
Paul Choy sabia que entre o dinheiro e os papéis do pai transferidos do Ho-Pak para o Victoria havia muitos certificados de ações e uma lista de títulos mobiliários nas mãos de diversos corretores. Uma delas era de cento e cinqüenta mil ações da Struan. "Meu Deus", pensou, "se eu estiver certo, o velho pode se dar mal. Se Gornt for adiante com a incursão, o velho pode entrar pelo cano."
— Boa idéia, Ishwar. Ligo depois para você! Telefonou para o pai imediatamente, mas não conseguira localizá-lo. Deixou recados onde pôde, e começou a esperar. Sua ansiedade aumentava. Pouco antes das dez, ouviu a secretária de Gornt atender ao telefone.
— Sim?... Ah, um momento, por favor... Sr. Gornt? Uma ligação pessoal de Zurique... Pode falar.
Mais uma vez tentara encontrar o pai, querendo dar-lhe a notícia urgente. Então, Gornt mandara chamá-lo.
— Sr. Choy, queira entregar isto imediatamente ao meu advogado. — Dera-lhe um envelope lacrado. — Entregue-o a ele pessoalmente.
— Sim, senhor.
Saíra do escritório. Parava a cada telefone que encontrava, tentando falar com o pai. Depois, entregara a carta em mãos, observando atentamente o rosto do advogado. Notou satisfação.
— Há resposta, senhor? — perguntou cortesmente.
— Diga apenas que tudo será feito como ele mandou. Passava um pouquinho das dez horas.
Saindo do escritório e descendo no elevador, Paul Choy pesara os prós e os contras. Com o estômago dando voltas, parou no telefone mais próximo.
— Ishwar? Escute, tenho uma ordem urgente do meu tio. Quer vender suas ações da Struan, cento e cinqüenta mil ações.
— Ah, muito sensato, os boatos mais terríveis estão correndo à solta.
— Sugeri a ele que você e Soorjani deviam cuidar disso. Cento e cinqüenta mil ações. Ele quer saber se vocês podem vendê-las imediatamente. É possível?
— Sem dúvida. Para o Estimado Quatro Dedos, iremos em frente como os Rothschilds! Onde estão as ações?
— Na caixa-forte.
— Precisarei imediatamente do carimbo dele.
— Estou indo buscá-lo, mas ele mandou vender sem mais delongas. Mandou vender em blocos pequenos, para não abalar o mercado. Quer o melhor preço. Venderá imediatamente?
— Sim, não se preocupe, imediatamente. E obteremos o melhor preço!
— Ótimo. E, o mais importante, mandou que isso ficasse em segredo.
— Sem dúvida, Jovem Amo, pode confiar em nós implicitamente. E as ações que você mesmo queria vender a descoberto?
— Bem, acho que... elas terão que esperar... até eu ter crédito, heya?
— Muito, muito sensato.
Paul Choy estremeceu. Seu coração batia fortemente agora, no silêncio, e ele ficou olhando para o cigarro do pai, não para o seu rosto irado, sabendo que aqueles olhos negros e frios o fitavam penetrantes, decidindo o seu destino. Lembrou-se de como quase gritara de entusiasmo quando as ações tinham começado a baixar quase imediatamente, controlando-as minuto a minuto, depois mandando Soorjani recomprá-las pouco antes de a Bolsa encerrar o expediente, e sentindo-se eufórico e tonto de alegria. Prontamente fora telefonar para a sua garota, gastando quase trinta dos seus valiosos dólares americanos, contando-lhe que dia fantástico tivera, e como sentia saudade dela. Ela dissera que também estava morrendo de saudade, e perguntara quando ele ia voltar para Honolulu. Ela se chamava Mika Kasunari, e era sansei, americana de terceira geração, descendente de japoneses. Os pais dela o odiavam porque era chinês, assim como ele sabia que o pai dele a odiaria porque era japonesa, só que eles eram americanos, os dois, e haviam se conhecido e apaixonado na universidade.
— Muito breve, meu bem — prometera-lhe, radiante —, até o Natal, prometo! Depois do dia de hoje, sem dúvida meu tio me dará uma gratificação...
Fez brincando o trabalho que Gornt lhe dera durante o resto do dia. No final da tarde, Poon Bom Tempo telefonara para lhe avisar que o pai o veria em Aberdeen, às dezenove e trinta. Antes de ir para lá, fora buscar o cheque de Soorjani para o pai: seiscentos e quinze mil HK, menos a comissão de corretagem.
Radiante, viera para Aberdeen e lhe entregara o cheque, e quando lhe contara o que havia feito, ficara estupefato ao constatar a extensão da fúria do pai. A bronca violenta fora interrompida pelo telefonema de Phillip Chen.
— Lamento profundamente tê-lo ofendido, Hon...
— Com que então meu carimbo é seu, minha fortuna é sua, heya? — berrou Wu Quatro Dedos subitamente.