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— Não, Honrado Pai — exclamou, com voz abafada —, mas a informação era tão boa! E quis proteger suas ações, além de ganhar dinheiro para o senhor.

— Mas não para você, heya?

— Não, Honrado Pai. Era para o senhor. Para ganhar dinheiro para o senhor e ajudar a retribuir todo o dinheiro que investiu em mim... eram as suas ações, e é o seu dinheiro. Tentei...

— Isso não é porra de desculpa nenhuma! Venha comigo! Trêmulo, Paul Choy levantou-se e acompanhou o velho até o tombadilho. Wu Quatro Dedos mandou embora com um palavrão o seu guarda-costas e apontou com um dedo rombudo as águas lamacentas e fétidas do porto.

— Se não fosse meu filho — sibilou —, se não fosse meu filho, estaria alimentando os peixes ali, com os pés acorrentados, neste exato momento.

— Sim, Pai.

— Se usar o meu nome de novo, meu carimbo, seja lá o que for, sem minha aprovação, é um homem morto.

— Sim, Pai — murmurou Paul Choy, petrificado, dando-se conta de que o pai tinha os meios, a vontade e a autoridade para levar a ameaça a cabo sem medo de retaliação. — Desculpe, Pai, juro que nunca mais faço isso.

— Ótimo. Se tivesse perdido uma simples moedinha, estaria ali agora. Só está vivo agora porque ganhou, porra!

— Sim, Pai.

Wu Quatro Dedos olhou feio para o filho e continuou a esconder sua alegria com a dinheirama: seiscentos e quinze mil HK, menos uns poucos dólares. "Inacreditável! Tudo com alguns telefonemas e informações confidenciais", pensava. "Isso é tão milagroso como ver dez toneladas de ópio saltarem para a terra firme, passando sobre as cabeças dos funcionários do barco da alfândega! O rapaz pagou mais de vinte vezes pela educação que lhe dei, e mal faz três semanas que está aqui. Que esperto... mas também que perigoso!"

Estremeceu à idéia de outros subalternos tomando as próprias decisões. "Dew neh loh moh, então eu estaria nas mãos deles, e pararia na cadeia pelos erros deles, não pelos meus. E no entanto", disse, desanimado, para si mesmo, "este é o modo como os bárbaros fazem negócios. O Filho Número Sete foi treinado como bárbaro. Que todos os deuses sejam testemunhas, eu não quis criar uma víbora!"

Olhou para o filho, sem entendê-lo, odiando seu modo direto de falar, o modo dos bárbaros, não o modo sutil e oblíquo das pessoas civilizadas.

E no entanto... no entanto mais de seiscentos mil HK num só dia. Se tivesse falado antes com ele, jamais teria concordado, e teria perdido todo esse lucro! "Ayeeyah! É, minhas ações baixariam e eu perderia toda essa fortuna em um dia... oh, oh, oh!"

Tateou em busca de um caixote e sentou-se, o coração disparando com a idéia terrível.

Fitava o filho. O que fazer com ele?, perguntava-se. Podia sentir o peso do cheque no bolso. Parecia inacreditável que o filho pudesse ter ganho tal quantia para ele num espaço de poucas horas, sem tirar as ações do seu esconderijo.

— Explique-me por que aquele demônio estrangeiro de cara preta com o nome horroroso me deve tanto dinheiro!

Paul Choy explicou pacientemente o mecanismo, desesperado para agradá-lo.

O velho pensou no assunto.

— Quer dizer que amanhã devo fazer o mesmo e ganhar o mesmo?

— Não, Honrado Pai. Pegue os seus lucros, e fique com eles. Hoje, era praticamente uma certeza. Foi um ataque súbito, uma incursão. Não sabemos como a Casa Nobre vai reagir amanhã, ou se Gornt realmente pretende continuar a incursão. Ele pode recomprar e sair lucrando bastante. Seria perigoso seguir os passos de Gornt amanhã, muito perigoso.

Wu Quatro Dedos jogou fora o cigarro.

— Então, o que devo fazer amanhã?

— Esperar. O mercado de capitais dos demônios estrangeiros está nervoso e nas mãos dos demônios estrangeiros. Aconselho-o a esperar e ver o que acontece com o Ho-Pak e o Victoria. Posso usar seu nome para perguntar ao demônio estrangeiro Gornt sobre o Ho-Pak?

— Como?

Pacientemente, Paul Choy refrescou a memória do pai sobre a corrida ao banco e a possível manipulação das ações.

— Ah, sei, entendo — disse o velho altivamente. Paul Choy ficou calado, sabendo que ele não entendia. — Entre nós... então eu só espero?

— Sim, Honrado Pai.

Quatro Dedos pegou o cheque, desdenhosamente.

— E este pedaço de papel de merda? O que faço com ele?

— Converta-o em ouro, Honrado Pai. O preço varia pouquíssimo. Eu poderia falar com Ishwar Soorjani, que tem uma casa de câmbio, se o senhor quiser.

— E onde iria guardar o ouro?

Uma coisa era contrabandear o ouro dos outros, outra bem diferente era preocupar-se com o próprio.

Paul Choy explicou que não era necessário a posse física do ouro para ser dono dele.

— Mas não confio em bancos — disse o velho, zangado. — Se o ouro é meu, é meu, e não do banco!

— Sim, Pai. Mas o banco seria na Suíça, não em Hong Kong, e estaria completamente seguro.

— Você me dá sua vida como garantia?

— Sim, Pai.

— Ótimo. — O velho pegou uma caneta e assinou seu nome nas costas do cheque, com instruções para Soorjani convertê-lo imediatamente em ouro. Entregou-o ao filho. — Está valendo a sua cabeça, meu filho. E amanhã nós esperamos? Não ganhamos dinheiro amanhã?

— Talvez haja oportunidade para novos lucros, mas não posso garantir. Talvez eu fique sabendo lá pelo meio-dia.

— Ligue para mim aqui, ao meio-dia.

— Sim, Pai. Claro, se tivéssemos a nossa própria Bolsa, poderíamos manipular cem ações...

Paul Choy deixou a idéia pairando no ar...

— Como?

Cuidadosamente, o rapaz começou a explicar como seria fácil para eles formarem sua própria Bolsa de Valores, uma Bolsa dominada pelos chineses, e as oportunidades ilimitadas de lucro que tal empreendimento daria. Falou durante uma hora, ganhando confiança a cada minuto que passava, explicando o mais simplesmente que podia.

— Se é assim tão fácil, meu filho, por que o Tung Pão-Duro não fez isso, o Sung Barulho Grande, o Ng Ricaço, aquele contrabandista de ouro metade bárbaro de Macau, o Banqueiro Kwang, ou dezenas de outros, heya?

— Talvez nunca tenham tido a idéia, ou a coragem. Talvez prefiram trabalhar dentro do sistema dos demônios estrangeiros... o Turf Club, o Cricket Club, títulos de cavaleiro, e toda essa baboseira inglesa. Talvez tenham medo de nadar contra a maré, ou não tenham os conhecimentos necessários. Nós temos os conhecimentos e a habilidade. É. E tenho um amigo na Montanha Dourada, um bom amigo, que estudou comigo, que...

— Que amigo?

— É um xangaiense, um cobra em ações, e agora é corretor em Nova York. Juntos, com apoio financeiro, sei que teríamos êxito. Sei que sim.

— Ayeeyah! Com um bárbaro do norte? — zombou Wu Quatro Dedos. — Como poderia confiar nele?

— Acho que poderia confiar nele, Honrado Pai... naturalmente, o senhor estabeleceria os limites contra as ervas daninhas, como faz um bom horticultor.

— Mas todo o poder do ramo em Hong Kong está nas mãos dos demônios estrangeiros. As pessoas civilizadas não iriam apoiar uma Bolsa de oposição.

— Pode ser que tenha razão, Honrado Pai — concordou Paul Choy cautelosamente, não deixando transparecer o seu entusiasmo nem na fisionomia nem na voz. — Mas todos os chineses gostam de jogar. Contudo, no momento, não há um só corretor civilizado! Por que os demônios estrangeiros nos boicotam? Porque nós levaríamos a melhor sobre eles. Para nós, o mercado de capitais é a melhor profissão do mundo. Logo que o nosso povo souber que o nosso mercado em Hong Kong está totalmente aberto para as pessoas civilizadas e as suas companhias, passará para o nosso lado. Os demônios estrangeiros serão forçados a abrir a Bolsa deles também para nós. Somos melhores jogadores que eles. Afinal de contas, Honrado Pai — fez um gesto de mão abrangendo a terra, os prédios altos, os barcos, os juncos, os restaurantes flutuantes —, tudo isso poderia ser seu! É com títulos, ações e o mercado de capitais que o homem moderno possui o poder do seu mundo.