Quatro Dedos fumava sem pressa.
— E quanto custaria o seu mercado de capitais, Filho Número Sete?
— Um ano, em termos de tempo. Um investimento inicial de... não sei exatamente. — O coração do jovem se remoía. Podia sentir a avareza do pai. As implicações de se formar uma Bolsa de Valores chinesa naquela sociedade capitalista sem regras eram tão fantásticas que o deixavam tonto. Seria tão fácil, tendo tempo e... e quanto? — Posso dar-lhe uma estimativa dentro de uma semana.
Quatro Dedos fitou o filho com seus velhos olhos astutos, e podia ler a excitação do rapaz, e sua cobiça. "De dinheiro ou de poder?", perguntou-se.
"De ambos", concluiu. "O jovem tolo não sabe que ambos são a mesma coisa." Pensou no poder de Phillip Chen, no poder da Casa Nobre também, e no poder da meia moeda que John Chen roubara. "Phillip Chen e a mulher também são tolos", disse com seus botões. "Deviam lembrar-se de que há sempre ouvidos do outro lado das paredes, e que uma vez que uma mãe ciumenta fica sabendo um segredo, este deixa de ser segredo. Também não se pode guardar segredos em hotéis entre os demônios estrangeiros, que sempre imaginam que os criados não sabem falar o idioma dos bárbaros, nem têm orelhas compridas e olhos aguçados.
"Ah, filhos!", refletiu. "Os filhos são sem dúvida a riqueza de um pai... mas, às vezes, também causam a morte do pai.
"Um homem é um idiota de confiar num filho. Completamente. Heya?"
— Pois bem, meu filho — falou, com naturalidade. — Dê-me o seu plano, por escrito, e a quantia. E decidirei.
Phillip Chen saltou do táxi no triângulo de grama em Kowloon Tong, com a pasta de executivo agarrada ao peito. O motorista desligou o taxímetro e olhou para ele. Marcava dezessete HK e oitenta cents. Se dependesse de Phillip, não teria usado o mesmo táxi desde o Mirante de Struan, o que significava usar a balsa dos táxis, com o taxímetro correndo o tempo todo. Não. Teria atravessado a baía pela Balsa Dourada, por quinze cents, tomado outro táxi em Kowloon e poupado pelo menos oito dólares. Que terrível desperdício de dinheiro!, pensou.
Cuidadosamente, contou dezoito dólares. Pensando melhor, acrescentou uma gorjeta de trinta cents, sentindo-se generoso. O homem foi embora, deixando-o perto do triângulo de grama.
Kowloon Tong era apenas mais um subúrbio de Kowloon, um ninho fervilhante de prédios, cortiços, becos, gente e trânsito. Achou a Essex Road, que rodeava o jardim, e caminhou pela rua. A pasta de executivo parecia ficar cada vez mais pesada, e teve certeza de que todos sabiam que ela continha duzentos mil HK. Seu nervosismo aumentou. Numa zona como aquela, podia-se comprar a morte de um homem por algumas centenas de dólares, se se sabia a quem procurar... e por aquela quantia, podia-se contratar um exército. Os olhos dele estavam fixos na calçada quebrada. Quando já tinha dado a volta quase completa ao redor do triângulo, viu a flecha na calçada, apontando para o muro. O coração lhe pesava no peito, e doía. Estava bem escuro ali, com poucos postes de iluminação. O buraco era formado por alguns tijolos que haviam caído. Pôde ver o que parecia ser um jornal amassado dentro do buraco. Tirou-o de lá apressadamente, certificou-se de que não ficara nada lá dentro, depois caminhou até um banco sob um poste de luz e se sentou. Quando o coração começou a diminuir o ritmo e a respiração tornou-se mais calma, abriu o jornal. Dentro dele havia um envelope. O envelope era plano, e um pouco da sua ansiedade o abandonou. Ficara morto de medo de achar ali a outra orelha.
O bilhete dizia: "Ande até a Waterloo Road. Vá para o norte, na direção do acampamento do exército, mantendo-se no lado oeste da rua. Cuidado, estamos de olho em você neste momento".
Um arrepio o percorreu, e olhou ao seu redor. Ninguém parecia vigiá-lo. Nem amigo nem inimigo. Mas podia sentir os olhares. Sua pasta de executivo parecia ainda mais pesada.
"Todos os deuses me protejam", orou fervorosamente, tentando reunir coragem para continuar. "Que diabo, onde estão os homens de Wu Quatro Dedos?"
A Waterloo Road ficava perto, uma rua movimentada. Não deu importância às multidões, apenas caminhou pesadamente para o norte, sentindo-se despido, sem ver ninguém em especial. As lojas estavam todas abertas, os restaurantes, lotados, os becos, cheios de povo. No aterro próximo, um trem de carga apitou tristemente, indo para o norte, misturando seu apito às buzinas ruidosas que todos os motoristas usavam indiscriminadamente. O céu estava feio, encoberto, e a noite, muito úmida.
Cansadamente, caminhou oitocentos metros, cruzando ruas laterais e becos. Parou no meio de um monte de gente para deixar passar um caminhão, depois passou pela boca de mais um beco estreito, movendo-se para cá e para lá, ao ser empurrado pelos transeuntes. De repente, dois jovens surgiram à sua frente, impedindo-lhe o caminho, e um deles sibilou:
— Tin koon chi fook!
— Como?
Os dois usavam bonés enterrados na cabeça, óculos escuros, e tinham rostos semelhantes.
— Tin koon chi fook! — repetiu Kin Bexiguento, malevolamente. — Dew neh loh moh, passe a maleta!
— Oh! — Aparvalhado, Phillip Chen passou-a para ele. Kin Bexiguento agarrou-a.
— Não olhe à sua volta, e continue andando para o norte!
— Está bem, mas, por favor, cumpra a sua promes...
Phillip Chen se interrompeu. Os dois rapazes tinham sumido. Parecia que haviam estado à sua frente apenas uma fração de segundos. Ainda em choque, forçou os pés a se movimentarem, tentando gravar na lembrança o pouco que vira dos rostos. Então, uma mulher que vinha na direção oposta empurrou-o com rudeza, e ele praguejou, os rostos sumindo da sua memória. Então, alguém o agarrou bruscamente.
— Onde está a porra da maleta?
— O quê? — exclamou, com voz abafada, fitando o rufião com cara de mau que era Poon Bom Tempo.
— Sua maleta... cadê?
— Dois rapazes. . ,
Impotente, apontou para trás. O homem praguejou e saiu às pressas, "costurando" por entre a multidão, depois levou os dedos aos lábios e soltou um assobio agudo. Poucas pessoas prestaram-lhe atenção. Outros rufiões começaram a convergir para ele, então Poon Bom Tempo avistou os dois rapazes com a mala de executivo, quando saíam da rua principal bem-ilumi-nada e entravam num beco. Começou a correr, seguido pelos outros.
Kin Bexiguento e o Irmão Mais Moço se meteram no meio do povo, sem pressa, o beco iluminado apenas pelas lâmpadas nuas das barracas e lojas sujas. Os dois riram um para o outro. Agora completamente confiantes, tiraram os bonés e os óculos, e enfiaram-nos nos bolsos. Eram muito parecidos — quase gêmeos —, e agora se misturavam ainda mais aos fregueses ruidosos que faziam compras.
— Dew neh loh moh, mas como aquele velho parecia morto de medo! — casquinava Kin Bexiguento. — Num só passo chegamos ao céu!
— É. E na semana que vem, quando o agarrarmos, pagará com a mesma facilidade com que um cão velho peida!
Riram, pararam por um momento sob a luz de uma barraca e espiaram para dentro da maleta. Quando viram os maços de notas, ambos soltaram um suspiro.
— Ayeeyah, é verdade, chegamos ao céu com um só passo, Irmão Mais Velho. Pena que o filho esteja morto e enterrado.
Kin Bexiguento deu de ombros enquanto continuavam a andar, entrando num beco pequeno, depois noutro, sem hesitar, no labirinto cada vez mais escuro.
— O Honorável Pai tem razão. Transformamos o azar em sorte. Não foi culpa sua que a cabeça do filho da mãe fosse mole! De jeito nenhum! Quando o desenterrarmos e o deixarmos na Sha Tin Road, com o bilhete na porra do peito dele...
Parou um momento, e se afastaram para o lado, no meio do povo agitado, para deixar passar um caminhão carregado e caindo aos pedaços. Enquanto esperavam, ele olhou para trás, casualmente. No fim do beco viu três homens mudarem de direção, ao vê-lo, e depois começarem a vir depressa para o lado deles.