— Dew neh loh moh, fomos traídos — exclamou, com voz abafada, depois foi abrindo caminho aos empurrões, e botou sebo nas canelas, com o irmão logo atrás.
Os dois jovens eram muito velozes. O terror dava agilidade aos seus pés, enquanto "costuravam" por entre a multidão irada, desviando-se dos buracos inevitáveis e das barraquinhas, a escuridão a seu favor. Kin Bexiguento ia na frente.
Agachou-se entre algumas barracas e fugiu pela passagem estreita e sem iluminação, a maleta agarrada firmemente ao peito.
— Vá para casa por um caminho diferente, Irmão Mais Moço — falou, ofegante.
Na esquina seguinte, dobrou à esquerda, e o irmão continuou em frente. Seus perseguidores também se dividiram, dois deles a seguirem-no. Agora, era quase impossível enxergar, na escuridão, e os becos eram sinuosos, tortuosos, e não havia nenhum sem saída. Ele ofegava, mas levava uma boa dianteira dos seus perseguidores. Tomou um atalho e deu de cara com uma loja suja que, como as demais, servia de moradia. Indiferente à família amontoada em frente a uma televisão barulhenta, passou correndo pelo meio deles e saiu pela porta dos fundos, depois retornou para a extremidade do beco. Espiou com muita cautela para o outro lado da esquina. Algumas pessoas olhavam-no com curiosidade, mas continuavam o seu caminho sem parar, sem a menor vontade de se meterem no que, evidentemente, era alguma encrenca.
Então, esperando estar a salvo, meteu-se no meio do povo e se afastou sem pressa, de cabeça baixa. Sua respiração ainda era ofegante, e tinha a cabeça cheia de obscenidades e juramentos de vingança contra Phillip Chen por tê-los atraiçoado. "Que todos os deuses sejam testemunhas", pensou, furioso, "quando o seqüestrarmos na semana que vem, antes de o soltarmos, vou cortar fora o seu nariz! Como ousou trair-nos para a polícia! Ei, espere aí, aquela gente era da polícia?"
Pensou no assunto enquanto seguia no meio do povo, retornando sobre os passos, cautelosamente, de vez em quando, por via das dúvidas. Mas, agora, tinha certeza de que não fora seguido. Deixou o pensamento se fixar no dinheiro e abriu um amplo sorriso. "Vejamos o que farei com os meus cinqüenta mil! Darei quarenta de sinal num apartamento e o alugarei imediatamente. Ayeeyah, sou proprietário de um imóvel! Comprarei um Rolex, um revólver e uma nova faca de arremesso. Darei uma ou duas pulseiras para a minha mulher, e mais duas para Rosa Branca, na Casa dos Mil Prazeres. Hoje teremos um banquete..."
Todo feliz, seguiu seu caminho. Numa barraca de rua, comprou uma maleta barata, e num beco transferiu o dinheiro discretamente para ela. Descendo mais a rua, noutro beco escondido vendeu a bela maleta de executivo de couro de Phillip Chen para um vendedor ambulante por uma boa quantia, depois de pechinchar por cinco minutos. Agora, muito satisfeito consigo mesmo, pegou um ônibus para Kowloon City, onde o pai alugara um pequeno apartamento sob um nome falso, como um dos seus refúgios, bem distante da sua casa verdadeira, em Wanchai, perto do Glessing's Point. Não notou Poon Bom Tempo tomar o ônibus, nem os outros dois homens, ou o táxi que seguiu o ônibus.
Kowloon City era uma confusão supurante de cortiços, bueiros abertos e habitações esquálidas. Kin Bexiguento sabia que ali estava a salvo. A polícia não entrava ali, a não ser em grandes contingentes. Quando a China arrendara os Novos Territórios por noventa e nove anos, em 1898, mantivera a soberania sobre Kowloon City, perpetuamente. Em teoria, os dez acres quadrados eram território chinês. As autoridades britânicas deixavam o local em paz, desde que se mantivesse calmo. Era uma massa fervilhante de antros de ópio, escolas de jogo ilegais, qgs das tríades, e um santuário para os criminosos. De tempos em tempos, a polícia dava uma batida. No dia seguinte, Kowloon City voltava a ser o que sempre fora.
As escadas que levavam ao apartamento do quinto andar do cortiço eram desconjuntadas e sujas, o reboco, rachado e mofado. Estava cansado, agora. Bateu à porta, no seu código secreto. A porta se abriu.
— Alô, Pai, alô Chen Orelha de Cão — disse, feliz. — Eis a grana! — Foi então que viu o Irmão Mais Moço. — Ah, que bom, você também escapou?
— Claro! Polícia comedora de bosta à paisana! Devíamos matar um ou dois deles, pela sua impertinência. — Kin Pak sacudiu um 38. — Devíamos nos vingar!
— Talvez tenha razão, agora que recebemos o primeiro pagamento — disse o Pai Kin.
— Acho que não devíamos matar nenhum policial, isso os deixaria doidos — disse Chen Orelha de Cão, com voz trêmula.
— Dew neh loh moh para a polícia inteira! — falou o jovem Kin Pak, e guardou a arma no bolso.
Kin Bexiguento deu de ombros.
— Temos a grana que...
Nesse momento, a porta foi escancarada. Poon Bom Tempo e três dos seus homens estavam no aposento, de faca na mão. Todos ficaram imóveis. Abruptamente, o Pai Kin tirou uma faca da manga e se jogou para a esquerda. Mas antes que pudesse arremessá-la, a faca de Poon Bom Tempo voava pelos ares e se enfiava na sua garganta. Ele procurou agarrá-la, enquanto caía de costas. Nem Chen Orelha de Cão nem os irmãos se haviam movido. Ficaram olhando enquanto ele morria. O corpo se crispou, os músculos tiveram um espasmo momentâneo, depois tudo acabou.
— Onde está o Filho Número Um Chen? — perguntou Poon Bom Tempo, uma segunda faca na mão.
— Não conhecemos nenhum Fi...
Dois dos homens saltaram sobre Kin Bexiguento, espalmaram suas mãos em cima da mesa e as mantiveram nessa posição. Poon Bom Tempo se inclinou para a frente e cortou fora o seu indicador. Kin Bexiguento ficou cinza. Os outros dois ficaram paralisados de medo.
— Onde está o Filho Número Um Chen?
Kin Bexiguento fitava abobalhado o seu dedo cortado e o sangue que pulsava sobre a mesa. Soltou um grito quando Poon Bom Tempo fez menção de atacar de novo.
— Não, não — suplicou —, ele está morto... morto, e nós o enterramos, juro!
— Onde?
— Perto da Sha... da Sha Tin Road. Ouça — guin-chava, desesperado —, nós rachamos o dinheiro com vocês. Nós...
Imobilizou-se quando Poon Bom Tempo pôs a ponta da faca dentro da sua boca.
— Trate de responder às perguntas, seu bosta de um filho da puta, ou corto a sua língua. Onde estão as coisas do Filho Número Um? As coisas que trazia consigo?
— Nós... nós mandamos tudo para o Chen da Casa Nobre, tudo, exceto o dinheiro que estava com ele. Juro. — Choramingava de dor. Subitamente, os dois homens fizeram pressão no seu cotovelo e ele gritou: — Todos os deuses são testemunhas de que é verdade!
Berrou quando a junta cedeu, e desmaiou. Do outro lado da sala, Chen Orelha de Cão gemeu de medo. Começou a gritar, mas um dos homens deu-lhe um soco na cara. A cabeça dele bateu contra a parede, e ele caiu ao chão, inconsciente.
Agora, todos os olhos se voltaram para Kin Pak.
— É verdade — disse ele, aterrorizado com a rapidez com que tudo acontecera. — Tudo o que ele falou. É verdade!
Poon Bom Tempo xingou-o. Depois, disse:
— Vocês revistaram o Chen da Casa Nobre antes de enterrá-lo?
— Sim, senhor, pelo menos eu não, mas ele... — Com um dedo trêmulo apontou para o corpo do pai. — Ele revistou.
— Você estava lá?
O jovem hesitou. Instantaneamente, Poon lançou-se sobre ele, movendo-se com uma rapidez incrível para um homem tão idoso. A faca dele cortou de leve a face de Kin Pak, deliberadamente uma fração abaixo dos olhos, e ali permaneceu.
— Mentiroso!
— Eu estava lá, sim — disse o rapaz, com voz sufocada. — Ia contar-lhe, senhor, eu estava lá. Não lhe mentirei, juro!
— Da próxima vez que mentir será o seu olho esquerdo. Estava lá, heya?
— Sim... sim, senhor!
— Ele estava lá? — falou, apontando para Kin Bexiguento.
— Não, senhor.
— E ele?
— Estava, Orelha de Cão estava lá!
— Você revistou o corpo?
— Sim, senhor, sim, ajudei o nosso pai.
— Todos os bolsos dele, tudo?