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— Sim, sim, tudo.

— Ele tinha papéis? Caderno de notas, agenda? Jóias?

O jovem hesitou, desesperado, tentando se lembrar, e a faca não se afastava do seu rosto.

— Nada, senhor, nada de que me recorde. Mandamos todas as coisas dele para o Chen da Casa Nobre, exceto... exceto o dinheiro. Ficamos com o dinheiro. E o relógio dele... tinha esquecido do relógio! É... é aquele ali!

Apontou para o relógio no pulso esticado do pai.

Poon Bom Tempo praguejou novamente. Wu Quatro Dedos mandara que ele recapturasse John Chen, que apanhasse qualquer dos seus bens que ainda estivessem nas mãos dos seqüestradores, em especial quaisquer moedas ou pedaços de moedas, e depois, com igual anonimato, que se desfizesse dos seqüestradores. "É melhor eu ligar para ele daqui a pouco. É melhor pedir novas instruções. Não quero cometer erros."

— O que fizeram com o dinheiro?

— Nós o gastamos, senhor. Havia apenas algumas centenas de dólares e uns trocados. Acabou tudo.

— Acho que ele está mentindo — disse um dos homens.

— Não estou, senhor, juro! — Kin Pak quase desatou a chorar. — Não estou. Por fa...

— Cale-se! Devo cortar a garganta deste aqui? — disse o homem, jovialmente, indicando Kin Bexiguento, que ainda estava inconsciente, largado sobre a mesa, a poça de sangue cada vez maior.

— Não, ainda não. Segure-o aí. — Poon Bom Tempo cocou suas hemorróidas enquanto pensava um momento. — Vamos desenterrar o Filho Número Um Chen. É, é o que vamos fazer. Bem, seu merdinha, quem o matou?

Imediatamente, Kin Pak apontou para o cadáver do pai.

— Foi ele. Foi terrível. Ele é nosso pai, e bateu nele com uma pá... bateu nele com uma pá quando tentou fugir, na noite... na noite em que o pegamos. — O jovem estremeceu, o rosto sem cor, o medo da faca sob o olho a consumi-lo. — Não, não foi culpa minha, senhor.

— Qual é o seu nome?

— Soo Tak-gai, senhor — disse instantaneamente, usando os nomes de emergência previamente combinados.

— E ele?

O dedo apontava para o irmão dele.

— Soo Tak-tong.

— Ele?

— Wu-tig Sup.

— E ele?

O jovem olhou para o cadáver do pai.

— Ele era Soo Dente de Ouro, senhor. Era muito mau, mas nós... nós tínhamos que obedecer. Tínhamos que obedecê-lo, era nosso... nosso pai.

— Para onde levaram o Filho Número Um Chen antes de matá-lo?

— Para Sha Tin, senhor, mas eu não o matei. Nós o pegamos em Hong Kong, depois o pusemos na traseira de um carro que roubamos e fomos para Sha Tin. Lá há um velho casebre que nosso pai alugou, juntinho da aldeia... ele planejou tudo. Tivemos que obedecer.

Poon resmungou e fez sinal para seus homens.

— Vamos revistar aqui primeiro!

Prontamente, largaram Kín Bexiguento, e o rapaz inconsciente desabou no chão, deixando atrás de si uma trilha de sangue.

— Você, amarre o dedo dele!

Rapidamente, Kin Pak agarrou um velho pano de prato e, quase vomitando, começou a fazer um torniquete tosco no coto do dedo.

Poon soltou um suspiro, sem saber o que fazer primeiro. Após um momento, abriu a mala. Todos os olhos se voltaram para a montanha de notas. Todos sentiram a cobiça. Poon mudou a faca para a outra mão e fechou a mala. Deixou-a no centro da mesa, e começou a revistar o apartamento miserável. Havia apenas uma mesa, algumas cadeiras e uma velha armação de cama de ferro, com um colchão sujo. O papel das paredes estava descascando, as janelas praticamente não tinham vidros, e estavam presas com tábuas. Virou o colchão ao contrário, revistou-o, mas nada achou. Entrou na cozinha imunda, quase vazia, e acendeu a luz. Depois foi para o banheiro fedorento. Kin Bexiguento choramingava, voltando a si.

Numa gaveta, Poon Bom Tempo encontrou papel, tinta e pincéis para escrever.

— Para que é isso? — perguntou, erguendo um dos papéis. Nele estava escrito, em caracteres: "Este Filho Número Um Chen fez a estupidez de tentar escapar de nós. Ninguém pode escapar dos Lobisomens! Que toda a Hong Kong se cuide. Nossos olhos estão em toda parte!" — Para que é isto, heya?

Kin Pak ergueu os olhos do chão, tentando desesperadamente agradar.

— Não podíamos devolvê-lo com vida para o Chen da Casa Nobre, então nosso pai ordenou que... esta noite desenterrássemos o Filho Número Um, puséssemos isto em cima do seu peito e o largássemos junto à Sha Tin Road.

Poon Bom Tempo olhou para ele.

— Quando começar a cavar, é melhor que o encontre logo — falou, com ar malévolo. — É. Caso contrário, seu merdinha, seus olhos não estarão em lugar algum.

35

21h30m

Orlanda Ramos subiu a larga escadaria do imenso navio-restaurante Dragão Flutuante, em Aberdeen, e foi passando por entre os convidados tagarelas e barulhentos do banquete de Sir Shi-teh T'Chung, procurando por Linc Bartlett... e Casey.

As duas horas que passara com Linc pela manhã, para a entrevista do jornal, haviam sido reveladoras, especialmente no tocante a Casey. Seus instintos lhe diziam que quanto mais cedo fosse à luta com a inimiga, melhor. Fora fácil arranjar convites para os dois naquela noite... Shi-teh era um antigo associado de Gornt e um velho amigo. A idéia agradara a Gornt.

Estavam no tombadilho superior. Um cheiro gostoso de mar entrava pelos janelões, a noite estava agradável, embora úmida, com o céu encoberto, e ao redor só se viam as luzes dos altos prédios e do município de Aberdeen. Na baía, bem próximo dali, ficavam as ilhas lúgubres de juncos, parcialmente iluminados, onde cento e cinqüenta mil pessoas viviam suas vidas.

A sala em que estavam, escarlate, ouro e verde, ocupava metade do comprimento e toda a largura do barco, e dava para a escadaria principal. Gárgulas, unicórnios e dragões, adornados, de madeira e gesso, estavam por toda parte, em todos os três tombadilhos do restaurante fartamente iluminado e lotado de comensais. Na primeira coberta, nas cozinhas apertadas, havia vinte e oito cozinheiros, um exército de ajudantes, uma dúzia de imensos caldeirões... vapor, suor e fumaça. Oitenta e dois garçons serviam no Dragão Flutuante. Havia lugares para quatrocentas pessoas em cada um dos dois primeiros tombadilhos, e para duzentas no terceiro. Sir Shi-teh alugara todo o convés superior, e agora ele estava abarrotado com os seus convidados, de pé em grupos impacientes em meio às mesas redondas para doze pessoas.

Orlanda sentia-se ótima, e muito confiante. Novamente, vestira-se com capricho para Bartlett. Pela manhã, quando o entrevistara, usara roupas americanas esportivas e pouca maquilagem, e a blusa de seda solta que escolhera com tanto cuidado não exibia seus seios sem sutiã, apenas os sugeria. Aquela moda nova e ousada a agradava imensamente, tornando-a ainda mais cônscia da sua feminilidade. Agora, à noite, usava seda branca e delicada. Sabia que seu corpo era perfeito, que era invejada por sua sensualidade franca e inconsciente.

"Foi isso o que Quillan fez por mim", pensou, a bela cabeça erguida e o curioso meio sorriso iluminando-lhe o rosto, "entre muitas coisas. Fez com que eu entendesse a sensualidade."

Havergill e a mulher estavam diante dela, e notou seus olhos fitos no seu busto. Riu sozinha, cônscia de que, embora de maneira discreta, seria a única mulher presente a ousar ser tão moderna, a imitar a moda que começara o ano passado na badalada Londres.

— Boa noite, Sr. Havergill, sra. Havergill — cumprimentou, educadamente, passando por eles, no meio da multidão. Conhecia-o bem. Muitas vezes ele fora convidado para o iate de Gornt. Às vezes o iate saía do Yacht Club, do lado de Hong Kong, levando a bordo apenas ela, Quillan e seus amigos, e ia para Kowloon, para os degraus molhados pelo mar junto da Balsa Dourada, onde as moças estavam esperando, vestindo roupas de praia ou de velejar.

No princípio do seu caso com Quillan, também ela tivera que esperar em Kowloon, honrando a regra de ouro da colônia de que a discrição era de suma importância, e que quem mora em Hong Kong diverte-se em Kowloon, quem mora em Kowloon diverte-se em Hong Kong.