Na época em que a mulher de Quillan vivia presa ao leito, e Orlanda era abertamente, embora ainda muito discretamente, sua amante, ele a levava consigo para o Japão, Cingapura e Formosa, mas nunca para Bangkok. Naquela época, Paul Havergill era Paul, ou mais provavelmente Tesudo... Tesudo Come Garotas, como era conhecido entre os seus amigos mais íntimos. Mas mesmo então, quando o encontrava em público, como naquela noite, deixava de tratá-lo por Sr. Havergill "Ele não é um mau sujeito", disse consigo mesma, recordando que, embora a maioria das suas garotas não gostasse dele, elas viviam a bajulá-lo, pois era razoavelmente generoso, e sempre dava um jeito de arranjar um empréstimo rápido a juros baixos para uma amiga, através de seus conhecidos em outros bancos, embora jamais no Vic.
"Sensato", pensou, divertida, "é uma questão de prestígio. Ah, mas eu poderia escrever um livro e tanto sobre todos eles, se quisesse. Não o farei... acho que nunca o farei. Por que o faria? Não há motivo. Mesmo depois de Macau, sempre guardei segredos. Foi outra coisa que aprendi com Quillan... discrição.
"Macau! Que desperdício! Mal me lembro da cara do rapaz, agora. Só que era muito ruim de cama, e por causa dele minha vida foi destruída. O idiota não passou de um capricho repentino, o primeiro. Foi apenas solidão, porque Quillan estava fora há um mês, e todo mundo estava fora, e foi desejo de juventude... só o corpo cheio de juventude me atraiu, e afinal provou ser tão inútil. Idiota! Como fui idiota!"
Seu coração começou a palpitar, ao pensar em todos aqueles pesadelos: ser descoberta, ser mandada para a Inglaterra, ter que ser grosseira com o rapaz, desesperada para agradar Quillan, depois voltar e encontrar Quillan tão frio, e nunca mais ir para a cama com ele. E depois, o pesadelo maior de ter que se adaptar a uma vida sem ele.
Dias pavorosos. O desejo terrível e insaciável. Sentir-se só. Sentir-se excluída. Todas as lágrimas e o sofrimento, depois tentando recomeçar, mas cautelosamente, sempre esperando que ele cedesse, se ela fosse paciente. Jamais alguém em Hong Kong, sempre sozinha em Hong Kong. E quando o desejo ficava intenso demais, ir para outro lugar e tentar, sem nunca ficar satisfeita. "Ah, Quillan, que amante você era!"
Há pouco tempo a mulher dele falecera, e então, na hora propícia, Orlanda fora procurá-lo. Para seduzi-lo, trazê-lo de volta. Naquela noite, pensara que tinha tido êxito, mas ele estava apenas se divertindo com ela.
— Vista-se, Orlanda. Só estava curioso quanto ao seu corpo. Queria ver se ainda era tão lindo quanto no meu tempo. É com prazer que lhe digo que é... você ainda é perfeita. Mas, que pena, não desejo você. — E todo o choro e as súplicas desesperadas dela não tinham surtido efeito. Ele apenas ouvira e fumara um cigarro, depois o apagara no cinzeiro. — Orlanda, por favor, jamais volte aqui sem ser convidada — dissera, com toda a suavidade. — Você escolheu Macau.
“E ele tinha razão, escolhi, desprestigiei-o publicamente. Por que ele ainda me sustenta?", perguntou a si mesma, os olhos correndo pelos convidados, à procura de Bartlett. "É preciso que se perca alguma coisa para dar-lhe o seu devido valor? Isso é que é a vida?"
— Orlanda!
Deteve-se, espantada, quando alguém parou diante dela. Viu que era Richard Hamilton Pugmire. Ele era um pouco mais baixo do que ela.
— Quero lhe apresentar Charles Biltzmann, dos Estados Unidos — dizia, com um olhar de soslaio malicioso que a deixava arrepiada. — Charles vai ser o... bem... o novo tai-pan da General Stores. Chuck, esta é Orlanda Ramos!
— Prazer em conhecê-la, senhora!
— Como vai? — respondeu cortesmente, antipatizando com ele de cara. — Desculpe...
— Chame-me de Chuck. É Orlanda? Puxa, mas que nome bonito, e que vestido bonito! — Biltzmann ofereceu-lhe o seu cartão de visitas, com um floreio. — Velho costume chinês!
Ela o aceitou, mas não retribuiu.
— Obrigada. Desculpe, Sr. Biltzmann, mas vai me dar licença. Estou procurando uns amigos e...
Antes que pudesse impedi-lo, Pugmire pegou-a pelo braço, afastou-se ligeiramente com ela e sussurrou, com voz rouca:
— Quer jantar comigo? Você está fantás...
Ela afastou bruscamente o braço, tentando não dar muito na vista.
— Vá embora, Pug.
— Escute, Orlan...
— Já lhe disse com educação, mais de cinqüenta vezes, para me deixar em paz! Agora, dew neh loh moh para você e toda a sua descendência! — falou, e Pugmire enrubesceu. Sempre o detestara, mesmo nos velhos tempos. Sempre olhava para ela com ar lascivo, por trás das costas de Quillan, e quando fora posta de lado, Pugmire dera em cima dela e tentara, por todos os meios, dormir com ela... e ainda tentava. — Se você ligar para mim ou falar comigo de novo, contarei a toda a Hong Kong sobre você e seus hábitos esquisitos.
Fez um sinal de cabeça polido para Biltzmann, deixou cair o cartão dele, discretamente, e se afastou. Daí a um momento, Pugmire voltou para junto do americano.
— Que corpo! — disse Biltzmann, os olhos ainda fixos nela.
— Ela... ela é uma das nossas prostitutas notórias — disse Pugmire, com um sorriso de desprezo. — Puxa, tomara que andem logo com a comida. Estou morto de fome.
— Ela é uma vagabunda? — indagou Biltzmann, boquiaberto.
— Aqui, nunca se sabe — Pugmire acrescentou, em voz baixa. — Estou surpreso ao ver que Shi-teh T'Chung a convidou. É, mas agora acho que está pouco se lixando, uma vez que já comprou o seu título de cavaleiro. Há anos, Orlanda era a garota de um amigo, mas ficava naquela de se vender por fora. Ele descobriu e deu-lhe a Grande C.
— A Grande C?
— A Grande Cotovelada... mandou-a passear.
Biltzmann não conseguia desviar os olhos dela.
— Pombas — murmurou —, não sei da Grande C, mas pode apostar que eu adoraria dar-lhe a Grande F, se é que me entende.
— É só uma questão de dinheiro, meu velho, mas posso lhe assegurar que ela não vale a pena. Orlanda é ruim de cama à beca, eu sei, e hoje em dia não se pode saber quem esteve lá antes, não é? — Pugmire achou graça da expressão do americano. — Depois da primeira vez, não quis mais nada com ela. Mas se vai molhar o pavio ali, é melhor tomar suas precauções.
Dunross acabara de chegar, e estava ouvindo, sem prestar muita atenção, as bazófias de Richard Kwang sobre as transações que fizera para segurar a corrida, e como havia gente suja o bastante para difundir tais boatos.
— Concordo plenamente, Richard — falou Dunross, querendo se reunir aos deputados visitantes que estavam do outro lado do aposento. — O que não falta por aí é filho da mãe. Se me dá licença...
— Claro, tai-pan. — Richard Kwang baixou o tom de voz, mas não pôde evitar que transparecesse um pouco da sua ansiedade. — Posso precisar de uma mãozinha.
— O que quiser, é claro, exceto dinheiro.
— Poderia falar com Johnjohn no Vic, para mim. Ele...
— Não o fará, você sabe disso, Richard. Sua única chance é um dos seus amigos chineses. Que tal o Ching Sorridente?
— Hum, aquele vigarista velho! Eu não pediria o seu dinheiro sujo! — disse Richard Kwang, com uma expressão de desdém. Ching Sorridente voltara atrás na sua combinação, e se recusara a lhe emprestar dinheiro... ou crédito. — Aquele velho safado merece ir para a cadeia! Está havendo uma corrida ao banco dele, também, mas é o que merece! Acho que é tudo coisa dos comunistas, estão tentando nos arruinar a todos. O Banco da China! Ouviu falar das filas no Vic, na central? E mais filas no Blacs. O Banco do Leste da Ásia e Japão, do Velho Tok Barrigudo, foi pro brejo. Não vai abrir as portas amanhã...
— Meu Deus, tem certeza?
— Ele me ligou hoje à noite, pedindo vinte milhões. Dew neh loh moh, tai-pan, a não ser que obtenhamos ajuda, Hong Kong inteira vai pro brejo. Vamos...