— Desculpe, tenho que ir trabalhar. Mas virá outra pessoa para acompanhá-lo até sua casa.
— Santo Deus, Brian, vocês não estão exagerando? — perguntou Dunross, no mesmo tom de voz discreto.
Brian não alteou a voz.
— Não creio. Acabei de ligar para Crosse para saber o que houve com aqueles dois desocupados que estavam rondando a sua casa. No momento que o nosso pessoal chegou, eles deram no pé.
— Talvez fossem apenas desordeiros que não gostam da polícia.
Brian Kwok sacudiu a cabeça.
— Crosse pediu de novo para você lhe entregar os papéis de Alan Medford Grant agora.
— Sexta-feira.
— Mandou que lhe dissesse que há um navio espião soviético no porto. Já houve uma morte... um dos agentes deles, esfaqueado.
Dunross ficou chocado.
— O que isso tem a ver comigo?
— Sabe melhor do que nós. Sabe o que há naqueles relatórios. Tem que ser coisa séria, ou você mesmo não se faria de tão difícil... ou cauteloso. Crosse disse que... Deixe-o pra lá! Escute, Ian, somos velhos amigos. Estou preocupado de verdade. — Brian Kwok passou a falar em cantonense. — Até mesmo os sábios podem cair sobre espinhos... espinhos envenenados.
— Daqui a dois dias o mandarim policial vai chegar. Dois dias não é muito tempo.
— É verdade. Mas em dois dias o espião pode nos causar muito dano. Por que tentar os deuses? Eu estou pedindo.
— Não. Desculpe.
Brian Kwok fechou a cara. Em inglês, falou:
— Nossos amigos americanos nos pediram para colocá-lo sob custódia protetora.
— Que bobagem!
— Não é tanta bobagem assim, Ian. Todo mundo sabe que você tem uma memória fotográfica. Quanto mais cedo entregar os papéis, melhor. Mesmo depois, precisa ter cuidado. Por que não me diz onde estão, e nós cuidaremos de tudo?
Dunross também tinha a fisionomia dura.
— Já cuidei de tudo, Brian. Tudo continua como foi planejado.
O chinês alto soltou um suspiro. Depois, deu de ombros.
— Pois bem. Desculpe, mas depois não venha dizer que não foi avisado. Gavallan e Jacques também vão ficar para o jantar?
— Não creio. Pedi-lhes apenas que dessem uma chegadinha aqui. Por quê?
— Poderiam ir para casa com você. Por favor, não vá a lugar algum sozinho durante algum tempo, não tente despistar seus guardas. No momento, se tiver algum, . . encontro particular, avise-me.
— Eu, um encontro particular? Aqui em Hong Kong? Francamente, que idéia!
— O nome Jen não lhe diz nada?
Os olhos de Dunross ficaram duros como pedra.
— Que bando de sacanas abelhudos vocês são!
— E você parece que não se dá conta de que está num jogo muito sujo, sem regras civilizadas.
— Está bem, entendi.
— Boa noite, tai-pan.
— Boa noite, Brian. — Dunross foi até junto dos deputados, que estavam num grupo, conversando com Jacques de Ville, a um canto. Agora, eram em número de quatro, os demais descansavam após a longa viagem. Jacques de Ville fez as apresentações. Sir Charles Pennyworth, conservador; Hugh Guthrie, liberal; Julian Broadhurst e Robin Grey, trabalhistas. — Alô, Robin — cumprimentou.
— Alô, Ian. Há quanto tempo!
— É.
— Se me dão licença, vou andando — disse De Ville, a fisionomia cansada e preocupada. — Minha mulher está viajando, e meu netinho está lá em casa.
— Falou com Susanne na França? — perguntou Dunross.
— Falei, tai-pan. Ela... vai ficar boa. Obrigado por ter ligado para Deland. Até amanhã. Boa noite, senhores.
Retirou-se.
Dunross voltou a olhar para Robin Grey.
— Você não mudou nada.
— Nem você — disse Grey. Depois virou-se para Pennyworth. — Ian e eu conhecemo-nos em Londres há alguns anos, Sir Charles. Foi pouco depois da guerra, e eu acabava de me tornar representante sindical.
Robin era um homem esguio, de lábios finos, cabelos grisalhos ralos e feições marcantes.
— É, faz algum tempo — disse Dunross, polidamente, continuando a combinação feita por Penelope e pelo irmão, há tantos anos... que entre eles não havia relação alguma de parentesco. — Vai demorar muito por aqui, Robin?
— Uns poucos dias — falou Grey. O sorriso dele era seco. — Nunca estive neste paraíso dos trabalhadores antes, portanto quero visitar alguns sindicatos, ver como vivem os outros noventa e nove por cento.
Sir Charles Pennyworth, o chefe da delegação, riu. Era um homem rosado e carnudo, um ex-coronel do Regimento Escocês de Londres, com condecorações.
— Não creio que aqui liguem muito para sindicatos, Robin. Não é, tai-pan?
— A nossa mão-de-obra se dá muito bem sem eles — falou Dunross.
— Mão-de-obra explorada, tai-pan — disse Grey, prontamente. — De acordo com algumas das suas próprias estatísticas, estatísticas do governo.
— Não as nossas estatísticas, Robin, simplesmente os seus estatísticos — replicou Dunross. — O nosso pessoal é o que recebe o maiores salários da Ásia, depois dos japoneses, e esta é uma sociedade livre.
— Livre? Corta essa! — zombou Grey. — Quer dizer livre para explorar os trabalhadores. Bem, deixe pra lá. Quando o Partido Trabalhista vencer as próximas eleições, vamos mudar tudo isso.
— Ora, qual é, Robin? — falou Sir Charles. — Os trabalhistas não têm a menor chance na próxima eleição.
Grey sorriu.
— Não aposte nisso, Sir Charles. O povo da Inglaterra quer mudanças. Não fomos todos para a guerra para manter a mesma situação podre. Os trabalhistas querem as mudanças sociais... e que os trabalhadores recebam uma porção justa dos lucros que criam.
Dunross falou:
— Sempre achei injusto que os socialistas falem sobre os "trabalhadores", como se eles fizessem todo o trabalho, e nós, nenhum. Também somos trabalhadores. Trabalhamos tanto quanto eles, se não mais, períodos maiores e...
— Ah, mas você é um tai-pan, e mora numa casa imponente que herdou, juntamente com seu poder. Todo aquele capital derivou do suor de algum pobre coitado, e nem vou falar do comércio de ópio que deu origem a tudo. É justo que o capital seja dividido, justo que todos possam ter o mesmo começo. Os ricos deveriam pagar impostos maiores. Devia haver um imposto sobre o capital. Quanto mais cedo as grandes fortunas forem divididas, melhor para todos os ingleses, hem, Julian?
Julian Broadhurst era um homem alto e distinto, de quarenta e tantos anos, um defensor decidido da Sociedade Fabiana, que era o grupo de conselheiros intelectuais do movimento socialista.
— Bem, Robin — falou, na sua voz indolente, quase acanhada —, certamente não aconselho, como você, irmos todos às barricadas, mas realmente acho, Sr. Dunross, que aqui em Hong Kong faz falta um conselho de sindicatos, um salário mínimo, legisladores eleitos, sindicatos e salvaguardas, medicina socializada, indenização para os trabalhadores e todas as modernas inovações britânicas.
— Totalmente errado, Sr. Broadhurst. A China jamais concordaria com uma mudança do nosso status colonial, jamais toleraria qualquer forma de cidade-Estado na sua fronteira. Quanto ao resto, quem pagará as reformas? — perguntou Dunross. — Nosso sistema não-tolhido aqui está superando em vinte vezes a atuação da Grã-Bretanha, e...
— Vocês pagarão, dos seus lucros, Ian — disse Robin Grey, com uma risada. — Pagarão um imposto justo, não quinze por cento. Pagarão a mesma coisa que pagamos na Grã-Bretanha e...
— Deus nos livre! — exclamou Dunross, esforçando-se por não perder a paciência. — Com o excesso de impostos vocês estão acabando com os seus negócios e...
— Lucros? — o quarto deputado, o liberal Hugh Guthrie, interrompeu causticamente. — O último e infeliz governo trabalhista acabou com os nossos lucros faz anos, com malditos gastos desregrados, nacionalizações ridículas, a distribuição do império aos pedacinhos, com um abandono estúpido e insensato, despedaçando o Commonwealth e enfiando a cara da pobre da Inglaterra na lama! Um coisa ridícula! Attlee e toda aquela patuscada!