Robin Grey disse, apaziguadoramente:
— Ora, Hugh, o governo trabalhista fez o que o povo queria, o que as massas queriam.
— Bobagem! O que o inimigo queria. Os comunistas! Em dezoito anos vocês deram de bandeja o maior império que o mundo já viu, fizeram de nós uma potência de segunda classe, e permitiram que o desgraçado inimigo soviético devorasse a maior parte da Europa. Uma coisa ridícula!
— Concordo inteiramente que o comunismo é uma coisa horrível. Mas, quanto a "dar de bandeja" o nosso império, foram os ventos das mudanças, Hugh — disse Broadhurst, acalmando-o. — O colonialismo já deu tudo o que tinha que dar. Você precisa ver as coisas a longo prazo.
— E vejo. Acho que estamos no mato sem cachorro. Churchill está certo, sempre esteve.
— O povo não achou — disse Grey, sombriamente. — Por isso ele perdeu as eleições. Foram os votos dos combatentes que o derrotaram. Já estavam cheios dele. Quanto ao império, desculpe, Hugh, meu velho, mas não passava de uma desculpa para explorar nativos ignorantes. — Robin Grey olhou para seus rostos, e leu o que estava escrito neles. Estava acostumado ao ódio que o cercava. Ele os odiava mais, e fora sempre assim. Depois da guerra, quisera continuar no exército, mas fora rejeitado... havia capitães demais, na época, cheios de condecorações e uma bela folha de serviço, enquanto ele passara a guerra como prisioneiro em Changi. Então, cheio de raiva e ressentimento, entrara para a Crawley, uma imensa fábrica de automóveis, como mecânico. Logo se metera a organizar sindicatos e fora eleito representante sindical. Depois ingressara nas fileiras inferiores do Conselho Geral dos Sindicatos. Há cinco anos, fora eleito deputado trabalhista, e agora atuava no Parlamento como um membro novato, mordaz, colérico, hostil, um protegido do falecido socialista de extrema esquerda Aneurin Bevan. — É, livramo-nos de Churchill, e quando tomarmos o poder, no ano que vem, vamos botar para fora muitos outros costumes velhos e desgastados, e infecções das classes superiores. Vamos nacionalizar todas as indústrias e...
— Francamente, Robin — disse sir Charles —, estamos num banquete, não fazendo comício no Hyde Park. Todos concordamos em deixar a política de lado durante esta viagem.
— Tem razão, Sir Charles. Foi só o que o tai-pan da Casa Nobre me perguntou. — Grey virou-se para Dunross. — Como vai a Casa Nobre?
— Bem, muito bem.
— Segundo o jornal da tarde está havendo uma corrida às suas ações.
— Um dos nossos competidores está bancando o engraçadinho, só isso.
— E as corridas aos bancos? Também não são sérias?
— São sérias. — Dunross escolhia as palavras com cuidado. Sabia que havia forte campanha anti-Hong Kong no Parlamento, e que muitos deputados dos três partidos eram contrários ao seu status colonial, o status não-votante e sua natureza independente... e, principalmente, invejavam a quase ausência de impostos. "Não faz mal", pensou. "Desde 1841, sobrevivemos a Parlamentos hostis, incêndio, tufão, peste, epidemia, embargo, depressão, ocupação e às convulsões periódicas pelas quais a China passa, e sempre continuaremos sobrevivendo." — A corrida é ao Ho-Pak, um dos nossos bancos chineses — disse Dunross.
— É o maior deles, não? — indagou Grey.
— Não, mas é grande. Estamos todos torcendo para que supere o problema.
— Se ele falir, o que acontece ao dinheiro dos depositantes?
— Infelizmente, eles o perdem — respondeu Dunross, encurralado.
— Vocês precisam de leis bancárias inglesas.
— Não, pensamos que o nosso sistema funciona muito bem. O que acharam da China? — perguntou Dunross.
Antes que Sir Charles pudesse responder, Grey o fez:
— O ponto de vista da maioria é que eles são perigosos, hostis, deviam ser trancafiados, e a fronteira com Hong Kong, lacrada. Eles estão abertamente dedicados a se tornarem agentes agitadores mundiais, e o comunismo deles é simplesmente uma desculpa para a ditadura e exploração das suas massas.
Dunross e os outros yan de Hong Kong empalideceram, enquanto Sir Charles dizia vivamente:
— Qual é, Robin? Esta é apenas a sua opinião e do com... de McLean. Eu achei exatamente o contrário. Acho que a China é muito sincera ao tentar lidar com os problemas da China, que são medonhos, monumentais e, a meu ver, insolúveis.
— Graças a Deus vai haver encrenca da grossa por lá — disse Grey, com ar de escárnio. — Até os russos estão sabendo. Caso contrário, por que sairiam?
— Porque são inimigos, compartilham oito mil quilômetros de fronteiras comuns — disse Dunross, tentando conter sua ira. — Sempre desconfiaram um do outro. Porque o invasor da China sempre veio do oeste, e o da Rússia sempre do leste. A posse da China sempre foi a obsessão e preocupação da Rússia.
— Ora, o que é isso, Sr. Dunross? — começou Broad-hurst. — Sem dúvida está exagerando.
— Interessa à Rússia ver a China fraca e dividida, e Hong Kong, desintegrada. A Rússia necessita de uma China fraca como pedra angular da sua política externa.
— Pelo menos a Rússia é civilizada — falou Grey. — A China Vermelha é fanática, perigosa e paga, e devia ser isolada, especialmente daqui.
— Ridículo! — disse Dunross, secamente. — A China tem a civilização mais antiga da Terra. A China deseja desesperadamente fazer amizade com o Ocidente. A China é chinesa em primeiro lugar, e comunista em segundo.
— Hong Kong e vocês, "comerciantes", estão mantendo os comunistas no poder.
— Besteira! Mao Tsé-tung e Chu En-lai não precisam de nós, ou dos soviéticos, para ficar em Pequim!
Hugh Guthrie falou:
— No que me diz respeito, a China Vermelha e a Rússia soviética são igualmente perigosas.
— Não há comparação! — exclamou Grey. — Em Moscou come-se com garfo e faca, e compreende-se a comida! Na China não tivemos outra coisa que não comida pavorosa, hotéis pavorosos e um bocado de conversa fiada.
— Não consigo entender você, meu rapaz — disse Sir Charles, com irritação. — Lutou feito louco para fazer parte deste comitê, diz estar interessado na situação asiática, e não fez outra coisa senão reclamar.
— Criticar não é reclamar, Sir Charles. Falando francamente, sou contra dar-se qualquer ajuda à China Vermelha. Qualquer ajuda. E quando voltar, vou apresentar um projeto para mudar totalmente o status de Hong Kong: embargar qualquer produto de e para a China comunista, realizar eleições imediatas aqui, introduzir uma taxação adequada, sindicatos e justiça social britânica adequados!
O queixo de Dunross projetou-se para a frente.
— Então destruirá a nossa posição na Ásia!
— Dos tai-pans, sim, do povo, não! A Rússia tinha razão sobre a China.
— Estou falando do mundo livre! Meu Deus, devia ser evidente para todos: a Rússia soviética só visa a hegemonia, a dominação do mundo e a nossa destruição. A China, não — disse Dunross.
— Está errado, Ian. Não está vendo o todo, preso a detalhes — falou Grey.
— Escute! Se a Rússia... Broadhurst interrompeu, suavemente:
— A Rússia está apenas tentando resolver os próprios problemas, Sr. Dunross, e um deles é a política de contenção americana. Querem apenas ficar em paz, e não cercados por americanos altamente emotivos com suas mãos bem-alimentadas nos gatilhos nucleares.
— Besteira! Os ianques são os únicos amigos que temos — disse Hugh Guthrie, irado. — E quanto aos soviéticos, o que me dizem da guerra fria? Berlim? Hungria? Cuba, Egito... estão nos engolindo aos pedaços.
Sir Charles Pennyworth soltou um suspiro.
— A vida é estranha, e a memória é curta. Em 45, no dia 2 de maio, à noitinha, unimo-nos aos russos em Wismar, na Alemanha setentrional. Nunca senti tanto orgulho e felicidade na vida. É, orgulho. Cantamos, bebemos, demos vivas e fizemos brindes mútuos. Depois a minha divisão, e todos nós, na Europa, todos os aliados, ficamos durante semanas sem avançar, para deixar os russos invadirem a Alemanha, os Bálcãs, a Tchecoslováquia, a Polônia e todos os outros lugares. Na época não parei muito para pensar no assunto. Estava tão grato porque a guerra finalmente estava quase acabando, e tão orgulhoso dos nossos aliados russos. Mas, olhando para trás, agora, acho que fomos traídos, nós, os soldados, fomos traídos... inclusive os soldados russos. Fomos sacaneados. Não sei direito como aconteceu, ainda não sei, mas acredito realmente que fomos traídos, Julian, por nossos próprios líderes, os seus malditos socialistas, juntamente com Eisenhower, Roosevelt e seus assessores mal-orientados. Juro por Deus que ainda não sei como aconteceu, mas perdemos a guerra. Vencemos, mas perdemos.