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— Ora, Charles, você está totalmente errado. Todos vencemos — dizia Broadhurst. — Os povos do mundo venceram quando a Alemanha nazista foi destru... — Parou, espantado, ao ver a expressão no rosto de Grey. — O que foi, Robin?

Grey olhava fixo para o outro lado da sala.

— Ian! Aquele homem ali, conversando com os chineses... conhece-o? O sacana alto, de blazer?

Igualmente espantado, Dunross olhou para o outro lado da sala.

— O sujeito de cabelos avermelhados? Está falando de Marlowe, Pete...

— Maldito Peter Marlowe! — murmurou Grey. — O que está fazendo em Hong Kong?

— Está só de visita. Veio dos Estados Unidos. É escritor. Parece que está escrevendo um livro sobre Hong Kong, ou fazendo pesquisas para o livro.

— Escritor, hem? Curioso. É amigo seu?

— Conheci-o há poucos dias. Por quê?

— Aquela é a mulher dele... a moça ao seu lado?

— É. Aquela é Fleur Marlowe. Por quê?

Grey não respondeu. Havia uma gota de saliva no canto dos seus lábios.

— Qual a ligação dele com você, Robin? — perguntou Broadhurst, estranhamente perturbado.

Com esforço, Grey desviou os olhos de Marlowe.

— Estivemos juntos em Changi, Julian, o campo de prisioneiros de guerra japonês. Eu fui chefe da polícia militar durante os dois últimos anos, encarregado da disciplina do campo. — Enxugou o suor do lábio superior. — Marlowe era um dos que transavam com o mercado negro, no campo.

— Marlowe? Dunross ficou estupefato.

— É, sim, o capitão-aviador Marlowe, o grande cavalheiro inglês — disse Grey, a voz áspera de amargura. — É. Ele e o amigão, um americano chamado King, cabo King, eram os principais. Havia também um sujeito chamado Timsen, um australiano... mas o americano era o maior de todos, era o rei¹ mesmo. Um texano. Tinha coronéis na sua folha de pagamento, todos cavalheiros ingleses... coronéis, majores, capitães. Marlowe era o intérprete deles junto aos guardas japoneses e coreanos... na sua maioria, nossos guardas eram coreanos. Eram os piores. — Grey tossiu. — Santo Deus, faz tão pouco tempo! Marlowe e o Rei viviam na fartura... os dois sacanas comiam pelo menos um ovo por dia, enquanto o resto de nós morria de fome. Não podem imaginar como...

¹ Referência ao nome do cabo King. "King", em inglês, "rei". (N. do E.)

 

Grey voltou a enxugar o suor dos lábios sem notar.

— Por quanto tempo foi prisioneiro de guerra? — perguntou Sir Charles, compassivamente.

— Três anos e meio.

— Terrível — disse Hugh Guthrie. — Meu primo passou o diabo na ferrovia na Birmânia. Terrível!

— Foi tudo terrível! — disse Grey. — Mas não tão terrível para aqueles que se venderam. Na ferrovia ou em Changi! — Olhou para Sir Charles, e seus olhos estavam estranhos e injetados. — Foram os Marlowes do mundo que nos traíram, às pessoas comuns sem os privilégios do berço. — A voz dele ficou ainda mais amarga. — Sem querer ofender, mas agora vocês estão todos tendo o troco que merecem, e já não é sem tempo. Meu Deus, preciso de uma bebida. Com licença, um momento.

Saiu às pressas, dirigindo-se para o bar que estava armado a um lado.

— Extraordinário — comentou Sir Charles. Guthrie falou, com uma risada ligeira e nervosa:

— Por um momento pensei que ele ia avançar sobre Marlowe.

Todos o observavam. Então Broadhurst notou a testa franzida de Dunross, a fisionomia fechada e fria.

— Não ligue para ele, Sr. Dunross. Infelizmente Grey é muito cansativo, é um chato muito vulgar. Ele... bem, não é representativo dos escalões trabalhistas, graças a Deus. O senhor gostaria do nosso novo líder, Harold Wilson, ele teria a sua aprovação. Da próxima vez que estiver em Londres, terei prazer em apresentá-lo a ele, se tiver tempo.

— Obrigado. Na verdade, estava pensando em Marlowe. É difícil acreditar que ele se tenha "vendido" ou atraiçoado alguém.

— Nunca se conhece bem as pessoas, não é?

Grey pegou um uísque com soda, voltou e cruzou a sala.

— Ora, se não é o capitão-aviador Marlowe!

Peter Marlowe virou-se, espantado. O sorriso dele desapareceu, e os dois homens se fitaram. Fleur Marlowe ficou imóvel.

— Alô, Grey — disse Marlowe, com a voz inexpressiva. — Soube que estava em Hong Kong. Na verdade, li sua entrevista no jornal da tarde. — Virou-se para a mulher. — Querida, este é o deputado Robin Grey.

Apresentou-o aos chineses, um dos quais era Sir Shi-teh T-Chung.

— Ah, Sr. Grey, que honra tê-lo aqui! — disse Shi-teh, com um sotaque inglês de Oxford. Era alto, moreno, bonitão, ligeiramente chinês, e principalmente europeu. — Esperamos que tenha uma estadia agradável em Hong Kong. Se houver algo que eu possa fazer, é só dizer.

— Tá — replicou Grey, displicentemente. Todos notaram a sua grosseria. — Então, Marlowe! Não mudou muito.

— Nem você. Tem se saído muito bem na vida. — Marlowe acrescentou para os outros: — Estivemos juntos na guerra. Não vejo Grey desde 1945.

— Fomos prisioneiros de guerra, Marlowe e eu — disse Grey, e depois acrescentou: — Estamos em lados opostos, politicamente. — Parou e saiu do caminho para deixar Orlanda Ramos passar. Ela cumprimentou Shi-teh com um sorriso, e seguiu em frente. Grey observou-a rapidamente, depois se voltou. — Marlowe, meu velho, ainda está no comércio? — Era um insulto inglês particular. "Comércio", para alguém como Marlowe, que descendia de uma linhagem de oficiais ingleses, significava tudo o que era vulgar e de classe baixa.

— Sou escritor — disse Marlowe. Voltou os olhos para a mulher, sorrindo-lhe com os olhos.

— Pensei que ainda estivesse na RAF, um oficial de carreira como seus ilustres antepassados.

— Fui reformado por invalidez, malária e tudo o mais. Uma coisa muito tediosa — disse Marlowe, acentuando deliberadamente o seu sotaque aristocrático, sabendo que deixaria Grey furioso. — E você está no Parlamento? Que sabido! Representa Streatham East? Não foi lá que nasceu?

Grey enrubesceu.

— É, foi, sim...

Shi-teh disfarçou o seu embaraço ante a tensão entre os dois homens.

— Tenho que ver... bem... como vai indo o nosso jantar.

Saiu apressadamente. Os outros chineses pediram licença e se retiraram.

Fleur Marlowe se abanava.

— Talvez devamos ir procurar a nossa mesa, Peter — falou.

— Uma boa idéia, Sr. Marlowe — disse Grey. Estava sob um controle tão severo quanto Peter Marlowe. — Como vai o Rei?

— Não sei. Não o vejo desde Changi. Marlowe olhava de cima para Grey.

— Mas você está em contato com ele, não é?

— Não. Para falar a verdade, não.

— Não sabe onde ele está?

— Não.

— É estranho, já que eram tão íntimos. — Grey desviou os olhos dele com esforço, e olhou para Fleur Marlowe, achando que era a mulher mais bonita que já vira. Tão bonita, fina, inglesa e loura como a sua ex-mulher, Trina, que se mandara com um americano pouco mais de um mês depois que ele fora dado como desaparecido em combate. Mal se passara um mês. — Sabia que fomos inimigos em Changi, sra. Marlowe? — disse, com uma suavidade que ela achou assustadora.