— Peter nunca falou de Changi comigo, Sr. Grey. Ou com qualquer outra pessoa, que eu saiba.
— Curioso. Foi uma experiência aterradora, sra. Marlowe. Não esqueci coisa alguma dela. Eu... bem, lamento interromper...
Ergueu os olhos para Marlowe. Começou a dizer qualquer coisa, mas mudou de idéia e se afastou.
— Oh, Peter, que homem horrível! — disse Fleur. — Deixou-me toda arrepiada.
— Não há com que se incomodar, querida.
— Por que vocês foram inimigos?
— Agora não, meu bem, depois. — Marlowe sorriu para ela, com amor. — Grey não significa nada para nós.
36
21h45m
Linc Bartlett viu Orlanda antes que ela o visse, e ela o deixou sem fôlego. Não pôde evitar compará-la com Casey, que estava ao seu lado, conversando com Andrew Gavallan. Orlanda usava um vestido longo de seda branca, de frente única, decotadíssimo nas costas, que, de um modo discreto, parecia oferecer seu corpo dourado. Casey usava o vestido verde que ele já vira diversas vezes, a cabeleira fulva cascateante.
— Vocês dois gostariam de vir à festa de Shi-teh, logo mais à noite? — perguntara Orlanda de manhã. — Poderia ser importante para você e a sua Casey estarem presentes.
— Por quê?
— Porque quase todos os negócios importantes em Hong Kong são tratados nesses acontecimentos sociais, Sr. Bartlett. Poderia ser muito importante para vocês envolverem-se com pessoas como Shi-teh... e com o Turf Club, o Cricket Club, até mesmo o Clube, embora isso seja impossível.
— Porque sou americano?
— Porque alguém tem que morrer para abrir uma vaga... um inglês ou um escocês. — Ela dera uma risada. — A lista de espera é do tamanho da Queen's Road! É exclusivo para homens, muito formal, velhas poltronas de couro, homens idosos fazendo a sesta depois de um almoço de três horas e dez doses de gim, The Times, e todo o resto!
— Pombas, parece excitante!
Ela rira outra vez. Tinha os dentes brancos, e ele não via imperfeições nela. Conversaram enquanto tomavam o café da manhã, e ele achara um prazer falar com ela. E estar com ela. Seu perfume era tentador. Casey raramente usava perfume — dizia que ele apenas distraía ainda mais os empresários com quem tinha que tratar. Com Orlanda, comera ovos com bacon bem frito, torradas e tomara café. Um desjejum à moda americana, num hotel novo em folha que ela sugerira, chamado O
Mandarim. Casey não tomava desjejum. Apenas café e torrada, às vezes, ou croissants.
A entrevista transcorrera com facilidade, e o tempo passara depressa demais. Jamais estivera na companhia de uma mulher com uma feminilidade tão franca e confiante. Casey era sempre forte, eficiente, serena, e pouco feminina. "Por escolha, escolha dela e concordância minha", lembrou a si mesmo.
— Aquela é Orlanda?
Casey olhava para ele com uma das sobrancelhas arqueada.
— É — replicou, tentando sem êxito saber o que ela estava pensando. — O que você acha?
— Acho que ela é dinamite.
— De que maneira?
Casey achou graça. Virou-se para Gavallan, que estava tentando concentrar-se e ser polido, mas cujos pensamentos estavam voltados para Kathy. Depois que Kathy lhe contara, à noitinha, não quisera sair de junto dela, mas ela insistira, dizendo que era importante para ele estar presente.
— Você a conhece, Andrew?
— Quem?
— A moça de branco.
— Onde? Ah, sim, mas só de reputação.
— É boa ou ruim?
— Bem, isso depende do ponto de vista, Casey. Ela é portuguesa, eurasiana, é claro. Orlanda foi amiga de Gornt durante vários anos.
— Quer dizer sua amante?
— É, suponho que seja a palavra certa — disse, educadamente, detestando intensamente a franqueza de Casey. — Mas foi tudo muito discreto.
— Gornt tem bom gosto. Sabia que ela foi amiguinha dele, Linc?
— Ela me disse, hoje de manhã. Eu a conheci no escritório de Gornt, faz dois dias. Ele me disse que ainda são amigos.
— Não se pode confiar em Gornt — disse Gavallan. Casey falou:
— Há muita gente forte apoiando-o, dentro e fora de Hong Kong, segundo me disseram. Ao que me consta, não está em dificuldades no momento, como vocês. Deve ter ouvido dizer que quer que fechemos negócio com ele, não com vocês.
— Não estamos em dificuldades — retrucou Gavallan. Olhou para Bartlett. — O nosso negócio está valendo?
— Assinamos na terça-feira. Se vocês estiverem prontos — falou Bartlett.
— Estamos prontos agora.
— O Ian quer que a gente fique na moita até sábado. Pra nós, tudo bem — disse Casey. — Não é, Linc?
— Certo.
Bartlett lançou um olhar para Orlanda. Casey acompanhou o movimento dos seus olhos.
Notara a moça no primeiro momento em que ela hesitara, à entrada da sala.
— Com quem ela está conversando, Andrew?
O homem tinha um ar interessante, era esbelto, elegante, na casa dos cinqüenta anos.
— Aquele é Lando Mata. Também é português, de Macau.
Gavallan se perguntava, angustiado, se Dunross conseguiria persuadir Mata a vir salvá-lo com todos os seus milhões. "O que eu faria se fosse tai-pan?", perguntou-se, cansado. "Compraria amanhã, ou fecharia o negócio com Mata e Pão-Duro, hoje. Com o dinheiro deles, a Casa Nobre ficaria a salvo por gerações, embora fora do nosso controle. Não há por que se preocupar agora. Espere até ser tai-pan." Então viu Mata sorrir para Orlanda, e ambos olharam para aquele lado, e começaram a abrir caminho entre os convidados, em sua direção. Os olhos dele fitavam os seios firmes dela, livres sob a seda. Mamilos duros. "Santo Deus", pensou, assombrado, "nem mesmo Vênus Poon ousaria tanto!" Ao chegarem até eles, Gavallan fez as apresentações e postou-se de lado para observá-los.
— Alô — Orlanda cumprimentou Casey, carinhosamente. — Linc me falou muito a seu respeito, e de como é importante para ele.
— Também me falou a seu respeito — disse Casey, no mesmo tom. — Mas não o bastante. — "Você é muito mais linda do que Linc deixou transparecer", pensou. "Muitíssimo mais. Com que então é Orlanda Ramos? Bonita, de fala macia, feminina, e uma piranha safada que está de olho no meu Linc. Meu Deus, o que faço agora?"
Ouviu a si mesma conversando fiado, mas sua mente ainda estava pesando e analisando Orlanda Ramos. "Por um lado seria bom para o Linc ter um caso. Faria com que esfriasse um pouco. Ontem à noite foi tão horrível para ele quanto para mim. Ele tinha razão sobre eu me mudar de quarto. Mas, se a magia dessa aí o envolver, será que conseguirei arrancá-lo dela? Será apenas uma garota como as outras, que nada significaram para mim e que, depois de uma semana, também nada significaram para ele?
"Essa não", concluiu Casey, decisivamente. "Tenho duas escolhas. Ou mantenho as treze semanas e quatro dias e entro na luta, ou não mantenho e entro na luta."
Sorriu.
— Orlanda, seu vestido é espetacular.
— Obrigada. Posso chamá-la de Casey?
As duas mulheres sabiam que a guerra tinha começado.
Bartlett ficou encantado ao ver que Casey simpatizara obviamente com Orlanda. Gavallan observava, fascinado pelos quatro. Havia um calor estranho entre todos. Especialmente entre Bartlett e Orlanda.
Voltou sua atenção para Mata e Casey. Mata era gentil, cheio de charme do Velho Mundo, concentrando-se em Casey, procurando fasciná-la. "Até onde ele conseguirá chegar com ela?", pensou. "É curioso que Casey não pareça se importar absolutamente com Orlanda. Será que não notou que o namorado está enrabichado? Pode ser que não. Ou pode ser que esteja se lixando, e que ela e Bartlett sejam apenas sócios comerciais e nada mais. Talvez ela não passe de um sapatão. Ou talvez seja apenas frígida, como tantas. Que pena!"
— O que está achando de Hong Kong, srta. Casey? — perguntou Mata, imaginando como ela seria na cama.