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— Infelizmente ainda não vi muita coisa, embora tenha ido aos Novos Territórios, na excursão do hotel, dar uma espiada na China.

— Gostaria de ir? Quero dizer, ir mesmo para a China? Entrar lá, digamos, em Cantão? Posso dar um jeito para que a senhorita seja convidada.

Ela ficou chocada.

— Mas somos proibidos de entrar na China... nossos passaportes não são válidos.

— Ah, não teria que usar o seu passaporte. A RPC não liga para passaportes. Tão poucos quai loh entram na China que não há problema. Eles lhe dão um visto por escrito, e carimbam-no.

— Mas o nosso Departamento de Estado... acho que não iria me arriscar agora.

Bartlett concordou.

— Não devemos nem entrar na loja comunista aqui. A loja de departamentos.

— É, o seu governo é mesmo muito estranho — disse Mata. — Como se entrar numa loja fosse subversivo! Ouviu falar sobre o Hilton?

— Falar o quê?

— Dizem que compraram uma coleção maravilhosa de antigüidades chinesas para o novo hotel. — Mata sorriu. — Parece que agora os Estados Unidos decidiram que eles não poderão usar nada daquilo, nem mesmo aqui em Hong Kong. Está tudo no depósito. Pelo menos, é o que dizem.

— Não é de admirar. Quem não tem êxito, nos Estados Unidos, entra para o governo — disse Bartlett, com azedume.

— Casey, decida por si mesma — falou Mata. — Visite a loja. Chama-se China Arts and Crafts, e fica na Queen's Road. Os preços são bem razoáveis, e os comunistas não têm chifres e rabos pontudos.

— É bem diferente do que eu esperava — disse Bartlett. — Casey, você ia ficar fascinada com algumas das coisas.

— Você esteve lá? — indagou, surpresa.

— Claro.

— Levei o Sr. Bartlett lá hoje de manhã — explicou Orlanda. — íamos passando e entramos. Terei prazer em ir fazer compras com você, se quiser.

— Obrigada, gostaria muito — replicou Casey, igualmente simpática, consciente de todos os sinais de perigo. — Mas disseram-nos, em Los Angeles, que a CIA vigia os americanos que entram e saem, porque tem certeza de que é um ponto de encontro comunista.

— Para mim pareceu uma loja comum, Casey — falou Bartlett. — Só o que vi de diferente foram uns cartazes de Mao. Mas não se pode pechinchar. Todos os preços estão marcados. Coisas baratíssimas. Uma pena que não possamos levá-las para casa.

Nos Estados Unidos havia um embargo total a todas as mercadorias de origem chinesa, até mesmo antigüidades que estavam em Hong Kong há cem anos.

— Isso não é problema — falou Mata prontamente, imaginando o quanto ganharia como intermediário. — Se houver algo que deseje, terei prazer em comprar.

— Mas, ainda assim, não poderemos levar nada para os Estados Unidos, Sr. Mata — disse Casey.

— Ah, isso também é fácil. Faço-o para amigos americanos o tempo todo. Envio as compras deles para uma companhia que tenho em Cingapura ou em Manila. Por uma pequena taxa, eles as enviam para os Estados Unidos com um certificado de origem: Malásia ou Filipinas, o que preferirem.

— Mas isso é trapaça. Contrabando.

Mata, Gavallan e Orlanda riram abertamente, e Gavallan disse:

— O comércio é a graxa do mundo. Mercadorias embargadas dos Estados Unidos ou Formosa chegam à República

Popular da China, mercadorias da RPC vão para Formosa e Estados Unidos... se há procura. Claro que sim!

— Eu sei — disse Casey —, mas não acho que esteja certo.

— A Rússia soviética dedica-se à sua destruição, mas ainda assim comerciam com ela — disse Gavallan para Bartlett.

— Nós, não — retrucou Casey. — Não a Par-Con, embora nos tenham procurado para vender computadores. Gostamos muito de lucros, mas, nesse caso, negativo. O governo comercia, mas com mercadorias controladas com muito cuidado. Trigo, coisas assim.

— Onde houver um comprador disposto a comprar alguma coisa, sempre haverá um vendedor — disse Gavallan, irritado com ela. Olhou pelas janelas e desejou estar de volta a Xangai. — Vejam por exemplo o Vietnam, a sua Argélia.

— Como? — perguntou Casey. Gavallan voltou a olhar para ela.

— Quero dizer que o Vietnam sangrará a sua economia até a morte, como fez com a França, e como a Argélia fez com a França.

— Jamais entraremos no Vietnam — disse Bartlett, confiante. — Por que entraríamos? Não tem nada a ver conosco.

— Concordo — disse Mata —, mas, apesar disso, os Estados Unidos estão tendo um envolvimento crescente. Na verdade, Sr. Bartlett, acho que estão sendo sugados para o abismo.

— De que maneira?

— Acho que os soviéticos os atraíram deliberadamente para o Vietnam. Vocês enviarão tropas, mas eles, não. Vocês lutarão contra os vietnamitas e a selva, e os soviéticos serão os vencedores. A CIA já está lá com força total. Tem uma linha aérea funcionando. Já estão sendo construídos campos de pouso com dinheiro americano, armas americanas estão vindo aos borbotões. Já há soldados lutando lá.

— Não acredito — disse Casey.

— Pode acreditar. São chamadas de Forças Especiais, às vezes Força Delta. Desculpe, mas o Vietnam vai ser um grande problema para o seu governo, a não ser que ele seja muito esperto.

Bartlett falou, confiante:

— Graças a Deus, é. Kennedy cuidou de Cuba. Cuidará do Vietnam também. Fez o Grande K recuar em Cuba, e o fará de novo. Ganhamos, daquela vez. Os soviéticos retiraram seus mísseis.

Gavallan estava sombriamente divertido.

— Devia falar com o Ian sobre Cuba, meu velho, ele fica com a corda toda. Ele diz, e eu concordo, que vocês perderam. Os soviéticos sugaram vocês para outra armadilha. Vocês fizeram papel de bobos. Ele acredita que construíram as bases dos mísseis quase abertamente, querendo que vocês os detectassem, o que fizeram, e então houve um bocado de ameaças de lá e de cá, o mundo todo morto de medo, e, em troca da promessa soviética de retirar os mísseis de Cuba, seu presidente rasgou a sua Doutrina Monroe, a pedra angular de todo o seu sistema de segurança.

— Como?

— Claro. Kennedy não deu a Khruchov uma promessa por escrito de não invadir Cuba, de não permitir uma invasão vinda de território americano... ou de qualquer outro lugar no hemisfério ocidental? Por escrito, Santo Deus! Então, agora, uma potência européia inimiga, a Rússia soviética, totalmente contra a sua Doutrina Monroe, está abertamente estabelecida a cento e cinqüenta quilômetros da sua costa, num local cujas fronteiras são protegidas por escrito pelo seu próprio presidente, proteção ratificada pelo seu Congresso. O Grande K aplicou-lhes um golpe colossal, jamais igualado em toda a sua história. E tudo por nada! — A voz de Gavallan ficou mais áspera. — Agora Cuba está segura, e sem dúvida crescerá, expandir-se-á e acabará por contagiar toda a América do Sul. Segura para submarinos, navios, aviões soviéticos... Santo Deus, mas que vitória maravilhosa!

Casey olhou para Bartlett, chocada.

— Mas, Linc, claro que não é assim! Bartlett estava igualmente chocado.

— Acho que... se a gente pensar direito, é, sim. Na verdade, não lhes custou nada.

— Ian está convencido disso — falou Gavallan. — Converse com ele. Quanto ao Vietnam, aqui ninguém acha que o presidente Kennedy vai saber cuidar do assunto, por mais que o admiremos pessoalmente. A Ásia não é como a Europa, ou as Américas. Aqui se pensa diferente, se age diferente, e se tem valores diferentes.

Fez-se um silêncio repentino, rompido por Bartlett.

— Então acha que vai haver guerra? Gavallan lançou-lhe um olhar.

— Não é motivo para você se preocupar. A Par-Con vai se sair muito bem. Vocês têm indústria pesada, computadores, espuma de poliuretano, contratos do governo para equipamentos aeroespaciais, produtos petroquímicos, equipamentos de rádio... Com suas mercadorias e a nossa técnica pericial, se houver uma guerra... bem, o céu é o limite.