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— Não acho que gostaria de ter lucro dessa maneira — falou Casey, irritada com ele. — É um modo nojento de se faturar.

Gavallan virou-se para ela, com raiva.

— Muitas coisas neste mundo são nojentas, erradas e injustas... — Já ia sair com quatro pedras na mão, furioso pelo modo como ela interrompia a conversa dele com Bartlett, mas resolveu que ali não era a hora nem o lugar, portanto disse, amavelmente: — Mas, claro, tem razão. Ninguém quer lucrar com a morte. Se me dão licença, tenho que ir andando... Sabem que todos têm lugares marcados? O jantar vai começar a qualquer momento. Uma questão de prestígio.

Afastou-se.

— Acho que ele não gosta nem um pouco de mim — disse Casey.

Eles acharam graça no modo como ela falou.

— O que você disse está certo, Casey — falou Orlanda. — Tem razão. A guerra é terrível.

— Esteve aqui durante a guerra? — perguntou Casey, inocentemente.

— Estive, mas em Macau. Sou portuguesa. Minha mãe me contou que lá não foi muito terrível. Os japoneses não perturbaram Macau porque Portugal era neutro. — Orlanda acrescentou, docemente: — Estou com apenas vinte e cinco anos, portanto mal me lembro da guerra. Ainda não tinha sete anos quando ela acabou. Macau é uma cidade gostosa, Casey. Tão diferente de Hong Kong! Você e Linc talvez queiram ir até lá. Vale a pena. Adoraria ser sua guia.

"Aposto que sim", pensou Casey, sentindo que seus vinte e seis anos pesavam contra os vinte e cinco de Orlanda, que tinha a pele de uma menina de dezessete.

— Seria ótimo. Mas, Lando, o que há com o Andrew? Por que estava tão bronqueado? Porque sou uma mulher vice-presidente e tudo o mais?

— Duvido. Estou certo de que você está exagerando — replicou Mata. — Acontece que ele não é muito pró-americanos, e fica doido porque o Império Britânico não existe mais. Os Estados Unidos são o árbitro dos destinos do mundo e estão cometendo erros evidentes, acha ele. A maioria do povo britânico concorda com ele, infelizmente! É em parte inveja, claro. Mas sejam pacientes com o Andrew. Afinal, seu governo entregou Hong Kong para Chang em 45... foi a marinha britânica que o impediu. Os americanos ficaram do lado dos russos, contra eles, no caso de Suez, e apoiaram os judeus contra eles na Palestina... há dúzias de exemplos. Também é verdade que aqui muitos de nós acham errada a hostilidade atual dos Estados Unidos contra a China.

— Mas eles são tão comunistas quanto a Rússia. Entraram em guerra conosco quando estávamos apenas tentando proteger a liberdade da Coréia do Sul. Não íamos atacá-los.

— Mas, historicamente, a China sempre cruzou o Yalu quando qualquer invasor estrangeiro se aproximava daquela fronteira. Sempre. O seu MacArthur tinha fama de ser historiador — disse Mata pacientemente, imaginando se ela seria assim tão ingênua na cama —, devia ter sabido. Ele... ou o seu presidente... forçou a China a tomar um caminho que não queria tomar. Tenho certeza absoluta disso.

— Mas não fomos invasores. Foi a Coréia do Norte que invadiu a do Sul. Nós só estávamos querendo ajudar um povo a ser livre. Não tínhamos nada a ganhar com a Coréia do Sul. Gastamos bilhões tentando ajudar o povo a continuar livre. Veja o que a China fez ao Tibete... e à índia, no ano passado. Parece que sempre somos o bode expiatório, e só o que queremos é proteger a liberdade. — Interrompeu-se quando um murmúrio de alívio correu a sala e as pessoas começaram a se dirigir para as suas mesas. Garçons carregando travessas com tampos de prata entravam em grande número no aposento. — Graças a Deus! Estou morta de fome!

— Eu também — disse Bartlett.

— Até que o Shitee está adiantado, hoje — disse Mata, com uma risada. — Orlanda, devia tê-los avisado de que é um velho costume fazer sempre uma boquinha antes dos banquetes de Shitee.

Orlanda apenas dirigiu-lhes seu lindo sorriso, enquanto Casey dizia:

— Orlanda avisou o Linc, que me avisou, mas achei que dava para agüentar.

Olhou para a sua inimiga, que era quase meia cabeça mais baixa do que ela, com cerca de um metro e sessenta. Pela primeira vez na vida sentiu-se grande e desajeitada. "Seja sincera", falou com seus botões, "desde que saiu do hotel para as ruas e viu todas as moças e mulheres chinesas com mãos, pés e corpos minúsculos, tão pequeninas, de olhos e cabelos escuros, sentiu-se imensa e estranha. É. Agora posso entender por que nos fitam tanto, de boca aberta. E quanto ao turista comum, barulhento, gordo, balançando as banhas...

"Mesmo assim, Orlanda Ramos, embora seja bonita e pense que é esperta, não é a garota certa para Linc Bartlett. Portanto, vá esfregar o rabo nas ostras!"

— Da próxima vez, Orlanda — falou, amavelmente —, vou dar mais atenção às suas recomendações.

— Recomendo que a gente vá comer, Casey. Também estou com fome.

Mata falou:

— Acredito que estejamos todos à mesma mesa. Devo confessar que mexi meus pauzinhos.

Satisfeito, foi mostrando o caminho, mais excitado do que nunca com o desafio de levar Casey para a cama. No momento em que pusera os olhos nela, tinha decidido isso. Em parte por causa de sua beleza, altura e lindos seios, um contraste tão agradável com a miudeza e monotonia da moça asiática normal. Em parte por causa das pistas que Orlanda lhe dera. Mas principalmente por causa de sua idéia repentina de que, rompendo a ligação Bartlett-Casey, poderia destruir a investida da Par-Con na Ásia. "É muito melhor manter os americanos, com a sua moralidade hipócrita e nada prática, e a sua intromissão, fora da nossa área o máximo possível", falou com seus botões. "E se Dunross não tiver fechado o negócio com a Par-Con, terá que me vender o controle que desejo. Então, finalmente, eu serei o tai-pan da Casa Nobre, independente de todos os Dunrosses e Struans.

"Minha Nossa Senhora, a vida é mesmo boa! Curioso que esta mulher possa ser a chave para a melhor fechadura da Ásia", pensou. A seguir, acrescentou, satisfeito: "É evidente que pode ser comprada. É apenas uma questão de preço".

37

23h01m

O jantar teve doze pratos. Haliote refogado com couve-de-bruxelas, fígado de galinha e molho de perdiz em fatias, sopa de barbatana de tubarão, galinha grelhada, verduras chinesas, ervilhas, brócolos e cinqüenta outras variedades de legumes com carne de siri, pele de pato de Pequim assado com molho de ameixas, cebolinhas em fatias, panquecas fininhas, cogumelos cozidos no vapor e ovas de peixe, chaputa defumado com salada, arroz à moda de Yangchow, talharim Lar Doce Lar... depois sobremesa da felicidade, sementes de lótus cristalizadas e lírios com arroz-doce. E chá, continuamente.

Mata e Orlanda ajudaram Casey e Bartlett. Fleur e Peter Marlowe eram os únicos outros europeus à mesa. Os chineses entregaram seus cartões de visita, e receberam outros em troca.

— Ah, vocês sabem comer com pauzinhos!

Todos os chineses ficaram francamente espantados, depois voltaram confortavelmente a falar em cantonense, as mulheres cheias de jóias evidentemente comentando Casey e Bartlett, e os Marlowes. Seus comentários eram ligeiramente policiados apenas devido à presença de Lando Mata e Orlanda.

— O que estão dizendo, Orlanda? — perguntou Bartlett suavemente, em meio à exuberância ruidosa, especialmente dos chineses.

— Estão impressionados com você e a srta. Casey — respondeu, cautelosamente, sem traduzir os comentários indecentes sobre o tamanho do busto de Casey, as indagações sobre onde compraria suas roupas, quanto custariam, por que não usava jóias, e como devia se sentir uma pessoa daquela altura! Quanto a Bartlett pouco falavam, exceto para se perguntarem em voz alta se pertencia mesmo à Máfia, como sugerira um dos jornais chineses.

Orlanda estava certa de que não pertencia. Mas estava certa, também, de que teria que ser muito circunspecta diante de Casey, nem avançada nem retraída demais, e nunca poderia tocá-lo. E que teria que ser meiga com ela, para tentar desconcertá-la.