A cada novo prato que era servido, removiam-se os usados, e trazia-se louça limpa, pousada ruidosamente sobre a mesa. Os garçons corriam para os aparadores na parte central, junto das escadas, para se desfazerem dos pratos sujos e pegarem os limpos, quentinhos, trazidos pelo elevador.
As cozinhas, três cobertas abaixo, eram um inferno, com imensos woks¹ de ferro, de um metro e vinte de comprimento, que se utilizavam de gás canalizado para bordo. Alguns woks serviam para ferver a comida, outros para fritar, outros para abafar, outros para ensopar, e muitos para o arroz branco simples. Havia também uma churrasqueira a lenha. Um exército de ajudantes dos vinte e oito cozinheiros estava preparando as carnes e os legumes, depenando galinhas, matando peixes, lagostas e siris frescos, limpando-os, executando as mil tarefas que a cozinha chinesa exige... pois cada prato é preparado na hora, para cada freguês.
¹ Utensílios de cozinha usados especialmente no preparo da comida chinesa. (N. da T.)
O restaurante abria às dez da manhã, e a cozinha fechava às dez e quarenta e cinco da noite, às vezes até mais tarde, quando havia alguma festa especial programada. Poderia haver danças, e até um show, se o anfitrião fosse rico. Naquela noite, embora não houvesse turno extra, show ou baile, todos sabiam que sua gorjeta seria muito boa. Shitee T'Chung era um anfitrião generoso, embora a maioria deles acreditasse que muito do dinheiro para fundos de caridade que reunia ia para sua barriga, a de seus convidados, ou para o corpo de suas amiguinhas. Ele também tinha a reputação de ser implacável com os críticos, um unha-de-fome com a família, e vingativo com os inimigos.
"Não faz mal", pensou o cozinheiro-chefe. "Um homem precisa de lábios macios e dentes duros, neste mundo, e todo mundo sabe qual vai durar mais."
— Andem logo! — berrou. — Pensam que posso esperar toda esta noite cheia de estrume? Camarões, tragam os camarões!
Um ajudante suado, de calças rasgadas, camiseta suada e velhíssima, veio correndo com uma travessa de bambu de camarões recém-pescados e recém-limpos. O cozinheiro jogou-os no vasto wok, acrescentou uma pitada de glutamato monossódico, deu duas mexidas rápidas neles e retirou-os. Colocou um punhado de ervilhas fumegantes em dois pratos e jogou por cima os camarões rosados, brilhantes e suculentos, divididos igualmente.
— Que todos os deuses urinem em cima de todos os camarões! — exclamou com azedume, sentindo a úlcera doer, os pés e a barriga das pernas pesados como chumbo, depois de dez horas de trabalho. — Mandem esses logo lá para cima, antes que estraguem! Dew neh loh moh... é meu último pedido. Hora de ir para casa!
Outros cozinheiros estavam berrando as últimas ordens, e praguejando enquanto cozinhavam. Estavam todos impacientes para ir embora.
— Andem logo com isso!
Então, um jovem ajudante carregando uma vasilha de gordura usada tropeçou, e a gordura caiu sobre um dos grandes bicos de gás, pegando fogo com um ruído alto. Houve um súbito pandemônio. Um cozinheiro berrou quando o fogo o cercou. Ele tentou afastá-lo com as mãos, o rosto e o cabelo chamuscados. Alguém jogou um balde d'água no fogo, e espalhou-o violentamente. As chamas subiram até o teto, formando ondas de fumaça. Os cozinheiros que gritavam e se empurravam para fugir ao fogo entupiam a saída. A fumaça preta, acre e gordurosa começou a encher os ares.
O homem que estava mais próximo da única escada estreita que levava ao convés superior agarrou um dos extintores de incêndio, apertou o embolo e apontou o bocal para o fogo. Nada aconteceu. Ele repetiu o processo, até que alguém o tirou de suas mãos com um palavrão, tentou sem êxito fazê-lo funcionar, depois jogou-o para o lado. O outro extintor também não funcionou. O pessoal nunca se dera ao trabalho de testá-los.
— Que todos os deuses defequem sobre essas invenções dos demônios estrangeiros sem mãe! — choramingou um cozinheiro, preparando-se para fugir se o fogo se aproximasse dele. Um cule assustado, sufocando com a fumaça do outro lado da cozinha, recuou de uma coluna de chama, bateu em alguns vidros e acabou derrubando-os. Alguns deles continham ovos-de-mil-anos, e outros, óleo de gergelim. O óleo inundou o chão e pegou fogo. O cule desapareceu no súbito lençol de chamas. Agora, o fogo dominava metade da cozinha.
Passava bastante das onze horas, e a maioria dos fregueses do restaurante já se havia retirado. O convés superior do Dragão Flutuante ainda estava parcialmente cheio. A maioria dos chineses, entre eles Wu Quatro Dedos e Vênus Poon, estava saindo ou já tinha saído, pois o último prato já fora servido há bastante tempo, e era um costume chinês de boa educação partir logo que o último prato tivesse sido servido em todas as mesas. Somente os europeus se demoravam tomando o seu conhaque, ou porto, e fumando charutos.
Por todo o barco, mesas de mah-jong estavam sendo armadas por chineses, e o barulhinho das peças de marfim batendo nas mesas começou a dominar.
— Joga mah-jong, Sr. Bartlett? — perguntou Mata.
— Não. Por favor, chame-me de Linc.
— Devia aprender, é melhor do que bridge. Joga bridge, Casey?
Linc Bartlett riu.
— É cobra no jogo, Lando. Não jogue com ela a dinheiro.
— Quem sabe possamos marcar um joguinho, qualquer hora. Você joga, não é, Orlanda? — disse Mata, lembrando-se de que Gornt era excelente jogador.
— Jogo, um pouco — respondeu Orlanda, suavemente, e Casey pensou sombriamente: "Aposto que a safada também é cobra".
— Adoraria um joguinho — disse Casey, meigamente.
— Ótimo — falou Mata. — Um dia da próxima semana... oh, alô, tai-pan!
Dunross cumprimentou a todos com seu sorriso.
— Que tal acharam a comida?
— Fantástica! — disse Casey, feliz por vê-lo e notando como estava elegante no seu traje a rigor. — Quer sentar-se conosco?
— Obrigado, mas...
— Boa noite, tai-pan — disse Dianne Chen, aproximando-se dele com o filho Kevin, um jovem baixo e corpulento, de cabelos crespos escuros e lábios cheios.
Dunross fez as apresentações.
— Onde está Phillip?
— Pretendia vir, mas ligou para avisar que houve um contratempo. Bem, boa noite...
Dianne sorriu, e Kevin também, e dirigiram-se para a porta, enquanto Casey e Orlanda ficavam embasbacadas com as jóias de Dianne.
— Bem, tenho que ir andando, também — falou Dunross.
— Que tal foi a sua mesa?
— Um tanto exasperante — disse Dunross, com uma risada contagiante. Jantara com os deputados, com Gornt, Shi-teh e a mulher na mesa número 1, e houvera explosões iradas e esporádicas abafando o barulho dos pratos. — Robin Grey é franco demais, e mal-informado, e alguns de nós nos irritamos com ele. Pela primeira vez Gornt e eu estávamos do mesmo lado. Devo confessar que serviram nossa mesa primeiro, para que o pobre e velho Shi-teh e a mulher pudessem fugir. Deram no pé feito doidos faz quinze minutos.
Todos riram com ele. Dunross observava Marlowe. Perguntava-se se Marlowe sabia que Grey era seu cunhado.
— Grey parece conhecê-lo muito bem, Sr. Marlowe.
— Ele tem boa memória, tai-pan, mas maus modos.
— Bem, quanto a isso não sei. Mas se conseguir convencer o Parlamento, Deus tenha pena de Hong Kong! Bem, só queria dizer alô a todos vocês. — Sorriu para Bartlett e Casey. — Que tal almoçarmos juntos amanhã?
— Ótimo — disse Casey. — Que tal no Vic? — Percebeu Gornt preparando-se para partir, do lado oposto da sala, e perguntou-se novamente quem venceria. — Pouco antes do jantar, Andrew estava diz...
Então, como todos eles, ela ouviu débeis gritos. Fez-se silêncio repentino, todos de ouvido atento.
— Fogo!
— Meu Deus, olhem!
Todos fitaram o aparador. Fumaça jorrava de dentro dele. Depois, uma pequena língua de fogo.
Houve uma fração de segundo de incredulidade. Em seguida todos se puseram de pé, de um salto. Aqueles que estavam mais perto da escadaria principal correram para a saída, entupindo-a, enquanto outros começavam a gritar também. Bartlett pôs-se de pé bruscamente, arrastando Casey consigo. Mata e alguns dos convidados começaram a correr para a saída entupida.