— Parem aí! — rugiu Dunross, abafando o barulho. Todos pararam. — Há tempo de sobra. Não se apressem! — ordenou. — Não há necessidade de correr, vamos com calma! Ainda não há perigo!
Sua advertência ajudou aqueles que estavam excessivamente assustados. Começaram a se afastar da saída entupida. Mas, lá embaixo, nas escadas, os gritos e a histeria tinham aumentado.
Nem todos haviam saído correndo ao primeiro grito de perigo. Gornt não se movera. Fumava o seu charuto, todos os sentidos concentrados. Havergill e a mulher tinham ido até as janelas, para olhar para fora. Outros se reuniram a eles. Podiam ver multidões cercando a entrada principal, dois tombadilhos abaixo.
— Acho que não precisamos nos preocupar, minha cara — disse Havergill. — Depois que o grosso sair, podemos segui-los calmamente.
Lady Joanna, ao lado deles, falou:
— Viu como Biltzmann saiu correndo? Que cretino! — Olhou à sua volta e viu Bartlett e Casey do outro lado da sala, esperando ao lado de Dunross. — Ora, pensei que também tivessem fugido!
Havergill falou:
— Ora, qual é, Joanna? Nem todos os ianques são covardes!
Uma súbita coluna de fogo e fumaça espessa começou a sair de dentro do aparador. Os gritos de "Depressa!" recomeçaram.
No outro lado da sala, mais perto do fogo, Bartlett disse, ansioso:
— Ian, existe outra saída?
— Não sei — retrucou Dunross. — Dê uma olhada lá fora. Eu seguro as pontas por aqui. — Bartlett saiu apressado em direção à porta de saída para o convés, e Dunross virou-se para os demais. — Não há motivo para preocupação — disse, acalmando-os e avaliando-os rapidamente. Fleur Marlowe estava pálida, mas controlada. Casey fitava, em choque, as pessoas que se comprimiam contra a saída. Orlanda estava apavorada, quase descontrolada. — Orlanda! Tudo bem — falou. — Não há perigo...
Do outro lado da sala, Gornt levantou-se e acercou-se mais da porta. Podia ver o entupimento, e sabia que as escadas lá embaixo estariam congestionadas. Gritos e alguns berros aumentavam o medo, mas Sir Charles Pennyworth estava ao lado da porta, tentando organizar a retirada pelas escadas. Mais nuvens de fumaça surgiram, e Gornt pensou: "Santo Deus, um maldito incêndio, meia centena de pessoas e uma saída". Então, notou o bar desguarnecido. Foi até lá e, aparentemente calmo, serviu-se de um uísque com soda, mas o suor escorria-lhe pelas costas.
No patamar congestionado do segundo convés, Lando Mata tropeçou e arrastou consigo um grupo inteiro, entre o qual estavam Dianne Chen e Kevin, bloqueando o único caminho de fuga. Homens e mulheres gritavam, impotentes, esmagados de encontro ao chão, enquanto outros caíam ou tropeçavam neles, numa arremetida para a segurança. Acima, na escadaria, Pugmire agarrou-se a um corrimão e conseguiu manter-se de pé, usando sua grande força para empurrar com as costas as pessoas, e impedir que mais delas caíssem. Julian Broadhurst estava ao seu lado, assustado também, mas igualmente controlado, usando sua altura e peso, juntamente com Pugmire. Os dois juntos conseguiram conter o povo momentaneamente, mas gradativa-mente o peso dos que vinham atrás venceu-os. Pugmire sentiu a mão escorregar. Dez degraus abaixo, Mata conseguiu pôr-se de pé, pisoteou algumas pessoas, no seu desespero, depois mandou-se escada abaixo, com o casaco meio arrancado do corpo. Dianne Chen também lutou bravamente para ficar de pé, arrastando Kevin consigo. Na massa humana que empurrava e lutava, não notou uma mulher que agarrou discretamente o seu pingente de brilhantes e embolsou-o, depois continuou a descer aos empurrões. As grandes nuvens de fumaça que vinham do convés inferior aumentavam a sensação de horror. Pugmire teve que soltar o corrimão. Foi empurrado contra a parede pela torrente humana, e Broadhurst falseou o pé. Começou outra pequena avalancha de gente. Agora, as escadas das duas cobertas estavam entupidas.
Wu Quatro Dedos e Vênus Poon estavam no primeiro patamar quando irrompera o grito de "Fogo!", e ele descera desabalado o último lanço e abrira caminho aos empurrões para a ponte levadiça que dava para o cais, Vênus Poon alguns passos atrás dele, apavorada. A salvo no cais, virou-se e olhou, o coração disparado, a respiração pesada. Homens e mulheres saíam aos tropeções pela porta de entrada enfeitada que dava para o molhe, algumas chamas saindo pelas vigias próximo à linha-d'água. Um policial que fazia a ronda ali por perto olhou horrorizado por um momento, depois deu no pé em busca do telefone mais próximo. Wu ainda estava tentando recobrar o fôlego quando viu Richard Kwang e a mulher saírem aos trambolhões. Começou a rir, e sentiu-se muito melhor. Vênus Poon também estava achando as pessoas muito engraçadas. Espectadores agrupavam-se em segurança, sem fazer nada para ajudar, apenas olhando. "O que é certo", pensou Wu, de passagem. "Nunca se deve interferir nas decisões dos deuses. Os deuses têm suas próprias regras, e eles decidem o destino dos humanos. Meu destino foi escapar e curtir esta prostituta esta noite. Que todos os deuses me ajudem a sustentar o meu Ferro Imperial até que ela suplique misericórdia!"
— Vamos indo, Falinha Macia — disse Quatro Dedos, com uma risadinha —, podemos deixá-los entregues ao seu destino. Estamos perdendo tempo.
— Não, Pai — disse ela, rapidamente. — A qualquer momento as câmeras de tv e a imprensa vão chegar... temos que pensar na nossa imagem, heya?
— Imagem? Vamos para a cama e a Ravína F...
— Mais tarde! — exclamou ela, imperiosamente, e ele abafou o palavrão que ia acrescentar. — Não quer ser aclamado herói? — disse vivamente. — Quem sabe até ser feito cavaleiro, como o Shitee, heya?
Rapidamente, sujou as mãos e o rosto, rasgou com cuidado uma das alças acima do seio e foi para junto da escada do costado, onde podia ver e ser vista. Quatro Dedos fitava-a, pasmado. "Uma honraria quai loh, como Shitee?", pensou, atônito. "Eeee, por que não?" Seguiu-a, prudentemente, tomando muito cuidado para não chegar perto demais do perigo.
Viram uma língua de fogo sair da chaminé do tombadilho superior, e gente assustada espiando das janelas dos três tombadilhos. Agora já havia um ajuntamento no cais. Pessoas saíam aos tropeções para a segurança, em crises histéricas, muitos tossindo por causa da fumaça, que começava a tomar conta do restaurante inteiro. Houve outro entupimento na porta de saída, alguns caíram e alguns fugiram às pressas de sob a confusão de pés, os de trás gritando para os da frente se apressarem, e novamente Quatro Dedos e outros espectadores acharam graça.
No tombadilho superior, Bartlett debruçou-se sobre a amurada e olhou para o casco e o molhe lá embaixo. Podia ver uma multidão no cais, e gente histérica se comprimindo para sair pela porta de entrada. Não havia outra escadaria, escada ou possibilidade de fuga, em qualquer dos lados. O coração dele batia com força, mas não estava com medo. "Ainda não há perigo real", pensou. "Podemos saltar na água, lá embaixo. Fácil. São... nove, doze metros... não há problema, se não se cair de barriga." Voltou correndo pelo convés que tomava metade do comprimento do barco. Fumaça negra, fagulhas e algumas chamas saíam pelas chaminés.
Abriu a porta do convés superior e fechou-a rapidamente, a fim de não criar nenhuma corrente de ar adicional. A fumaça havia aumentado, e agora as chamas que saíam do aparador eram contínuas. O cheiro de fumaça no ar era acre, e trazia consigo o cheiro de carne queimada. Quase todos estavam aglomerados junto à porta do outro extremo. Gornt estava afastado, sozinho, fitando as pessoas, e tomando um drinque. Bartlett pensou: "Meu Deus, que sangue-frio tem esse filho da mãe!" Desviou-se com cuidado do aparador, os olhos ardendo por causa da fumaça, e quase derrubou Christian Toxe, que estava dobrado sobre o telefone, berrando por sobre a barulheira: