—...estou me cagando, mande um fotógrafo para cá imediatamente, e depois chame o Corpo de Bombeiros! — Raivosamente, Toxe bateu o telefone, resmungando: — Filhos da mãe cretinos!
Depois, voltou para junto da mulher, uma chinesa matronal que o fitava inexpressivamente. Bartlett foi depressa para junto de Dunross. O tai-pan estava imóvel ao lado de Peter e Fleur Marlowe, Orlanda e Casey, soltando um assobio mudo.
— Nada, Ian — disse, calmamente, notando que sua voz soava estranha —, porra nenhuma. Nenhuma escada, nada. Mas podemos saltar com facilidade, se for preciso.
— É. Temos sorte de estar neste convés. Os outros podem não ter tanta sorte. — Dunross ficou vendo o fogo e a fumaça que brotavam do aparador perto da saída. — Em breve teremos que decidir para onde ir — falou, suavemente. — O fogo pode nos isolar do lado de fora. Se formos para fora, talvez não possamos mais voltar, e teremos que saltar. Se ficarmos aqui dentro, só nos restam as escadas.
— Meu Deus! — murmurou Casey. Estava tentando acalmar seu coração disparado e a sensação de claustrofobia que ameaçava dominá-la. Sentia a pele pegajosa, e seus olhos corriam da saída para a porta e voltavam para a saída. Bartlett enlaçou-a.
— Não tem grilo, poderemos saltar quando quisermos.
— Sim, claro, Linc.
Casey controlava-se, sombriamente.
— Sabe nadar, Casey? — quis saber Dunross.
— Sei. Eu... fiquei presa num incêndio, certa vez. Desde então, morro de medo deles. — Fora há alguns anos, quando um dos súbitos incêndios de verão tomara o caminho de sua casinha em Hollywood Hills, Los Angeles. Ela ficara presa na casa, com a estrada sinuosa do vale já queimando, lá embaixo. Ligara todos os borrifadores de água e começara a molhar o telhado da casa com a mangueira. O calor escaldante parecia querer agarrá-la. Então, o fogo se espalhara, saltando do topo de um vale para o lado oposto, alastrando-se pelos dois lados, em direção ao leito do vale, atiçado pelas rajadas de vento de cento e sessenta quilômetros por hora geradas pelo fogo. As chamas violentas destruíam árvores e casas, chegavam cada vez mais perto, e não havia para onde fugir. Apavorada, continuava a molhar o telhado com a mangueira. Gatos e cães das casas acima da sua passavam por ela, fugindo, e um pastor-alemão, apavorado, encolhera-se sob a proteção do telhado da casa. O calor, a fumaça e o terror cercaram-na. O incêndio continuou durante muito tempo, mas o fogo propriamente dito parou a cinqüenta metros dos limites da casa. Sem nenhum motivo. Acima, todas as casas à beira da estrada tinham desaparecido. A maior parte do vale, também. Uma clareira de quase oitocentos metros de largura e três quilômetros de extensão ardera durante três dias nas colinas que dividiam a cidade de Los Angeles. — Estou bem, Linc — falou, com voz trêmula.
— Eu... acho que prefiro ficar lá fora do que aqui dentro. Vamos nos mandar daqui. Uma nadadinha seria formidável.
— Eu não sei nadar!
Orlanda estava tremendo. Então, perdeu o controle e se levantou para correr para a escada. Bartlett a agarrou.
— Tudo vai dar certo. Meu Deus, nunca conseguirá sair por aquele caminho! Escute aqueles desgraçados lá embaixo, estão encrencados de verdade. Fique aqui, está bem? Pelas escadas não é boa idéia.
Ela agarrou-se a ele, petrificada.
— Tudo vai dar certo — disse Casey, compassivamente.
— É — concordou Dunross, de olho no fogo e na fumaça negra.
— Nós... bem... não estamos em má situação, não é, tai-pan? É. O fogo deve estar vindo das cozinhas. Logo o terão sob controle. Fleur, meu bem, não haverá necessidade de pular do navio — disse Marlowe.
— Não tem grilo — tranqüilizou-o Bartlett. — Há um bocado de sampanas para nos recolher!
— É, eu sei, mas ela também não sabe nadar.
Fleur pôs a mão no braço do marido.
— Sempre disse que eu devia aprender, Peter.
Dunross não prestava atenção à conversa. Estava consumido pelo medo, e tentando dominá-lo. Suas narinas estavam cheias do fedor de carne queimada que conhecia tão bem. Tinha vontade de vomitar. Estava de volta ao seu Spitfire ardente, abatido nos céus por um Messerschmitt sobre o canal da Mancha, os rochedos de Dover longe demais. Sabia que o fogo o consumiria antes que pudesse arrancar fora o teto emperrado e danificado da cabine e saltar fora, o cheiro apavorante de carne chamuscada, a sua própria, a cercá-lo. Aterrorizado, esmurrava impotente o vidro da cabine, e com o outro punho tentava afastar as chamas que cercavam seus pés e joelhos, sufocando com a fumaça acre que o cegava. Então, quando a capota se soltou, ouvira um rugido súbito e desesperado. Um inferno de chamas cercara-o, e, sem saber como, estava do lado de fora, afastando-se das chamas, sem saber se seu rosto estava destruído, a pele das mãos e dos pés, as botas e o macacão de vôo ainda fumegando. E então, a sacudidela nauseante, quando o seu pára-quedas se abriu, e depois a silhueta escura do avião inimigo vindo em sua direção, o sol às costas, e as metralhadoras em ação, e uma bala que arrancou fora parte da sua barriga da perna. Não se lembrava de mais nada, exceto do cheiro de carne queimada, o mesmo que sentia agora.
— O que acha, tai-pan?
— Como?
— Vamos ficar ou sair? — repetiu Marlowe.
— Vamos ficar, por enquanto — disse Dunross, e todos se perguntavam como podia parecer tão calmo. — Quando as escadas ficarem desimpedidas, poderemos descer. Não há necessidade de nos molharmos.
Casey lançou-lhe um sorriso hesitante.
— Esses incêndios ocorrem com freqüência?
— Aqui não, mas infelizmente ocorrem em Hong Kong. Nossos amigos chineses não ligam muito para regulamentos contra incêndios...
Fazia apenas alguns minutos que a primeira rajada violenta de fogo explodira na cozinha, mas agora o fogo a dominava completamente, e, pelo acesso do aparador, se alastrava fortemente pelas seções centrais dos três tombadilhos acima. O fogo na cozinha dividia o aposento pela metade, bloqueando o acesso à única escada existente. Vinte homens apavorados estavam presos do lado errado. O resto do pessoal há muito fugira para se reunir à massa ondulante de gente no convés superior. Havia meia dúzia de vigias, mas eram pequenas e estavam enferrujadas. Em pânico, um dos cozinheiros correu para a barreira chame-jante, berrando quando as chamas o envolveram. Quase chegou do outro lado, mas escorregou, e continuou berrando por muito tempo. Um gemido apavorado escapou da boca dos outros. Não havia outra possibilidade de fuga.
O cozinheiro-chefe também estava preso. Era um homem corpulento, e já estivera em muitos incêndios em cozinhas, portanto não entrara em pânico. Sua mente se voltava para todos os incêndios anteriores, buscando desesperadamente uma pista. Então, lembrou-se.
— Depressa — berrou —, peguem sacos de farinha de arroz... farinha... depressa!
Os outros o fitaram sem se mover, paralisados pelo terror. Então ele desceu a mão sobre alguns deles, arremessando-os para a despensa. Agarrou ele próprio um saco de vinte e dois quilos, arrancando-lhe a parte de cima.
— Fodam-se todos os incêndios! Depressa, mas esperem até eu mandar — falou, ofegante, a fumaça o sufocando e quase o cegando.
Uma das vigias se estilhaçou e a súbita corrente de ar lançou as chamas sobre eles. Aterrorizados, agarraram um saco cada um, tossindo enquanto a fumaça aumentava.
— Agora! — rugiu o cozinheiro-chefe, e jogou o saco sobre o corredor chamejante entre os fogões. O saco se rasgou e as nuvens de farinha apagaram algumas das chamas. Outros sacos seguiram o primeiro, e mais chamas foram engolidas. Outra barragem de farinha cobriu as bancadas ardentes, apagando o fogo. A passagem ficou momentaneamente livre. Imediatamente o cozinheiro-chefe liderou a investida pelas chamas restantes, e todos o seguiram, aos trambolhões, saltando sobre os dois corpos carbonizados, e chegaram às escadas do outro lado antes que as chamas voltassem a fechar a passagem. Os homens subiram desesperadamente a escada estreita e chegaram ao ar parcialmente livre do patamar, juntando-se à turba que empurrava, se atropelava, gritava e tossia, tentando passar pela fumaça negra e alcançar o ar livre.