Lágrimas corriam pela maioria dos rostos. A fumaça agora estava muito densa, nas cobertas inferiores. Então, a parede atrás do primeiro patamar, onde ficava o vão do elevador do aparador, começou a se retorcer e escurecer. Abruptamente estourou, espalhando gárgulas por toda parte, e as chamas jorraram. Os que estavam nas escadas logo abaixo começaram a empurrar para a frente, em pânico. Os que estavam no patamar procuraram recuar. Então, vendo que estavam tão perto da segurança, as primeiras fileiras lançaram-se para diante, rodeando o inferno, descendo os degraus de dois em dois. Hugh Guthrie, um dos deputados, viu uma mulher cair. Agarrou-se ao corrimão e parou para ajudá-la, mas os que vinham atrás dele derrubaram-no, e ele caiu com outros. Levantou-se, praguejando, e abriu uma clareira, com esforço, o tempo suficiente para levantar também a mulher, antes de ser engolido de novo e empurrado pelos últimos degraus até chegar em segurança à entrada.
A metade do patamar entre o convés inferior e o segundo convés ainda estava livre das chamas, embora o fogo se mantivesse firme. A multidão agora estava diminuindo, embora mais de cem pessoas ainda entupissem as portas e escadarias superiores. Os que estavam lá em cima esmurravam-se e xingavam, sem conseguir enxergar nada à frente.
— Por que estão demorando tanto, puta que o pariu...
— As escadas ainda estão impedidas... ?
— Pela madrugada, andem logo...
— Está ficando quente pra caramba, aqui...
— Que confusão desgraçada...
Grey era um dos que tinham ficado presos nas escadas do segundo convés. Podia ver as chamas brotando da parede à sua frente, e sabia que a parede próxima cederia a qualquer instante. Não conseguia decidir se devia recuar ou avançar. Então, viu uma criança encolhida nos degraus, sob o corrimão. Conseguiu tomar o garotinho nos braços, depois avançou, xingando quem estava na frente, rodeou rapidamente o fogo, e encontrou o caminho para a segurança lá embaixo ainda congestionado.
No convés superior, Gornt e os outros ouviam o pandemônio lá embaixo. Havia apenas cerca de trinta pessoas ali. Ele terminou a sua bebida, largou o copo e caminhou até o grupo que cercava Dunross. Orlanda ainda estava sentada, torcendo o lenço nas mãos, Fleur e Peter Marlowe ainda aparentavam calma, e Dunross, como sempre, mostrava-se controlado. "Ótimo", pensou, abençoando a sua própria linhagem e treinamento. Fazia parte da tradição britânica não demonstrar medo em situações de perigo, por mais apavorado que se estivesse, sob pena de ficar desprestigiado. "Além disso", lembrou a si mesmo, "quase todos nós fomos bombardeados a maior parte da vida, levamos tiros, fomos afundados, enfiados em campos de prisioneiros de guerra ou servimos nas forças armadas." A irmã de Gornt pertencera ao Corpo Feminino da Marinha Real... a mãe fora encarregada da segurança nos ataques aéreos, o pai servira ao exército, o tio morrera em Monte Cassino, e ele próprio servira com os australianos na Nova Guiné depois de fugir de Xangai, lutara para chegar à Birmânia e de lá a Cingapura.
— Ian — disse, mantendo a voz adequadamente descontraída —, parece que o fogo agora está no primeiro patamar. Sugiro uma nadadinha.
Dunross olhou para o fogo perto da porta da saída.
— Algumas das senhoras não sabem nadar. Vamos esperar mais dois minutinhos.
— Pois bem. Acho que aqueles que não se incomodam de saltar devem ir para o tombadilho. Este incêndio está mesmo muito enfadonho.
— Não estou achando nada enfadonho — disse Casey. Todos acharam graça.
— É só uma expressão — explicou Peter Marlowe. Uma explosão na primeira coberta sacudiu ligeiramente o barco. O silêncio momentâneo foi lúgubre.
Da cozinha, o fogo se alastrara para os depósitos e estava cercando os quatro tambores de cem galões de óleo restantes. O que explodira abrira um buraco imenso no chão e fizera o barco adernar. Brasas ardentes, óleo fervente e um pouco de água do mar derramavam-se nos embornais. A força da explosão rompera alguns dos grandes pedaços de madeira do casco plano de fundo, e a água se infiltrava pelas junções. Hordas de ratos surgiram buscando um meio de fuga.
Outro dos grossos tambores de metal explodiu e abriu um buraco imenso na lateral do barco, logo abaixo da linha-d'água, espalhando fogo em todas as direções. As pessoas no cais soltaram uma exclamação abafada, e algumas recuaram rapidamente, embora não houvesse perigo. Outras riram nervosamente. Mais outro tambor explodiu, e outra coluna de chamas espalhou-se por toda parte. Os suportes e as vigas do teto estavam seriamente enfraquecidos e, ensopados de óleo, começaram a arder. Acima, no primeiro convés, os pés dos fugitivos desesperados batiam neles, perigosamente.
Logo acima do primeiro patamar, Grey ainda estava com a criança no colo. Segurava o corrimão com uma das mãos, assustado, cercado por todos os lados de pessoas alucinadas. Esperou a sua vez. Depois, protegendo a criança da melhor maneira possível, rodeou as chamas no patamar e correu escada abaixo, com o caminho praticamente desimpedido. O tapete perto da soleira da porta começava a fumegar, e um homem corpulento tropeçou, com todo o chão oscilando.
— Vamos — gritou Grey desesperadamente para os que vinham atrás. Cruzou a soleira, seguido de perto pelos outros. Quando chegou à ponte levadiça, os dois últimos tambores explodiram, todo o chão por trás dele desapareceu, e ele, o menino e outros foram arremessados para a frente como se fossem palha.
Hugh Guthrie saiu do meio dos circunstantes e puxou-os para um local seguro.
— Está bem, meu velho? — exclamou, com voz abafada. Grey estava meio tonto, sem fôlego, as roupas ardendo, e Guthrie ajudou a apagar as chamas.
— É... acho que estou — disse, meio fora de si. Guthrie ergueu suavemente a criança inconsciente e olhou para ela.
— Pobre infeliz!
— Está morto?
— Acho que não. Tome... — Guthrie entregou o garotinho chinês a um dos circunstantes, e os dois homens voltaram para o portão para dar ajuda a outros que ainda estavam tontos pela explosão, e impotentes. — Deus Todo-Poderoso! — exclamou, ao ver que agora a entrada estava intransponível. Acima da barulheira, ouviram o gemido de sirenes que se aproximavam.
O fogo no convés superior, perto da saída, crescia perigosamente. Assustadas, as pessoas retornavam à sala, tossindo, forçadas a retroceder escada acima pelo fogo que agora dominava o convés inferior. Pandemônio e o fedor do medo pesavam no ar.
— Ian, é melhor a gente se arrancar — disse Bartlett.
— É. Quillan, por favor, mostre o caminho e cuide do tombadilho — falou Dunross. — Eu cuido do lado de cá.
Gornt virou-se e rugiu.
— Todo mundo por aqui! Estarão a salvo no convés... um de cada vez...
Abriu a porta e postou-se ao lado dela, tentando trazer ordem à retirada apressada... alguns chineses, o resto, na sua maioria, britânicos. Uma vez ao ar livre, todos tiveram muito menos medo e sentiram-se gratos por estar longe da fumaça.
Bartlett, esperando na sala, sentiu-se excitado, mas ainda sem medo, pois sabia que podia arrebentar quaisquer das janelas e saltar ao mar com Casey. Gente passava por ele aos tropeções. As chamas que saíam do aparador aumentaram, e ouviu-se uma explosão abafada lá embaixo.
— Como está indo, Casey?
— Tudo bem.
— Trate de sair!
— Quando você sair.
— Certo.
Bartlett sorriu para ela. A sala estava quase vazia. Ajudou Lady Joanna a atravessar a porta, depois Havergill, que mancava, e a mulher dele.
Casey viu que Orlanda ainda estava grudada à cadeira. "Pobre moça!", pensou, com pena, recordando o seu próprio terror no incêndio perto de sua casa. Foi para junto dela.