— Vamos — falou, docemente, e ajudou-a a se levantar. Os joelhos da moça tremiam. Casey enlaçou-a.
— Eu... perdi... minha bolsa — murmurou Orlanda.
— Não, ela está aqui.
Casey pegou a bolsa de cima da cadeira e continuou abraçando a moça, enquanto a empurrava para o ar livre, passando pelo fogo. O tombadilho estava lotado, mas, uma vez do lado de fora, Casey sentiu-se bem melhor.
— Está tudo bem — disse Casey, encorajadoramente. Conduziu-a à amurada. Orlanda agarrou-se a ela firmemente. Casey virou-se para procurar Bartlett, e viu que ele e Gornt a observavam da sala. Bartlett acenou para ela, que devolveu o aceno, desejando que ele também estivesse fora, ao seu lado.
Peter Marlowe acompanhou a mulher ao convés, e vieram para junto delas.
— Tudo bem, Casey?
— Claro. Como está, Fleur?
— Bem. Bem. Aqui... aqui fora está agradável, não é? — disse Fleur Marlowe, sentindo-se tonta e péssima, aterrorizada à idéia de pular daquela altura. — Acha que vai chover?
— Quanto mais cedo, melhor.
Casey olhou pela amurada. Nas águas escuras, nove metros abaixo, as sampanas começavam a se reunir. Todos os barqueiros sabiam que o pessoal lá em cima teria que saltar em breve. Da sua posição privilegiada, podiam ver que o fogo tomava conta da maior parte do primeiro e segundo tombadilhos. Algumas pessoas estavam presas ali. Então um homem arremessou uma cadeira contra uma das janelas, afastou os pedaços de vidro, pulou pelo buraco e caiu ao mar. Uma sampana veio depressa para perto dele, lançando-lhe uma corda. Outros seguiram-lhe o exemplo. Uma mulher não veio à tona.
A noite estava escura, embora as chamas iluminassem tudo por perto, lançando sombras lúgubres. A multidão no cais abriu passagem para os carros de bombeiros com as sirenes ligadas. Tão logo pararam, bombeiros chineses e oficiais britânicos puxaram as mangueiras. Outro destacamento as ligou no hidrante mais próximo e o primeiro jato d'água molhou as chamas. Ouviu-se um viva. Em segundos, seis mangueiras estavam funcionando, e dois bombeiros protegidos com roupas de amianto e equipamento respiratório preso às costas correram para a entrada e começaram a arrastar para a segurança os que estavam inconscientes. Outra imensa explosão borrifou-os com brasas candentes. Um dos bombeiros jogou água em todo mundo, depois dirigiu de novo o jato da mangueira para a entrada.
O convés superior agora estava vazio, exceto por Bartlett, Dunross e Gornt. Sentiram o chão oscilar sob seus pés, e quase caíram.
— Meu Deus — exclamou Bartlett —, vamos afundar?
— Essas explosões podem ter destruído o fundo do navio — disse Gornt, com urgência. — Vamos!
Atravessou rapidamente a porta, Bartlett atrás dele.
Agora, Dunross estava só. A fumaça era muito densa, o calor e o fedor revoltavam-lhe o estômago. Fez um esforço consciente para não fugir, dominando o seu terror. Teve um pensamento repentino e voltou correndo até a porta da escadaria principal, para certificar-se de que não havia ninguém ali. Então viu a figura inerte de um homem na escada. Havia chamas por toda parte. Sentiu o medo acometê-lo outra vez, mas dominou-o novamente. Adiantou-se, célere, e começou a arrastar o homem escada acima. O chinês era pesado, e ele não sabia se o homem estava vivo ou morto. O calor era abrasador, e novamente ele sentiu cheiro de carne queimando; sentiu o gosto da bile na boca. E então Bartlett estava ao seu lado, e os dois juntos arrastaram o homem pelo salão, até o convés.
— Obrigado — falou Dunross, com voz ofegante.
Quillan Gornt veio para junto deles, inclinou-se e virou o homem de barriga para cima. O rosto estava parcialmente queimado.
— Podia ter-se poupado o heroísmo. Está morto.
— Quem é? — perguntou Bartlett. Gornt deu de ombros.
— Não sei. Você o conhece, Ian?
Dunross fitava o cadáver.
— Conheço. É o Zep... Tung Zeppelin.
— O filho do Pão-Duro? — Gornt ficou surpreso. — Meu Deus, como engordou! Jamais o teria reconhecido. — Ficou de pé. — É melhor preparar todo mundo para saltar. Este barco é um cemitério. — Viu Casey de pé junto da amurada. — Está bem? — perguntou, acercando-se dela.
— Estou, obrigada. E você?
— Ah, estou.
Orlanda ainda estava ao lado dela, fitando desamparada as águas lá embaixo. O pessoal começava a se acotovelar no convés.
— É melhor eu ir ajudá-los a se organizarem — falou Gornt. — Volto num segundo.
Afastou-se.
Nova explosão sacudiu o barco, que começou a adernar cada vez mais. Várias pessoas subiram na amurada e saltaram. Sampanas foram recolhê-las.
Christian Toxe abraçava sua mulher chinesa, fitando as águas com azedume.
— Vai ter que pular, Christian — disse Dunross.
— Para dentro do porto de Aberdeen? Deve estar me gozando, meu velho. Se a gente não ricochetear nos eflúvios, sem dúvida vai pegar a peste!
— Ou isso, ou um rabo em fogo! — exclamou alguém rindo.
Na extremidade do convés, Sir Charles Pennyworth segurava-se à amurada, enquanto percorria o barco, encorajando todo mundo.
— Vamos, mocinha — dizia para Orlanda. — É um salto fácil.
Ela sacudia a cabeça, apavorada.
— Não... ainda não... não sei nadar.
Fleur Marlowe abraçou-a.
— Não se preocupe, também não sei nadar. Também vou ficar.
Bartlett disse:
— Peter, segure a mão dela, tudo vai dar certo. Só o que tem a fazer, Fleur, é prender a respiração.
— Ela não vai pular — disse Marlowe, suavemente. — Pelo menos, não até o último segundo.
— É seguro.
— É, mas não para ela. Está enceinte.
— Como?
— Fleur está esperando bebê. De três meses.
— Ah, meu Deus.
Chamas saíram rugindo de um dos fumeiros, em direção aos céus. Dentro do convés superior as mesas do restaurante ardiam, assim como os grandes biombos entalhados dos fundos da sala. Houve uma grande rajada de fagulhas quando a escadaria interna central desabou.
— Meu Deus, este barco todo é um perigo, em caso de incêndio. E quanto ao pessoal lá embaixo? — perguntou Casey.
— Já saíram faz um tempão — disse Dunross, sem acreditar. Agora que estava ao ar livre, sentia-se ótimo. O modo como conseguira dominar o medo deixara-o delirante. — A vista daqui é esplêndida, não acham?
Pennyworth falou, jovialmente:
— Estamos com sorte. O navio está adernando para este lado, assim, quando afundar, estaremos bem seguros. A não ser que emborque. Como nos velhos tempos — acrescentou. — Afundei três vezes no Mediterrâneo.
— Eu também — falou Marlowe —, mas foi no estreito de Bangka, perto de Sumatra.
— Não sabia disso, Peter — disse Fleur.
— Não foi nada.
— Qual é a profundidade da água, aqui? — quis saber Bartlett.
— Uns seis metros, ou mais — disse Dunross.
— Será o sufi...
Ouviu-se o cantar das sirenes quando a lancha da polícia veio chegando, passando pelas veredas estreitas entre as ilhas de barcos, o holofote iluminando aqui e ali. Quando estava quase ao lado do Dragão Flutuante, o megafone soou bem alto, primeiro em chinês:
— Todas as sampanas, desimpeçam a área, desimpeçam a área... — Depois, em inglês: — Todos os que estão no convés superior, preparem-se para abandonar o navio! O casco está furado, preparem-se para abandonar o navio!
Christian Toxe resmungou com azedume, falando sozinho:
— Pois sim que vou estragar o meu único smoking. A mulher dele puxou-lhe o braço.
— Você jamais gostou dele, mesmo, Chris.
— Mas agora gosto, querida. — Tentou sorrir. — Você também não sabe nadar, porra.
Ela deu de ombros.
— Aposto cinqüenta dólares como eu e você vamos nadar tão bem como uma enguia.
— Sra. Toxe, aposta fechada. Mas é apropriado que saltemos por último. Afinal quero um testemunho ocular.