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Meteu a mão no bolso e pegou os cigarros. Deu um para ela, tentando sentir-se corajoso, temendo pela segurança dela. Procurou um fósforo, não achou. Ela meteu a mão na bolsa e mexeu aqui e ali. Acabou encontrando o isqueiro. Ele acendeu na terceira tentativa. Ambos estavam indiferentes às chamas três metros às suas costas.

Dunross disse:

— Você fuma demais, Christian.

O convés girou nauseantemente. O barco começou a afundar. A água jorrava pelo grande buraco no costado. Os bombeiros usavam as mangueiras com grande bravura, mas elas surtiam pouco efeito contra o fogo. Um murmúrio varreu a multidão quando o barco inteiro estremeceu. Dois cabos de amarração se partiram.

Pennyworth apoiava-se contra a amurada, ajudando os outros a saltar em segurança. Muitos estavam saltando, agora. Lady Joanna caiu, desajeitadamente. Paul Havergill ajudou a mulher a saltar. Quando viu que ela vinha à tona, pulou também. Da lancha da polícia ouviam-se ainda berros em cantonense, ordenando que desimpedissem a área. Marinheiros jogavam ao mar coletes salva-vidas, enquanto outros lançavam ao mar um escaler. A seguir, comandados por um jovem inspetor naval, meia dúzia de marujos mergulharam para ajudar os homens, mulheres e crianças em dificuldades. Uma sampana veio ajudar Lady Joanna, Havergill e a mulher. Agradecidos, eles subiram na embarcação desconjuntada. Outros do convés superior saltaram para dentro d'água.

O Dragão Flutuante adernava perigosamente. Alguém escorregou no convés superior e desequilibrou Pennyworth. Ele oscilou, antes de poder se reequilibrar, e caiu de costas feito uma pedra. Bateu com a cabeça na popa da sampana, partindo o pescoço. Deslizou para dentro d'água e afundou. No pandemônio, ninguém notou.

Casey segurava-se à amurada com Bartlett, Dunross, Gornt, Orlanda e os Marlowes. Próximo a eles, Toxe soltava baforadas do cigarro, tentando criar coragem. A mulher dele apagou o seu cigarro com cuidado. Chamas brotavam de dentro dos respiradouros, das clarabóias e da porta de saída. O navio encalhou pesadamente e balançou-se bruscamente quando outro dos cabos de amarração se partiu. Gornt soltou-se da grade e bateu de cabeça na amurada, ficando tonto. Toxe e a mulher se desequilibraram e caíram ao mar, desajeitadamente. Peter Marlowe conseguiu ficar agarrado à mulher, evitando que fosse esmagada de encontro a um antepara, enquanto Bartlett e Casey passaram por eles, aos trambolhões, e caíram, amontoados, junto da ba-laustrada, com Bartlett a protegê-la como podia, os saltos altos dos sapatos dela oferecendo perigo.

Lá embaixo, na água, os marinheiros ajudavam as pessoas a subir para o barco de resgate. Um deles viu Toxe e a mulher subirem à superfície por um instante, a quinze metros de distância, ofegantes, cuspindo água, antes de sufocarem e, espadanando água, voltarem a afundar. Imediatamente, mergulhou atrás deles, e, depois do que parecia ser uma eternidade, agarrou a mulher pelas roupas e empurrou-a, semi-afogada, para a superfície. O jovem tenente nadou para onde vira Toxe e mergulhou, mas não o achou na escuridão. Subiu para tomar ar e mergulhou de novo na escuridão, tateando, desesperado. Quando seus pulmões estavam quase estourando, seus dedos estendidos encontraram uma peça de roupa, e ele agarrou-a e subiu violentamente para a superfície. Toxe agarrava-se a ele, em pânico, com ânsias de vômito devido a toda a água que engolira. O rapaz soltou-se de Toxe, virou-o de barriga para cima e o foi puxando até o escaler.

Acima deles, o barco inclinava-se perigosamente, e Dunross levantou-se. Viu Gornt largado, inerte, e foi tropeçando para perto dele. Tentou levantá-lo, mas não conseguiu.

— Eu... estou bem — disse Gornt, ofegante, voltando a si, e sacudindo a cabeça, como um cachorro. — Puxa, obrigado... — Ergueu os olhos, viu que era Dunross. — Obrigado — falou, sorrindo amargamente, enquanto se levantava, trêmulo. — Ainda vou vender amanhã, e na semana que vem você estará acabado.

Dunross riu.

— Pois boa sorte! A idéia de morrer queimado ou me afogar com você me enche de igual desalento.

A dez metros dali, Bartlett estava levantando Casey. O ângulo do convés agora estava péssimo, o fogo cada vez mais forte.

— Esta banheira velha pode emborcar a qualquer segundo.

— E quanto a elas? — perguntou Casey suavemente, indicando Fleur e Orlanda.

Ele pensou por um segundo, depois disse, decisivamente:

— Salte primeiro, espere lá embaixo!

— Já saquei!

Prontamente, entregou-lhe a sua bolsinha. Ele a enfiou num dos bolsos e se afastou, enquanto ela chutava fora os sapatos, corria o zíper do vestido longo e saía de dentro dele. Imediatamente improvisou uma corda com a seda leve, amarrou-a na cintura, subiu na amurada, ficou parada na beirada por um momento, verificou cuidadosamente o seu ponto de impacto e saltou num mergulho perfeito. Gornt e Dunross observaram o seu megulho, o perigo imediato esquecido.

Bartlett agora estava ao lado de Orlanda. Viu Casey subir à tona com perfeição, e antes que Orlanda pudesse fazer alguma coisa, pegou-a no colo, passou-a por sobre a amurada e disse:

— Prenda a respiração, meu bem.

Largou-a cuidadosamente. Todos observaram sua queda. Caiu de pé, a alguns metros de distância de Casey, que já previra o local e nadara por baixo d'água. Pegou Orlanda com facilidade, subiu à tona, e Orlanda estava respirando quase antes de se dar conta de que saíra do tombadilho. Casey segurou-a com firmeza e nadou rapidamente em direção ao escaler, com controle perfeito.

Gornt e Dunross deram vivas entusiasmados. O barco balançou bruscamente de novo, e eles quase caíram, enquanto Bartlett ia aos tropeções para junto dos Marlowes.

— Peter, sabe nadar bem? — perguntou Bartlett.

— Regularmente.

— Confia em mim para cuidar dela? Fui salva-vidas, vagabundo de praia durante anos.

Antes que Marlowe pudesse dizer não, Bartlett tomou Fleur no colo, saltou por cima da grade e ficou parado por um segundo na beira da amurada.

— Prenda a respiração!

Ela enlaçou-lhe o pescoço com um braço e apertou o nariz, depois ele saltou no espaço, com Fleur aninhada em segurança nos seus braços. Mergulhou cuidadosamente no mar, protegendo-a do choque com o seu corpo, depois subiu suavemente à superfície. A cabeça dela ficou sob a água por poucos segundos, e nem estava cuspindo água, embora tivesse o coração disparado. Dali a segundos estava no escaler. Ficou agarrada no lado do escaler, e ambos olharam para trás.

Quando Peter Marlowe viu que ela estava em segurança, seu coração recomeçou a bater.

— Ah, que bom! — murmurou.

— Viu Casey mergulhar? — perguntou Dunross. — Fantástica!

— O quê? Ah, não, tai-pan.

— Só de sutiã e calcinhas com meias e nada de ligas, um mergulho de sonho. Puxa, e que corpo!

— Ah, são meias-calças — disse Marlowe, distraído, olhando para as águas lá embaixo, tomando coragem. — Acabam de ser lançadas nos Estados Unidos, estão fazendo sucesso...

Dunross mal ouvia.

— Puta que o pariu, que corpo!

— É — ecoou Gornt. — E que cojones!

O barco guinchou quando se partiu o último cabo de amarração. O convés tombou para a frente de modo nauseante.

Como se fossem um só, os três homens saltaram ao mar. Dunross e Gornt mergulharam, Peter Marlowe pulou. Os mergulhos foram bonitos, mas ambos sabiam que não se igualavam ao de Casey.

38

23h30m

Do outro lado da ilha, o velho táxi subia com esforço a rua estreita lá no alto do West Point, em Mid Leveis, com Suslev esparramado no banco traseiro, cheio de bebida. A noite estava escura, e ele cantava uma triste balada russa para o motorista suado, com a gravata torta, sem casaco, a camisa molhada de suor. As nuvens que cobriam o céu estavam mais espessas e baixas. A umidade estava pior, o ar, abafado.

— Matieriebiets! — resmungou, xingando o calor, depois sorriu, satisfeito com a obscenidade proferida. Olhou pela janela. As luzes da cidade e do porto lá embaixo estavam embaçadas por tufos de nuvens, Kowloon em grande parte obscurecida. — Vai chover logo, camarada — disse para o motorista, num inglês engrolado, sem se importar se o homem entendera ou não.