O táxi muito velho chiava. O motor tossiu de repente, e isso o fez lembrar-se da tosse de Arthur, e do seu próximo encontro. Sua excitação aumentou.
O táxi o pegara no Terminal da Balsa Dourada, depois subira para Mid Leveis, no Pico, virará para o oeste, rodeando o Palácio do Governo, onde morava o governador, e o Jardim Botânico. Ao passar pelo palácio, Suslev se perguntara, distraidamente, quando a bandeira da foice e do martelo tremularia no mastro de bandeira vazio. Brevemente, pensara, satisfeito. Com a ajuda de Arthur e da Sevrín... muito brevemente. Só mais alguns anos.
Olhou para o relógio de pulso. Chegaria um pouco atrasado, mas aquilo não o preocupava. Arthur estava sempre atrasado, nunca menos de dez minutos, nunca mais de vinte. "É perigoso ser um homem metódico na nossa profissão", pensou. "Mas, perigoso ou não, Arthur é de imenso valor para nós, e a Sevrin, criação dele, um instrumento brilhante e vital no armamento do nosso KGB, enterrado bem fundo, esperando pacientemente, como todas as outras Sevrins espalhadas pelo mundo.
Apenas noventa e tantos mil oficiais do KGB, como eu, e no entanto quase dominamos o mundo. Já o modificamos, já o modificamos permanentemente, já possuímos metade dele... e em tão pouco tempo, desde 1917.
"Tão poucos de nós, tantos deles. Mas agora nossos tentáculos se estendem para todo e qualquer canto. Nossos exércitos de colaboradores... informantes, idiotas, parasitas, traidores, os inocentes úteis, e os crentes deformados que deliberadamente recrutamos em todos os países, alimentando-se uns dos outros como vermes que realmente são, impulsionados pelos próprios desejos e temores egoístas, todos sacrificados, mais cedo ou mais tarde. E em toda parte um de nós, um da elite, os oficiais do KGB, no centro de cada teia, controlando, orientando, eliminando. Teias dentro de teias, até chegar ao Presidium de todos os sovietes, agora tão intimamente entrelaçadas no sistema da Mãe Rússia, a ponto de serem indestrutíveis. Nós somos a Rússia moderna", pensou, com orgulho. "Somos a ponta de lança de Lênin. Sem nós, nossas técnicas e nosso uso orquestrado do terror, não haveria a Rússia soviética, nem o império soviético, nem a força propulsora para manter os todo-poderosos do partido... e em lugar algum do mundo haveria um Estado comunista. É, somos a elite."
Seu sorriso aumentou.
Embora as janelas estivessem abertas, estava quente e abafado dentro do táxi, que serpenteava por aquela área residencial com as suas filas de grandes blocos de apartamentos sem jardins, erguidos sobre pequenos caminhos abertos nas montanhas. Uma gota de suor escorreu pelo seu queixo, e ele a enxugou, sentindo o corpo todo pegajoso.
"Adoraria tomar um banho de chuveiro", pensou, deixando o pensamento vagar. "Um banho com água fresca e doce da Geórgia, não este lixo salino que corre pelos encanamentos de Hong Kong. Adoraria estar na dacha perto de Tiflis, ah, seria formidável! É, de novo na dacha, com papai e mamãe, nadaria no riacho que corre pelas nossas terras, e depois me secaria ao sol, com um bom vinho da Geórgia conservado a uma temperatura fresca, dentro do riacho, e as montanhas bem próximas. Lá é o paraíso, se é que existe um paraíso. Montanhas e pastos, uvas e colheitas, e o ar tão puro!"
Deu uma risadinha ao se lembrar das histórias que inventara sobre seu passado para Travkin. Aquele parasita! Apenas mais um idiota, mais outro instrumento a ser usado e, depois, descartado.
O pai dele fora comunista desde os primeiros dias... primeiro na Tcheka, secretamente, e depois, desde o seu início, em 1917, no KGB. Agora com setenta e muitos anos, ainda alto e ereto, reformado honradamente, vivia como um príncipe à antiga, com criados, cavalos e guarda-costas. Suslev tinha certeza de poder herdar a mesma dacha, a mesma terra, a mesma honra, no seu devido tempo. O mesmo aconteceria com seu filho, ainda um principiante no KGB, se o seu serviço continuasse a ser excelente. Seu próprio trabalho merecia a honraria, sua folha de serviços era impressionante, e tinha apenas cinqüenta e dois anos.
"É", pensou com seus botões, Confiantemente, "daqui a treze anos devo me reformar. Mais treze anos formidáveis, ajudando o ataque a ir para a frente, nunca fraquejando, faça o inimigo o que fizer.
"E quem é o inimigo, o verdadeiro inimigo?
"Todos aqueles que nos desobedecem, todos aqueles que recusam a nossa superioridade... especialmente os russos."
Riu alto.
O jovem e cansado motorista, de fisionomia azeda, deu uma olhada rápida pelo espelho retrovisor, depois voltou a se concentrar na direção, esperando que o passageiro estivesse bêbado o bastante para ler errado o que marcava o taxímetro e dar-lhe uma bela gorjeta. Parou diante do endereço que lhe haviam dado.
Rose Court, na Kotewall Road, era um prédio de apartamentos modernos de catorze andares. Tinha três andares subterrâneos de garagens, era cercado por uma pequena faixa de concreto, e, abaixo desta, descendo um leve aterro de concreto, ficavam a Sinclair Road e o Sinclair Towers, e mais prédios de apartamentos que se aninhavam na encosta da montanha. Era uma zona privilegiada para se morar. A vista era espetacular. Os apartamentos ficavam abaixo das nuvens que freqüentemente envolviam as partes mais altas do Pico, onde as paredes suavam, as roupas de cama e mesa mofavam, e tudo parecia estar perpetuamente úmido.
O taxímetro marcava oito HK e setenta cents. Suslev olhou para um maço de notas, deu ao motorista uma de cem, ao invés de uma de dez, e saiu do carro pesadamente. Uma chinesa estava se abanando, impaciente. Ele saiu aos tropeções em direção ao porteiro eletrônico do prédio. A mulher disse ao motorista para esperar pelo marido, e ficou olhando a figura de Suslev, enojada.
Ele cambaleava. Achou o botão que queria e apertou-o: Sr. Ernest Clinker, zelador. — Pronto?
— Ernie, sou eu, Grigóri — falou, enrolando a língua e soltando um arroto. — Está em casa?
A voz com sotaque cockney achou graça.
— De jeito nenhum! Ora, claro que estou, meu chapa! Está atrasado! Parece que andou correndo os bares! Tenho cerveja, tenho vodca, e eu e Mabel estamos aqui para recebê-lo!
Suslev dirigiu-se ao elevador. Apertou o botão de descida. No subsolo, saltou na garagem aberta e dirigiu-se para o outro extremo. A porta do apartamento já estava aberta, e um homenzinho feio e rosado na casa dos sessenta anos estendia-lhe a mão.
— Puta que o pariu — disse Clinker, com um amplo sorriso que deixava ver uma dentadura postiça barata —, está meio de porre, hem?
Suslev deu-lhe um forte abraço, que foi retribuído, e os dois entraram.
O apartamento constava de dois minúsculos dormitórios, sala, cozinha e banheiro. Os aposentos eram modestamente mobiliados, mas agradáveis, e o único luxo visível era um pequeno gravador que tocava ópera a todo o volume.
— Cerveja ou vodca?
Suslev abriu um sorriso e arrotou.
— Primeiro uma mijada, depois vodca, depois... depois outra... e depois... cama.
Soltou um imenso arroto, dirigindo-se para o banheiro.
— É isso aí, comandante, meu chapa! Ei, Mabel, diga alô para o comandante! — A velha cadela buldogue, sonolenta, deitada no seu tapetinho muito mastigado, abriu um dos olhos brevemente, latiu uma vez, e quase instantaneamente dormiu ruidosamente de novo. Clinker abriu um sorriso, foi até a mesa e serviu uma dose forte de vodca e um copo d'água. Nada de gelo. Ele tomou um pouco de cerveja, depois perguntou: — Quanto tempo vai ficar, Grigóri?
— Só esta noite, tovârich¹. Talvez amanhã à noite. Amanhã... amanhã tenho que estar de novo a bordo. Mas amanhã à noite... quem sabe, hem?
¹ "Camarada." Em russo no original. (N. do E.)
— E quanto a Ginny? Botou você para fora de novo... ? No furgão comum estacionado na rua, Roger Crosse, Brian