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Kwok e o técnico da polícia ouviam a conversa através de um alto-falante, graças à boa qualidade do microfone escondido, com um pouco de estática, o furgão lotado de equipamentos de vigilância por rádio. Ouviram Clinker dar uma risadinha e dizer de novo:

— Ela botou você para fora, não foi?

— Todo começo de noite a gente fuque-fuque, e ela... ela diz: "Vá ficar com o Ernie e me deixe dormir!"

— Ô seu sacana de sorte! Aquela é uma princesa. Traga-a para cá amanhã.

— Trago... trago, sim. É, ela é o máximo. Ouviram Suslev derramar um balde d'água na privada e voltar.

— Tome, amigão!

— Obrigado. — O barulho de quem bebia sofregamente. — Acho... acho que quero me deitar por... me deitar. Alguns minutos...

— Algumas horas, aposto! Não se incomode, eu preparo o desjejum. Tome, quer outra bebida?...

Os policiais no furgão prestavam cuidadosa atenção à conversa. Crosse mandara que a escuta fosse colocada no apartamento de Clinker há dois anos. Periodicamente, ele era controlado, e sempre quando Suslev estava presente. Suslev, sempre sob vigilância frouxa, conhecera Clinker num bar. Os dois homens eram marujos de submarino, e haviam feito amizade. Clinker o convidara para ficar em sua casa, e de quando em vez Suslev aceitava o convite. Imediatamente, Crosse ordenara uma verificação de segurança na pessoa de Clinker, mas ela nada revelara de incomum. Durante vinte anos Clinker fora marujo na Marinha Real. Depois da guerra, pulara de serviço em serviço na marinha mercante, através de toda a Ásia até Hong Kong, onde se radicara ao se reformar. Era um homem quieto e tranqüilo, que vivia sozinho, e já há cinco anos era o zelador do Rose Court. Suslev e Clinker formavam um belo par: bebiam muito, farreavam muito e contavam histórias um ao outro. Nenhuma das suas horas de conversa produzira coisa alguma considerada valiosa.

— Ele está de porre, como de costume, Brian — disse Crosse.

— Sim, senhor — respondeu Brian Kwok, entediado, mas procurando não demonstrar.

Na pequena sala de estar, Clinker ofereceu o ombro a Suslev.

— Vamos, está na hora da caminha.

Passou por cima do copo no chão e ajudou Suslev a entrar no pequeno dormitório. Suslev largou-se pesadamente na cama e soltou um suspiro.

Clinker fechou as cortinas, depois foi até outro pequeno gravador e ligou-o. Daí a um momento, a fita começou a emitir sons de respiração pesada e roncos. Suslev levantou-se sem fazer barulho, sem sinal da falsa bebedeira. Clinker já estava de quatro no chão. Afastou um capacho e abriu o alçapão. Suslev desceu por ele sem fazer ruído. Clinker abriu um sorriso, deu-lhe uma palmadinha nas costas e fechou a porta bem-lubrificada do alçapão atrás dele. Os degraus do alçapão levavam a um túnel tosco que rapidamente se ligava à galeria subterrânea do escoamento pluvial, grande e seca. Suslev foi seguindo cuidadosamente, utilizando-se da lanterna elétrica que ficava num suporte na base dos degraus. Dali a um momento, ouviu um carro passar pela Sinclair Road, bem acima da sua cabeça. Mais alguns degraus, e estavam embaixo do Sinclair Towers. Outro alçapão ia dar num armário de material de limpeza, que se abria para uma escada fora de uso. Começou a subir.

Roger Crosse ainda escutava a respiração pesada, misturada com ópera. O furgão era apertado e abafado, suas camisas estavam suadas. Crosse fumava.

— Parece que apagou pelo resto da noite — disse. Podiam ouvir Clinker cantarolando, e seus movimentos enquanto limpava o copo quebrado. Uma luz vermelha no painel de rádio começou a piscar. O operador ligou o transmissor.

— Radiopatrulha 1423, pronto?

— Quartel-general para o superintendente Crosse, urgente.

— Aqui fala Crosse.

— Gabinete de serviço, senhor. Acaba de chegar uma informação de que o navio-restaurante Dragão Flutuante está pegando fogo... — Brian Kwok soltou uma exclamação abafada — Os carros de bombeiros já estão lá, e o guarda disse que pelo menos vinte pessoas podem estar mortas ou afogadas. Parece que o fogo começou na cozinha. Houve diversas explosões. Arrebentaram a maior parte do casco e... Um momento, senhor, está chegando nova informação da marinha.

Esperaram. Brian Kwok rompeu o silêncio.

— Dunross?

— A festa era no convés superior? — perguntou Crosse.

— Sim, senhor.

— Ele é esperto demais para morrer queimado... ou afogado — disse Crosse, suavemente. — O incêndio foi acidental, ou deliberado?

Brian Kwok não respondeu.

A voz do QG entrou no ar de novo.

— A marinha informa que o barco emborcou. Dizem que foi um desastre e tanto, e que parece que algumas pessoas ficaram presas sob o barco.

— O nosso agente estava com o nosso VIP?

— Não, senhor, estava esperando no cais, perto do carro. Não deu tempo de chegar até ele.

— E quanto às pessoas que ficaram presas no convés superior?

— Um momentinho, vou perguntar... Novo silêncio. Brian Kwok enxugava o suor.

—...dizem que vinte ou trinta saltaram lá de cima, senhor. Infelizmente, a maioria abandonou o navio um pouco tarde, logo antes de o barco emborcar. A marinha não sabe dizer quantos ficaram presos sob o barco.

— Fique a postos. — Crosse pensou por um momento. Depois falou novamente ao microfone: — Vou mandar o superintendente Kwok para lá imediatamente neste veículo. Mande uma equipe de homens-rãs ir encontrar-se com ele. Peça à marinha para dar ajuda, Prioridade Um. Estarei em casa, se precisarem de mim. — Desligou o microfone. Depois, virando-se para Brian Kwok: — Vou a pé até minha casa. Ligue para mim no momento em que souber algo sobre Dunross. Se estiver morto, iremos aos cofres do banco imediatamente, e para o diabo as conseqüências. Vá o mais depressa que puder!

Saltou. O furgão saiu montanha acima. Aberdeen ficava acima da crista das montanhas, e para o sul. Lançou um rápido olhar para o Rose Court, depois para o outro lado da rua, para o Sinclair Towers, mais abaixo. Um das suas equipes ainda vigiava a entrada, esperando pacientemente pela volta de Tsu-yan. Onde estaria aquele filho da mãe?, perguntou-se, irritado.

Muito preocupado, começou a descer a colina. Gotas de chuva começaram a molhá-lo. Apressou o passo.

Suslev tirou uma cerveja geladíssima da geladeira moderna e abriu-a. Bebeu, agradecido. O apartamento 32 do Sinclair Towers era espaçoso, luxuoso, limpo e bem-mobiliado, com três dormitórios e uma grande sala. Ficava no décimo primeiro andar. Cada andar tinha três apartamentos, dois elevadores apertados e uma escadinha estreita. O Sr. e sra. John Chen eram os donos do 31. O 33 pertencia a um Sr. K. V. Lee. Arthur contara a Suslev que K. V. Lee era um nome falso sob o qual se escondia Ian Dunross, que, seguindo os passos dos seus antepassados, tinha acesso exclusivo a três ou quatro apartamentos particulares espalhados pela colônia.

Suslev jamais conhecera pessoalmente John Chen ou Dunross, embora os tivesse visto nas corridas, e em outros lugares, muitas vezes.

"Se tivermos que entrevistar o tai-pan, o que poderia ser mais conveniente?", perguntou-se, sombriamente. "E com o Travkin como isca alternativa..."

Uma rajada súbita de vento fustigou as cortinas corridas sobre as janelas abertas, e ele ouviu o barulho da chuva. Fechou as janelas com cuidado, e olhou para fora. Gotas grossas manchavam as vidraças. As ruas e os telhados já estavam molhados. Um raio cruzou os céus. O barulho da trovoada o acompanhou. A temperatura já baixara alguns graus. "Será um bom temporal", falou com seus botões, agradecido, satisfeito por não estar no apartamento minúsculo e modesto de Ginny Fu, no quinto andar de um prédio sem elevador, em Mong Kok, e igualmente contente por não estar na casa de Clinker.

Fora Arthur quem arranjara tudo: Clinker, Ginny Fu, aquele local seguro, o túnel que ele certamente imitaria em Vladivostok. Clinker era um marujo de submarino e um cockney e tudo o mais que se supunha que fosse, exceto que sempre detestara a classe dos oficiais. Arthur contara que fora fácil subverter Clinker para a causa deles, usando as desconfianças, os ódios e a simulação naturais do sujeito.