— O Ernie Feio sabe muito pouco a seu respeito, Grigóri, apenas que é russo, naturalmente, e comandante do Ivãnov. Quanto ao túnel, contei-lhe que você está tendo um caso com uma mulher casada no Sinclair Towers, a mulher de um dos tai-pans. Contei-lhe que os roncos gravados e o sigilo são necessários porque os peelers nojentos estão atrás de você, entraram no apartamento dele e ocultaram escutas.
— Peelers?
— Policial, em cockney. Vem de Sir Robert Peel, primeiro-ministro da Inglaterra, que fundou a primeira força policial. Os cockneys sempre odiaram os peelers, e o Ernie Feio ficaria encantado em passar-lhes a perna. Basta você ser pró-Marinha Real, e ele será seu cão fiel até a morte...
Suslev sorriu. "Clinker não é um mau sujeito", pensou, "só um chato."
Sorveu sua cerveja enquanto voltava para a sala. O jornal da tarde estava ali. Era a edição extra do Guardian, com as manchetes a berrar turba assassina flor Fragrante, e uma boa foto do levante. Sentou-se numa poltrona e leu rapidamente.
Então, seus ouvidos aguçados ouviram o elevador parar. Foi até a mesa que ficava junto da porta e tirou de baixo dela a automática carregada com silenciador. Pôs a arma no bolso e foi espiar pelo olho mágico.
A campainha soou, abafada. Ele abriu a porta e sorriu.
— Entre, velho amigo. — Abraçou Jacques de Ville carinhosamente. — Faz muito tempo.
— É, faz sim, camarada — respondeu De Ville com igual carinho. A última vez que vira Suslev fora em Cingapura, há cinco anos, num encontro secreto arranjado por Arthur, pouco depois de De Ville ter sido induzido a entrar para a Sevrin. Ele e Suslev se haviam encontrado pela primeira vez, da mesma maneira sigilosa, no grande porto de Lyon, na França, em junho de 1941, poucos dias antes de a Alemanha nazista invadir a Rússia soviética, quando os dois países ainda eram aliados, aparentemente. Naquela época, De Ville fazia parte dos maquis, e Suslev era o segundo em comando e comissário do povo secreto de um submarino soviético que estava ostensivamente no porto para reparos depois de uma patrulha no Atlântico. Foi então que perguntaram a De Ville se ele queria continuar com a guerra real, a guerra contra o inimigo capitalista, como agente secreto, depois que os fascistas tivessem sido destruídos.
Ele concordara de todo o coração.
Fora fácil para Suslev subvertê-lo. Devido à grande utilidade que De Ville poderia ter depois da guerra, o KGB o atraiçoara secretamente para a Gestapo, depois o salvara da morte numa prisão da Gestapo, através de guerrilheiros comunistas. Os guerrilheiros tinham-lhe mostrado provas falsas de que fora traído por um dos seus próprios homens, por dinheiro. De Ville tinha trinta e dois anos na época, e, como muitos, estava encantado com o socialismo e com algumas idéias de Marx e Lênin. Nunca havia ingressado no Partido Comunista francês, mas agora, graças à Sevrin, era um capitão honorário da Força de Segurança Soviética do KGB.
— Parece cansado, Frederick — disse Suslev, usando o codinome de De Ville. — Conte-me o que há de errado.
— Apenas um problema de família.
— Conte-me.
Suslev escutou atentamente a triste história sobre o genro e a filha de De Ville. Desde o seu encontro em 1941, Suslev era o controlador de De Ville. Em 1947, ordenara que ele viesse para Hong Kong, para ingressar na Struan. Antes da guerra, De Ville e o pai possuíam um negócio muito bem-sucedido de importação e exportação, com laços estreitos com a Struan — além dos laços de família —, portanto a mudança fora fácil e bem-vinda. A missão secreta de De Ville era tornar-se um membro da assembléia interna e, no futuro, tai-pan.
— Onde está sua filha, agora? — perguntou, compassivo. De Ville contou-lhe.
— E o motorista do outro carro? — Suslev guardou de cor o nome e o endereço. — Providenciarei para que cuidem dele.
— Não — disse De Ville, prontamente. — Foi... foi um acidente. Não podemos punir um homem por um acidente.
— Ele estava bêbado. Não há desculpa para quem dirige bêbado. De qualquer modo, você é importante para nós. Cuidamos da nossa gente. Eu darei um jeito no homem.
De Ville sabia que não adiantava discutir. Uma rajada de vento e chuva bateu nas vidraças.
— Merde, mas que chuva boa! A temperatura deve ter baixado uns cinco graus. Será que vai durar?
— Dizem que a frente do temporal é grande.
De Ville ficou olhando as gotas d'água que escorriam pela vidraça, imaginando por que fora chamado.
— Que tal as coisas com você?
— Muito bem. Quer uma bebida? — Suslev caminhou até o bar espelhado. — Tenho boa vodca.
— Vodca está ótimo, obrigado. Mas uma dose pequena.
— Se Dunross se aposentasse, você seria o próximo tai-pan?
— Acho que a escolha ficaria entre quatro de nós: Gavallan, David MacStruan, eu e Linbar Struan.
— Nessa ordem?
— Não sei. Exceto que Linbar provavelmente é o último. Obrigado. — De Ville aceitou a bebida. Brindaram um ao outro. — Apostaria no Gavallan.
— Quem é esse MacStruan?
— Um primo afastado. Trabalhou seus cinco anos como mercador da China. No momento está chefiando a nossa expansão no Canadá... estamos tentando diversificar, e comerciar com fibras de madeira, cobre, todos os minerais canadenses, especialmente na Colúmbia Britânica.
— Ele é bom?
— Muito bom. Muito duro. Um lutador muito sujo. Tem quarenta e um anos, ex-tenente pára-quedista. Sua mão esquerda quase foi arrancada sobrevoando a Birmânia, quando se enroscou nas cordas do pára-quedas. Ele simplesmente fez um torniquete na mão e continuou lutando. Ganhou a Cruz Militar por isso. Eu o escolheria, se fosse tai-pan. — De Ville deu de ombros. — Pela lei da nossa companhia, somente o tai-pan pode indicar seu sucessor. Pode fazê-lo na hora que quiser, até no seu testamento, se desejar. De qualquer modo, a Casa Nobre terá que acatar sua decisão. Suslev observava-o.
— Dunross já fez testamento?
— Ian é muito eficiente. Fez-se um silêncio.
— Mais uma vodca?
— Non, merci, esta chega. O Arthur vem se encontrar conosco?
— Vem. Como poderíamos influir a seu favor? De Ville hesitou, depois deu de ombros. Suslev serviu-se de outra bebida.
— Seria fácil desacreditar esse MacStruan e os outros. É fácil eliminá-los. — Suslev virou-se e olhou para ele. — Até mesmo o Dunross.
— Não. Não é a melhor solução.
— Existe outra?
— Ser paciente. — De Ville sorriu, mas seus olhos estavam muito cansados, e havia neles uma sombra à espreita. — Não gostaria de ser a causa de... de sua eliminação, ou da dos outros.
— Não é necessário matar para eliminar! — riu-se Suslev. — Será que somos bárbaros? Claro que não. — Observava atentamente seu protegido. "De Ville precisa endurecer", pensava. — Conte-me sobre o americano, Bartlett, e o negócio entre a Struan e a Par-Con.
De Ville contou-lhe tudo o que sabia.
— O dinheiro de Bartlett nos dará tudo de que precisamos.
— Esse Gornt pode efetuar uma compra de controle acionário?
— Sim e não. E possivelmente. Ele é durão e nos odeia de verdade. É uma rixa antiga...
— É, eu sei. — Suslev ficou surpreso ao ver que De Ville repetia informações que ele já conhecia. "Mau sinal", pensou, e olhou para o relógio. — Nosso amigo está vinte e cinco minutos atrasado. Não é comum.
Ambos eram traquejados demais para se preocupar. Reuniões como aquela nunca eram totalmente certas, porque ninguém podia jamais impedir que o inesperado acontecesse.
— Ouviu falar do incêndio em Aberdeen? — perguntou De Ville, tendo um pensamento súbito.
— Que incêndio?
— Ouvi o noticiário pelo rádio pouco antes de subir. — De Ville e a mulher ocupavam o apartamento 20, no sexto andar. — O Dragão Flutuante se incendiou em Aberdeen. Talvez Arthur estivesse lá.