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— Você o viu? — Suslev ficou preocupado, de repente.

— Não. Mas podia ter me desencontrado dele. Saí bem antes do jantar.

Suslev sorveu sua vodca, pensativo.

— Ele já lhe contou quem são os outros na Sevrin?

— Não. Perguntei-lhe, ponderadamente, como você ordenou, mas ele nunca...

— Ordenou? Eu não lhe ordeno, továrich, apenas sugiro.

— Claro. Tudo o que ele disse foi: "Todos nos conheceremos, no seu devido tempo".

— Ambos saberemos em breve. Ele está perfeitamente correto em ser cauteloso.

Suslev quisera testar De Ville e testar Arthur. Era uma das regras básicas no KGB que nunca se pode ser cauteloso o bastante em relação aos seus espiões, não importa o quão importantes sejam. Lembrava-se do seu instrutor repetindo infinitamente outra citação direta de A arte da guerra, de Sun Tse, que era leitura obrigatória para todos os militares soviéticos: "Existem cinco classes de espiões: os locais, os internos, os convertidos, os condenados e os sobreviventes. Quando todas as cinco categorias estiverem trabalhando em uníssono, o Estado estará seguro, e o exército, inviolável. Os espiões locais são os moradores do lugar. Os internos são os funcionários do inimigo. Os convertidos são os espiões do inimigo que foram convertidos para o nosso lado. Os condenados são aqueles a quem damos informações falsas, e depois denunciamos anonimamente ao inimigo, que arrancará deles sob tortura essas informações falsas. Os sobreviventes são aqueles que trazem notícias do campo inimigo. Lembrem-se, no exército inteiro, ninguém deve ser mais liberalmente recompensado. Porém, se uma notícia secreta for divulgada por um espião antes da hora apropriada, ele deve ser morto, juntamente com a pessoa a quem o segredo foi contado".

"Se os outros relatórios de Alan Medford Grant forem iguais ao já descoberto", pensou Suslev, sem emoção, "então Dunross está com os dias contados."

Observava De Ville, avaliando-o, gostando dele, satisfeito por ele ter passado novamente no teste... assim como Arthur. O último parágrafo de A arte da guerra — um livro tão importante para a elite soviética que muitos sabiam de cor o volume fino — veio à sua mente: "Somente o governante esclarecido e o general sábio usarão as maiores inteligências do exército para espionar. Os espiões são o elemento mais importante da guerra, porque deles depende a capacidade de um exército se mover".

"E é isso o que o KGB faz", pensou, satisfeito. "Buscamos os melhores talentos entre todos os soviéticos. Nós somos a elite. Precisamos de espiões de todas as cinco categorias. Precisamos desses homens, Jacques, Arthur e todos os outros.

"É, precisamos muito deles."

— Arthur nunca deu nenhuma pista de quem são os outros. Nada — dizia De Ville —, apenas que somos sete.

— Precisamos ser pacientes — disse Suslev, aliviado por ver que Arthur também era corretamente cauteloso, pois parte do plano era que os sete nunca deviam se conhecer, nunca deviam saber que Suslev era o controlador da Sevrin, e o superior de Arthur. Suslev conhecia a identidade de todos os agentes infiltrados da Sevrin. Junto com Arthur, aprovara todos eles ao longo dos anos, testando-os continuamente, apurando sua lealdade, eliminando alguns, substituindo outros. "A gente sempre testa, e no momento em que um espião vacila, chegou a hora de neutralizá-lo, ou eliminá-lo... antes que ele o neutralize ou elimine. Até mesmo Ginny Fu", pensou, "embora não seja espiã e não saiba de nada. Nunca se pode ter confiança absoluta em ninguém, exceto em si mesmo... é o que ensina o nosso sistema soviético. É. Está na hora de levá-la na viagem que sempre lhe prometi. Uma viagem curta, na semana que vem. Para Vladivostok. Chegando lá, ela pode ser purificada, reabilitada e tornada útil, para nunca mais voltar para cá."

Sorveu sua vodca, rolando o líquido ardente na boca.

— Daremos meia hora ao Arthur. Por favor — falou indicando uma poltrona.

De Ville tirou os jornais do caminho e sentou-se na poltrona.

— Leu sobre as corridas aos bancos?

— Li, tovãricb. Uma maravilha — falou Suslev, com um amplo sorriso.

— É uma operação do KGB?

— Não que eu saiba — disse Suslev, jovialmente. — Se for, alguém vai ser promovido. — Era uma chave da política leninista dar especial atenção aos bancos ocidentais que ficavam no centro da força ocidental, infiltrar-se neles até o mais alto escalão, para encorajar outros a fomentarem desastres contra moedas ocidentais, mas, ao mesmo tempo, pedir capital emprestado a eles até o limite máximo, fossem quais fossem os juros, quanto mais longo o empréstimo, melhor, certificando-se de que nenhum soviético jamais faltasse aos pagamentos custasse o que custasse. — A ruína do Ho-Pak certamente arrastará outros bancos. Os jornais dizem que pode haver até uma corrida ao Victoria, hem?

De Ville estremeceu, sem poder se controlar, e Suslev não deixou de perceber. Sua preocupação aumentou.

— Merde, mas isso acabaria com Hong Kong — disse De Ville. — Ah, sei que quanto mais cedo melhor, mas... infiltrado tão profundamente às vezes a gente chega a esquecer quem realmente é.

— Não se preocupe com isso. Acontece com todos nós. Você está confuso por causa de sua filha. Qual o pai que não estaria? Vai passar.

— Quando poderemos agir? Estou cansado, tão cansado de esperar!

— Logo. Escute — disse Suslev para encorajá-lo. — Em janeiro estive numa reunião do escalão superior em Moscou. As transações bancárias figuravam no alto da nossa lista. Pela última contagem, devemos aos capitalistas quase trinta bilhões em empréstimos... a maior parte para os Estados Unidos.

— Minha nossa! Não fazia idéia de que tinham tido tanto êxito! — comentou De Ville, com uma exclamação abafada.

O sorriso de Suslev ficou mais amplo.

— Só a Rússia! Os nossos satélites devem mais seis bilhões e trezentos milhões. A Alemanha Oriental acaba de conseguir mais um bilhão e trezentos para comprar laminadores capitalistas, tecnologia de computadores e mais um bocado de coisas de que precisamos. — Ele riu, esvaziou o copo e serviu mais outro, o álcool lubrificando a sua língua. — Não compreendo os capitalistas. Eles se iludem. Nós estamos francamente dedicados a consumi-los, e eles nos dão os meios para isso. São espantosos. Se tivermos tempo, vinte anos (vinte no máximo), nossa dívida atingirá sessenta ou setenta bilhões, e no que lhes diz respeito, ainda seremos devedores seguros... já que nunca falhamos num pagamento, nem na guerra, nem na paz ou na depressão. — Soltou uma risada alta e repentina. — O que foi que o banqueiro suíço disse? "Empreste um pouco e você terá um devedor... empreste muito e terá um sócio!" Setenta bilhões, Jacques, velho amigo, e seremos donos deles; setenta bilhões, e poderemos torcer a política deles como nos aprouver, e então, a qualquer momento, virá o golpe finaclass="underline" "Mil desculpas, Sr. Banqueiro Capitalista Sionista. Lamentamos, mas estamos falidos! Ah, lamentamos muito, mas não podemos mais pagar os empréstimos, nem sequer os juros dos empréstimos. Sentimos muito, mas deste momento em diante toda a nossa moeda atual não tem valor. Nossa nova moeda é o rublo vermelho, um rublo vermelho vale cem dos seus dólares capitalistas..."

Suslev achou graça, sentindo-se muito feliz.

—...e não importa o quanto os bancos sejam ricos, coletivamente, jamais conseguirão dar baixa em setenta bilhões. Jamais. Setenta e tantos a essa altura, com todos os bilhões do bloco oriental! E se o aviso repentino for dado na hora de uma de suas inevitáveis recessões capitalistas, como o será... estarão atolados na merda do seu pânico até a ponta dos seus narizes hebraicos, suplicando que salvemos suas peles nojentas. — Acrescentou, desdenhosamente: — Os filhos da mãe cretinos merecem perder! Por que deveríamos combatê-los quando a sua própria cobiça e estupidez os está destruindo, hem?