De Ville sacudiu a cabeça, inquieto. Suslev o assustava. "Devo estar ficando velho", pensou. "No começo era fácil acreditar na causa das massas. Os gritos dos oprimidos eram tão altos e nítidos, então. Mas agora? Agora não são tão nítidos. Ainda estou comprometido, profundamente comprometido. Não lamento coisa alguma. A França será melhor quando for comunista.
"Será?
"Não sei mais, não com a certeza que costumava ter. É uma pena para todas as pessoas que tenha que haver um ismo ou outro", falou consigo mesmo, tentando disfarçar sua angústia. "Seria melhor que não houvesse ismos, apenas a minha amada Cote d'Azur curtindo o sol."
— Estou lhe dizendo, velho amigo, Stálin e Béria eram gênios — dizia Suslev. — São os maiores russos que já existiram.
De Ville conseguiu com esforço deixar que o choque não transparecesse em sua fisionomia. Lembrava-se do horror da ocupação alemã, a humilhação da França, todas as aldeias e vilas e vinhedos. Lembrava-se de que Hitler jamais ousaria ter atacado a Polônia e começar tudo aquilo sem o pacto de não-agressão de Stálin a apoiá-lo. "Sem Stálin não teria havido guerra, nem holocausto, e todos estaríamos muito melhor."
— Vinte milhões de russos? Incontáveis milhões de outros — disse.
— Um preço modesto. — Suslev serviu-se de outro drinque, seu zelo e a vodca soltando-lhe a língua. — Por causa de Stálin e Béria temos toda a Europa Oriental, do Báltico aos Bálcãs... Estônia, Lituânia, Letônia, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, toda a Polônia, a Prússia, metade da Alemanha, a Mongólia Exterior — Suslev arrotou, satisfeito —, a Coréia do Norte, e pontos de apoio por toda parte. A Operação Leão destruiu o Império Britânico. Graças ao apoio deles, nasceu a ONU, para nos dar a nossa maior arma no nosso arsenal de muitas armas. E ainda há Israel. — Começou a rir. — Meu pai foi um dos controladores desse programa. De Ville sentiu a nuca arrepiada.
— Como?
— Israel foi um golpe de proporções monumentais de Stálin e Béria! Quem ajudou, disfarçada e abertamente, o nascimento da nação? Quem a reconheceu imediatamente? Nós, e por quê? — Suslev arrotou de novo. — Para cimentar nas entranhas da Arábia um câncer perpétuo que vai supurar e destruir os dois lados, e, junto com eles, provocar a derrocada industrial do Ocidente. Judeus contra muçulmanos contra cristãos. Esses fanáticos nunca viverão em paz uns com os outros, embora o pudessem, facilmente. Jamais deixarão de lado suas diferenças, mesmo que isso lhes custe as vidas cretinas.
Ele riu e fitou o copo com olhos turvos, girando-o. De Ville o observava, odiando-o, desejando desmenti-lo, sem coragem para tal, sabendo que estava totalmente nas mãos de Suslev. Uma vez, há alguns anos, ele reclamara de ter que mandar alguns números de rotina da Struan para uma caixa postal em Berlim. Dentro de um dia, um estranho ligara para ele, em sua casa. Nunca recebera antes um telefonema desses. Fora amistoso. Mas ele entendera.
De Ville abafou um estremecimento e manteve a fisionomia desanuviada quando Suslev ergueu os olhos para ele.
— Não concorda, továrich? — disse o homem do KGB, abrindo um sorriso. — Juro que jamais entenderei os capitalistas. Fazem-se inimigos dos quatrocentos milhões de árabes que possuem todas as reservas de petróleo do mundo, de que eles necessitarão tão desesperadamente um dia. E logo teremos o Irã, o golfo Pérsico e o estreito de Ormuz. Então, estaremos com a mão na torneira dos barris do Ocidente, serão nossos, e não haverá necessidade de guerra... apenas execução.
Suslev esvaziou seu copo de vodca e serviu-se de outro.
De Ville observava-o, detestando-o agora, questionando desesperadamente seu próprio papel. "Foi para isso que fui um toupeira quase perfeito durante dezesseis anos, mantendo-me preparado e pronto, sem nenhuma suspeita recaindo sobre mim? Até mesmo Susanne de nada desconfia, e todos acreditam que sou anticomunista e pró-Struan, que é a criação arquicapitalista de toda a Ásia. Os pensamentos de Dirk Struan nos guiam. Lucro. Lucro para o tai-pan, para a Casa Nobre e para Hong Kong, nesta ordem, e para o diabo com todo mundo, exceto a Inglaterra e a China. E mesmo que não me torne o tai-pan, ainda posso fazer da Sevrin a destruidora da China que Suslev e Arthur querem que ela seja. Mas é isso o que quero, agora? Agora, que pela primeira vez enxerguei este... este monstro e toda a sua hipocrisia?"
— Stálin — disse, quase se crispando ante o olhar de Suslev. — Conheceu-o pessoalmente?
— Estive perto dele, certa vez. A três metros dele. Era baixinho, mas podia-se sentir o seu poder. Isso foi em 1953, numa festa que Béria ofereceu a alguns oficiais superiores do KGB. Meu pai foi convidado, e permitiram que eu fosse com ele. — Suslev tomou mais uma vodca, mal vendo De Ville, envolvido pelo passado e pela participação de sua família no movimento. — Stálin estava lá, Béria, Malenkov... Sabia que o nome real de Stálin era Iossif Vissarionovitch Djugatchvili? Era filho de um sapateiro, em Tiflis, minha cidade natal, destinado ao sacerdócio, mas expulso do seminário de lá. Estranho, estranho, estranho!
Fizeram "tim-tim" com os copos.
— Não precisa fazer uma cara tão solene, camarada — disse, interpretando mal De Ville. — Independente da sua perda pessoal. Você faz parte do futuro, parte da marcha para a vitória! — Suslev esvaziou o copo. — Stálin deve ter morrido feliz. Quem nos dera igual sorte, hem?
— E Béria?
— Béria tentou tomar o poder tarde demais. Fracassou. Nós, no KGB, concordamos com os japoneses em que o único pecado é o fracasso. Mas Stálin... Meu pai conta uma história que, em Yalta, quando, em troca de nenhuma concessão, Roosevelt concordou em dar a Stálin a Manchúria e as ilhas Kurilas, que nos garantiram o predomínio sobre a China e o Japão e todas as águas asiáticas, Stálin teve um derrame segurando o riso, e quase morreu!
Depois de uma pausa, De Ville disse:
— E Soljenítsin e os gulags?
— Estamos em guerra, meu amigo, existem traidores internos. Sem terror, como podem os poucos governar os muitos? Stálin sabia disso. Era um homem verdadeiramente formidável. Até mesmo sua morte nos serviu. Foi brilhante da parte de Khruchov usá-lo para "humanizar" a URSS.
— Foi apenas outro golpe? — perguntou De Ville, abalado.
— Isso é segredo de Estado. — Suslev engoliu um arroto. — Não faz mal, logo Stálin será devolvido à sua glória. Bem, e quanto a Ottawa?
— Ah! Estive em contato com Jean-Charles e...
O telefone tocou abruptamente. Um único toque. Os olhos de ambos voltaram-se para ele, e eles quase pararam de respirar. Depois de vinte e tantos segundos, houve mais um toque único. Ambos relaxaram ligeiramente. Mais vinte e tantos segundos, e o terceiro toque tornou-se contínuo. Um toque significava "Perigo, saiam imediatamente"; dois, que a reunião estava cancelada; três, que quem estivesse telefonando logo estaria ali; três, ficando contínuo, que era seguro conversar. Suslev atendeu ao telefone. Ouviu uma respiração, depois Arthur perguntou no seu curioso sotaque:
— O Sr. Lop-sing está?
— Aqui não há nenhum Lop-ting, é engano — disse Suslev, numa voz diferente, concentrando-se com esforço.
Seguiram o código cuidadosamente, Suslev ainda mais tranqüilizado pela ligeira tosse seca de Arthur. Então, Arthur falou:
— Não posso encontrá-los hoje. Sexta-feira às três seria conveniente?
"Sexta-feira" queria dizer "quinta-feira" (que era o dia seguinte), "quarta-feira" queria dizer "terça-feira", e assim por diante. O 3 era o código para o local do encontro: O Hipódro-mo Happy Valley, nos treinamentos do alvorecer.
Amanhã, ao alvorecer!
— Sim.
O telefone foi desligado. Restou apenas o som de linha desocupada.
Quinta-feira
39
4h50m
Cerca de uma hora antes do amanhecer, sob a chuva torrencial, Poon Bom Tempo olhou para o corpo meio despido de John Chen e soltou um palavrão. Revistara as roupas dele cuidadosamente, e examinara vários quilos de lama do túmulo que os dois jovens, Kin Pak e Chen Orelha de Cão, haviam cavado. Mas nada encontrara — nem moedas, nem partes de moedas ou jóias, nada. E Wu Quatro Dedos lhe dissera, anteriormente: