— Trate de achar aquela meia moeda, Poon Bom Tempo. Então, o velho lhe dera novas instruções, e Poon Bom
Tempo ficara muito satisfeito, porque aquilo o aliviava de qualquer responsabilidade, e assim não poderia cometer erro algum. Mandara que Chen Orelha de Cão e Kin Pak carregassem o cadáver para baixo e ameaçara Kin Bexiguento, que segurava a mão mutilada, de cortar fora a sua língua, caso o jovem gemesse mais uma vez. Deixaram o cadáver do Pai Kin num beco. A seguir, Poon Bom Tempo procurou o rei dos mendigos de Kowloon City, que era primo afastado de Wu Quatro Dedos. Todos os mendigos eram membros da Associação dos Mendigos e havia um rei em Hong Kong, um em Kowloon e um em Kowloon City. Antigamente, a mendicância era uma profissão rendosa, mas não agora, devido a severas sentenças de prisão, multas e muitos empregos que pagavam bem.
— Sabe, Honrado Rei Mendigo, esse conhecido nosso acaba de morrer — Poon Bom Tempo explicou pacientemente ao velho distinto. — Não tem parentes, portanto foi colocado no Beco dos Floristas. Meu Grande Dragão apreciaria muito uma ajudazinha. Quem sabe o senhor não poderia providenciar um enterro discreto? — Negociou polidamente, depois pagou o preço combinado, e encaminhou-se para o táxi e o carro deles, que estavam esperando fora dos limites da cidade, satisfeito porque o corpo agora ia desaparecer para sempre, sem deixar vestígios. Kin Pak já estava no banco da frente do táxi. Entrou ao seu lado. — Leve-nos a John Chen — ordenou. — E depressa!
— Pegue a Sha Tin Road — disse Kin Pak, com ar importante, para o motorista. Chen Orelha de Cão encolhia-se no banco de trás com outros combatentes de Poon Bom Tempo. Kin Bexiguento e os outros iam no carro.
Os dois veículos seguiram para o noroeste, para os Novos Territórios, pela Sha Tin-Tai Po Road, que atravessava aldeias, zonas de recolonização e favelas, cruzava a garganta da montanha, ladeando a ferrovia que se dirigia para a fronteira norte, passando por hortas férteis que exalavam um forte cheiro de estrume. Pouco antes da aldeia pesqueira de Sha Tin, com o mar à sua direita, eles viraram à esquerda numa estrada lateral, saindo da via principal. A superfície da estrada estava rachada, cheia de poças. Pararam numa clareira e saltaram.
Estava quentinho, na chuva. A terra cheirava bem. Kin Pak pegou a pá e foi mostrando o caminho, por entre a vegetação rasteira. Poon Bom Tempo segurava a lanterna elétrica, enquanto Kin Pak, Chen Orelha de Cão e Kin Bexiguento procuravam. Ficava difícil para eles, na escuridão, encontrar o local exato. Duas vezes começaram a cavar antes que Kin Pak se lembrasse de que o pai havia marcado o local com uma pedra em forma de meia-lua. Praguejando, ensopados, finalmente encontraram a pedra e começaram a cavar. A terra estava ressecada, sob a superfície. Logo desenterraram o corpo, enrolado num cobertor. O cheiro era forte. Embora Poon Bom Tempo os tivesse feito despir o corpo e o tivesse revistado cuidadosamente, nada fora encontrado.
— Mandaram todo o resto para o Chen da Casa Nobre? — perguntou novamente, a chuva no seu rosto, as roupas ensopadas.
— Sim — respondeu o jovem Kin Pak, com truculência.
— Quantas vezes tenho que lhe repetir, porra?
Estava muito cansado, as roupas encharcadas, e tinha certeza de que ia morrer.
— Vocês todos, tirem essas roupas infestadas de estrume. Sapatos, meias, tudo. Quero revistar os seus bolsos.
Obedeceram. Kin Pak usava um cordão à volta do pescoço, do qual pendia um disco de jade barato. Quase todo mundo na China usava um pedaço de jade para dar sorte, porque todos sabiam que, se um deus malvado fizesse você tropeçar, o espírito do jade se meteria entre você e o mal, agüentaria o tranco da queda e se despedaçaria, evitando que você se despedaçasse. E se não o fizesse, então o Deus do Jade devia estar dormindo, infelizmente, e era azar seu.
Poon Bom Tempo não achou nada nos bolsos de Kin Pak. Jogou as roupas de volta para ele. A essa altura também ele estava ensopado, e muito irritado.
— Podem se vestir, e vestir o cadáver também. E andem depressa com isso!
Chen Orelha de Cão tinha quase quatrocentos HK e uma pulseira de jade de boa qualidade. Um dos homens ficou com a pulseira, Poon embolsou a grana e virou-se para Kin Bexiguento. Os olhos de todos saltaram ao ver o grande maço de notas que ele achou no bolso das calças do jovem.
Poon Bom Tempo protegeu-o cuidadosamente da chuva.
— Onde, em nome da Puta Celestial, arranjou tudo isso? Ele lhes contou como achacara o pessoal de dinheiro diante do Ho-Pak, e eles riram e o cumprimentaram pela sua sagacidade.
— Muito bem, quanta esperteza! — disse Poon. — Você é um bom negociante. Vista-se. Como se chamava a velha?
— Disse que se chamava Ah Tam. — Kin Bexiguento tirou a água da chuva dos olhos com a mão, os dedos do pé retorcendo-se na lama, a mão mutilada em fogo, agora, e doendo demais. — Eu o levarei até ela, se quiser.
— Ei, preciso da porra da luz aqui! — exclamou Kin Pak. Estava de quatro, tentando enfiar as roupas no cadáver de John Chen. — Alguém pode me dar uma ajuda?
— Ajudem-no!
Chen Orelha de Cão e Kin Bexiguento apressaram-se a ajudar, enquanto Poon Bom Tempo dirigia o jato de luz de volta ao cadáver. O corpo estava inchado e tumefato, e a chuva lavava a terra de cima dele. A parte de trás da cabeça de John Chen estava esmagada e cheia de sangue pisado, mas seu rosto ainda era reconhecível.
— Ayeeyah — disse um dos homens de Poon —, vamos andando com isso. Sinto espíritos maus a rondarem por aqui.
— Basta pôr as calças e a camisa — falou Poon Bom Tempo, com azedume. Esperou até o corpo estar parcialmente vestido. Depois, fitou os três. — Agora, qual de vocês, seus safados sem mãe, ajudou o velho a matar este pobre fornicador?
Kin Pak começou a dizer:
— Já lhe cont...
Parou ao ver que os outros dois apontavam para ele e diziam a uma voz, afastando-se dele:
— Foi ele.
— Era o que eu já suspeitava! — Poon Bom Tempo ficou satisfeito por ter finalmente chegado ao fundo do mistério. Apontou o dedo rombudo para Kin Pak. — Entre no buraco e deite-se.
— Temos um plano fácil para seqüestrar o próprio Chen da Casa Nobre, um plano que nos renderá a todos duas, três vezes o que rendeu este fornicador. Eu lhes conto, heya? — falou Kin Pak.
Poon Bom Tempo hesitou um momento diante da nova idéia. Depois, lembrou-se das instruções de Quatro Dedos.
— Enfie a cara na terra do buraco!
Kin Pak fitou seus olhos inflexíveis, e soube que era um homem morto. Deu de ombros. Joss.
— Mijo em toda a sua descendência — falou. Entrou na cova e se deitou.
Apoiou a cabeça sobre os braços, na terra, e começou a apagar a luz da sua vida. Do nada ao nada, sempre parte da família Kin, de todas as suas gerações, vivendo para sempre na sua corrente perpétua, de geração a geração, através da história para o futuro eterno.
Poon Bom Tempo pegou uma das pás e, por causa da coragem do jovem, despachou-o instantaneamente, colocando a parte cortante da lâmina entre as suas vértebras e empurrando para baixo. Kin Pak morreu sem saber,
— Encham a cova!
Chen Orelha de Cão estava apavorado, mas apressou-se a obedecer. Poon Bom Tempo riu, fê-lo tropeçar e deu-lhe um chute violento pela sua covardia. O homem caiu em parte dentro da cova. Prontamente a pá na mão de Poon girou num arco e atingiu a parte de trás da cabeça de Chen Orelha de Cão, e ele desabou com um suspiro em cima de Kin Pak. Os outros acharam graça, e um deles falou:
— Eeee, você usou a pá como se fosse um bastão de críquete dos demônios estrangeiros! Ótimo. Ele está morto?