Poon Bom Tempo não respondeu, apenas olhou pata o último Lobisomem, Kin Bexiguento. Todos os olhares se voltaram para ele, que ficou parado, rígido, sob a chuva. Foi então que Poon Bom Tempo notou o cordão atado ao seu pescoço. Pegou a lanterna elétrica, foi até junto dele e viu que a outra extremidade pendia pelas suas costas abaixo. Na ponta dela estava uma meia moeda partida, em que fora feito um furo com cuidado. Era uma moeda de cobre e parecia antiqüíssima.
— Que todos os deuses peidem na cara de Tsao Tsao! Onde arranjou isto? — perguntou, abrindo um sorriso.
— Foi meu pai quem me deu.
— Onde ele a arranjou, seu bostinha?
— Não me contou.
— Será que a tirou do Filho Número Um Chen?
Ele deu de ombros, novamente.
— Não sei. Não estava lá quando ele foi morto. Juro pela minha mãe que sou inocente!
Com um movimento repentino, Poon Bom Tempo arrancou o cordão do seu pescoço.
— Levem-no para o carro — disse para dois dos seus homens. — Vigiem-no com muito cuidado. Vamos levá-lo conosco. É, vamos levá-lo, sim. O resto de vocês, terminem de encher a cova, e camuflem-na cuidadosamente.
A seguir, mandou que os dois últimos homens pegassem o cobertor que continha o corpo de John Chen e o seguissem. Assim o fizeram, desajeitadamente, na escuridão.
Ele foi se dirigindo para a Sha Tin Road, desviando-se das poças d'água. Ali perto ficava uma parada de ônibus coberta, meio desmoronada. Quando a estrada ficou desimpedida, ele fez sinal para os seus homens, e eles rapidamente tiraram o corpo de dentro do cobertor e encostaram-no num canto do abrigo. A seguir, tirou o cartaz que os Lobisomens haviam feito anteriormente e grudou-o com cuidado no corpo.
— Para que está fazendo isso, Poon Bom Tempo, heya? Para que está fazen...
— Porque o Quatro Dedos mandou! Como vou saber? Feche essa porra de bo...
Os faróis de um carro que fazia a curva os iluminaram, repentinamente. Eles ficaram gelados, e viraram o rosto, fingindo ser passageiros à espera do ônibus. Depois que o carro passou, deram no pé. A aurora pintava o céu, a chuva diminuía.
O telefone tocou, e Armstrong acordou com dificuldade. Na semi escuridão, tateou em busca do fone e atendeu. A mulher dele remexeu-se, inquieta, e acordou.
— Segundo-sargento comissionado Tang-po, senhor. Lamento acordá-lo, senhor, mas encontramos John Chen. Os Lobiso...
Armstrong sentiu-se instantaneamente desperto.
— Vivo?
— Dew neh loh moh, não, senhor. Encontraram o corpo dele numa parada de ônibus coberta, senhor, e aqueles safados dos Lobisomens deixaram um bilhete no peito dele, senhor:
Este Filho Número Um Chen cometeu a estupidez de tentar escapar de nós. Ninguém pode escapar dos Lobisomens! Que toda a Hong Kong se cuide. Nossos olhos estão em toda parte!" Ele est...
Armstrong ficou escutando, horrorizado, enquanto o homem agitado contava que a polícia de Sha Tin fora chamada por um passageiro de ônibus madrugador. Imediatamente, toda a área fora isolada, e eles tinham ligado para o DIC de Kowloon.
— O que devemos fazer, senhor?
— Mande um carro vir me buscar, imediatamente. Armstrong desligou e esfregou os olhos, tentando afastar o cansaço. Usava um sarongue, que caía bem no seu corpo musculoso.
— Problemas?
Mary abafou um bocejo e se espreguiçou. Tinha apenas quarenta anos, dois anos menos que ele. Era rija, de cabelos castanhos, o rosto simpático, embora vincado.
Ele lhe contou, observando-a.
— Oh! — O rosto dela ficara sem cor. — Que terrível! Oh, que terrível! Pobre John!
— Vou fazer o chá — falou Armstrong.
— Não, não, deixe que eu faço. — Saltou da cama, o corpo firme. — Vai ter tempo de tomá-lo?
— Só uma xícara. Ouça só a chuva... estava mais do que na hora! — Pensativo, Armstrong foi para o banheiro, barbeou-se e vestiu-se rapidamente, como só um policial e um médico sabem fazer. Dois goles do chá quente e doce, e pouco antes de morder a torrada a campainha tocou. — Ligo para você mais tarde. Que tal um curry hoje à noite? Podemos ir ao Singh's.
— Está bem — respondeu ela —, está bem, se você quiser.
A porta se fechou atrás dele.
Mary Armstrong ficou olhando para a porta. "Amanhã faremos quinze anos de casados", pensou. "Será que ele vai se lembrar? Provavelmente não. Em catorze anos, oito vezes ele estava trabalhando num caso, uma vez eu estava no hospital, e o resto... bem, o resto foi tudo bem, imagino. "
Foi até a janela e afastou as cortinas. Torrentes de chuva manchavam as vidraças, à meia-luz, mas agora estava fresco e agradável. O apartamento tinha dois dormitórios, e os móveis eram deles, embora o apartamento pertencesse ao governo.
"Pombas, que emprego!
"É um nojo ser mulher de um policial. Você passa a vida esperando que ele volte para casa, esperando que algum maldito bandido o apunhale, atire nele ou o machuque... na maioria das noites, você dorme sozinha, ou é acordada nas horas mais estranhas, com mais desgraças, e lá se vai ele de novo. Mal pago, e com excesso de trabalho. Ou então vai ao Clube da Polícia e fica sentada com as outras mulheres, enquanto os homens tomam um porre, e você permuta mentiras com as mulheres, e bebe gim demais. Pelo menos, elas têm filhos.
"Filhos! Ah, Deus... como queria que tivéssemos filhos!
"Mas, afinal, a maioria das mulheres vive se queixando de como estão cansadas, de como as crianças são exaustivas, das amahs, dos colégios, das despesas... e de tudo. Mas que diabo significa essa vida? Que maldito desperdício! Que absoluto desesper...
O telefone tocou.
— Cale a bocal — berrou, depois riu nervosamente. — Mary, Mary, mas que mau gênio! — repreendeu a si mesma e atendeu: — Alô?
— Mary, é Brian Kwok. Desculpe acordá-la, mas o Rob...
— Oh, alô, querido. Não, desculpe, ele acaba de sair. Algo a ver com os Lobisomens.
— É, eu também soube, e foi por isso que liguei. Ele foi para Sha Tin?
— Foi. Você também vai?
— Não. Estou com o Velho.
— Pobrezinho!
Ouviu a risada dele. Bateram papo por mais um momento, depois ele desligou.
Ela soltou um suspiro, serviu-se de outra xícara de chá, adicionou leite e açúcar, e pensou em John Chen. Houve uma época em que fora loucamente apaixonada por ele. Os dois tinham sido amantes por mais de dois anos, e ele fora o seu primeiro homem. Tudo acontecera no campo japonês de prisioneiros de guerra da Prisão Stanley, na parte sul da ilha.
Em 1940, ela passara com distinção no concurso para o funcionalismo público, na Inglaterra, e depois de alguns meses fora enviada para Hong Kong, por mar. Chegara no fim de 1941, com dezenove anos, bem a tempo de ser internada, junto com todos os civis europeus, no campo de prisioneiros, onde permaneceu até 1945.
"Eu tinha vinte e dois anos quando saí de lá, e nos dois últimos anos fomos amantes, John e eu. Pobre John, atormentado constantemente pelo pai nojento, e a mãe doente, sem meio de fugir a eles, e quase sem privacidade no campo, confinado com famílias, crianças, bebês, maridos, mulheres, ódio, fome, inveja e muito pouco riso, todos aqueles anos. Amá-lo tornou o campo suportável.
"Não quero pensar naqueles tempos horríveis.
"Ou naquela época horrível, depois do campo, em que ele se casou com a escolhida do pai, uma sujeitinha nojenta, mas com dinheiro, influência e ligações familiares em Hong Kong. Eu não tinha nada disso. Devia ter ido para casa, mas não queria ir para casa... o que havia lá a me esperar? Então fiquei e trabalhei na Secretaria Colonial e me diverti bastante. E então conheci Robert.
"Ah, Robert. Você foi um bom homem, bom para mim. Nós nos divertimos, e fui boa mulher para você, ainda tento ser. Mas não posso ter filhos, e você... nós dois queremos filhos. Certo dia, há alguns anos, você descobriu sobre John Chen. Nunca me perguntou sobre ele, mas sei que você sabe, e desde então você o odiou. Tudo aconteceu muito antes de eu conhecer você, e você sabia sobre o campo, mas não sobre o meu amante. Lembra-se de que, antes de nos casarmos, quando lhe perguntei: 'Quer saber do passado, meu querido?', você respondeu: 'Não, minha velha'?