Выбрать главу

"Você costumava me chamar de 'minha velha' o tempo todo. Agora, não me chama de nada. Apenas Mary, às vezes.

"Pobre Robert!

"Como devo tê-lo desapontado!

"Pobre John, como você me desapontou! No passado tão belo, agora tão morto!

"Queria estar morta, também. "

Começou a chorar.

40

7h15m

— Vai continuar a chover, Aleksei — disse Dunross, a pista já encharcada, o dia escuro e nublado.

— Concordo, tai-pan. Se chover amanhã também, mesmo que seja um pouco, a coisa vai ser feia no sábado.

— O que acha, Jacques?

— Concordo — disse De Ville. — Graças a Deus pela chuva. Mas, merde, seria uma pena se as corridas fossem canceladas.

Dunross concordou.

Estavam de pé na grama perto do círculo do vencedor no Hipódromo Happy Valley, os três vestindo capas de chuva e chapéu. O rosto de Dunross exibia um vergão feio, e equimoses, mas seus olhos estavam firmes e desanuviados. Postava-se com uma confiança serena, fitando o toldo de nuvens, a chuva ainda caindo, mas sem a mesma força da noite anterior. Outros treinadores, donos de cavalos e curiosos, espalhavam-se pelo paddock e pelas tribunas, igualmente pensativos. Alguns cavalos estavam sendo exercitados, entre eles Noble Star, Buccaneer Lass, montada por um cavalariço, e o Pilot Fish de Gornt. Todos os cavalos estavam sendo exercitados com muito cuidado, com a rédea bem curta: a pista e o caminho que levava à pista estavam muito escorregadios. Mas Pilot Fish estava saltitante, curtindo a chuva.

— O boletim meteorológico da manhã informou que o temporal vai ser imenso. — Os olhos pretos de Travkin, vermelhos de cansaço, observavam Dunross. — Se a chuva parar amanhã, a pista ainda vai estar mole no sábado.

— Isso vai ajudar ou atrapalhar as chances de Noble Star, Aleksei? — perguntou Jacques.

— Deus é quem sabe, Jacques. Ela nunca correu em pista molhada.

Travkin não conseguia concentrar-se. Na noite anterior o telefone tocara. De novo o estranho do KGB, que interrompera grosseiramente as suas perguntas quando ele quisera saber por que sumira tão repentinamente.

— Não é privilégio seu fazer perguntas, príncipe de Kurgan. Basta contar-me tudo o que sabe sobre Dunross. Agora. Tudo. Seus hábitos, boatos a seu respeito, tudo.

Travkin obedecera. Sabia que estava numa camisa de onze varas, sabia que o estranho devia ser do KGB e estaria gravando tudo o que ele dizia, para verificar a veracidade de suas palavras, a mais leve variação da verdade significando talvez um dobre de finados para a mulher, ou o filho, ou a mulher do filho, ou os filhos do filho... se é que realmente existiam.

E existiam?, perguntou-se agoniado, mais uma vez.

— O que há, Aleksei?

— Nada, tai-pan — respondeu Travkin, sentindo-se sujo. — Estava pensando no que o senhor passou, ontem à noite. — As notícias do incêndio em Aberdeen tinham inundado os meios de comunicação, especialmente o testemunho ocular impressionante de Vênus Poon, que fora o foco de todos os noticiários. — Terrível sobre os outros, não é?

— É. — Até aquele momento, o total de mortos conhecido era de quinze queimados e afogados, inclusive duas crianças. — Vai levar dias para se descobrir realmente quantos se perderam.

— Terrível! — manifestou-se Jacques. — Quando ouvi a notícia... se Susanne estivesse aqui, teríamos ficado presos no incêndio. Ela... como a vida é curiosa, às vezes!

— Maldito convite ao incêndio! Nunca me dei conta disso antes — falou Dunross. — Todos nós já comemos lá dúzias de vezes... vou falar ao governador logo mais sobre todos esses restaurantes flutuantes.

— Mas o senhor está bem, pessoalmente? — perguntou Travkin.

— Ah, estou, sem problemas. — Dunross sorriu sombriamente. — A não ser que todos peguemos crupe por termos nadado naquela cloaca.

Quando o Dragão Flutuante subitamente emborcara, Dunross, Gornt e Peter Marlowe estavam na água, bem embaixo do barco. O megafone da lancha da polícia berrara um aviso desesperado, e todos começaram a nadar alucinadamente. Dunross nadava muito bem, e ele e Gornt conseguiram se livrar, embora a água os sugasse para trás. Quando sua cabeça submergiu, ele viu o escaler quase cheio ser arrastado para o redemoinho, e emborcar, e percebeu que Marlowe estava em apuros. Deixou-se ir com a torrente que remoinhava quando o navio afundou de lado, e atirou-se sobre Marlowe. Os dedos dele pegaram a camisa do outro, e eles remoinharam juntos por um momento, arrastados alguns metros para o fundo, batendo contra o convés. O golpe quase o atordoou, mas não largou Marlowe, e quando o repuxo diminuiu, subiu à superfície. Marlowe agradeceu com voz ofegante e nadou em direção a Fleur, que se agarrava com outras pessoas ao escaler virado. À sua volta havia o caos, gente sufocando, afogando-se e sendo salva pelos marujos e por outros homens. Dunross viu Casey mergulhar no encalço de alguém. Gornt não estava à vista. Bartlett veio à tona com Christian Toxe e saiu à cata de um salva-vidas. Certificou-se de que Toxe estivesse firmemente agarrado à bóia antes de gritar para Dunross:

— Acho que Gornt foi tragado, e havia uma mulher... Depois, mergulhou de novo.

Dunross olhou ao seu redor. O Dragão Flutuante agora estava quase completamente deitado de lado. Sentiu uma ligeira explosão submarina, e a água ferveu à sua volta, por um momento. Casey subiu para tomar ar, encheu os pulmões e voltou para baixo d'água. Dunross também mergulhou. Era quase impossível enxergar, mas ele foi tateando ao longo do convés superior, que agora estava quase vertical, dentro d'água. Nadou ao redor do navio sinistrado, procurando. Permaneceu embaixo d'água o máximo que agüentou, depois subiu à tona com cuidado, pois havia muitos nadadores se debatendo por ali. Toxe estava vomitando água do mar, agarrado precariamente à bóia. Dunross nadou até junto dele e o arrastou na direção de um marinheiro, pois sabia que ele não sabia nadar.

— Agüente firme, Christian... tudo bem, agora. Toxe tentava desesperadamente falar, em meio às ânsias de vômito:

— Minha... minha mulher... ela está lá embaixo... lá embaixo... lá...

O marinheiro chegou junto deles.

— Já o peguei, senhor. Tudo bem?

— Sim... sim... ele disse que a mulher dele foi tragada.

— Meu Deus! Eu não vi ninguém... vou buscar ajuda!

O marujo se virou e berrou para a lancha da polícia, pedindo ajuda. Imediatamente vários marujos mergulharam e começaram a procurar. Dunross procurou Gornt, sem achá-lo. Casey veio à tona, ofegante, e agarrou-se ao escaler emborcado para recobrar o fôlego.

— Está bem?

— Sim... sim... graças a Deus você está bem... — falou ela, a voz ofegante, o peito arfante. — Há uma mulher Iá embaixo, acho que é chinesa, eu a vi sendo tragada.

— Viu Gornt?

— Não... Talvez esteja...

Ela indicou a lancha. Havia gente subindo pela escada do costado, mais gente encolhida no convés. Bartlett veio à tona por um instante, depois mergulhou de novo. Casey tomou ar novamente e deslizou para as profundezas. Dunross a seguiu, ligeiramente à sua direita.

Os três procuraram até que todos os demais estivessem a salvo na lancha ou nas sampanas. Não conseguiram encontrar a mulher.

Quando Dunross chegou a casa, Penelope estava profundamente adormecida. Acordou momentaneamente.

— Ian?

— É. Durma de novo, querida.

— Divertiu-se? — perguntou ela, sem estar realmente desperta.

— Sim, durma de novo.

Naquela manhã, uma hora antes, ele não a acordara quando saíra da Casa Grande.

— Ouviu dizer que Gornt se salvou, Aleksei? — perguntou.