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— Ouvi, sim, tai-pan. Foi a vontade de Deus.

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que, depois do que houve ontem na Bolsa, teria sido muito conveniente que não tivesse se salvado.

Dunross abriu um sorriso e esticou-se para aliviar uma dor na coluna.

— Ah, mas nesse caso eu teria ficado muito chateado, muito chateado mesmo, pois não teria o prazer de aniquilar a Rothwell-Gornt pessoalmente, não é?

— É espantoso que não tenha morrido mais gente — comentou De Ville após uma pausa.

Ficaram vendo Pilot Fish passar por eles num meio galope, parecendo ótimo. Os olhos de De Ville correram o hipódromo.

— É verdade que Bartlett salvou a mulher de Peter Marlowe? — quis saber Travkin.

— Saltou com ela. É. Tanto Linc quanto Casey fizeram um belo trabalho. Maravilhoso.

— Quer me dar licença, tai-pan? — Jacques de Ville fez um gesto de cabeça na direção das tribunas. — Lá está Jason Plumm. Devo jogar bridge com ele hoje à noite.

— Vejo você na hora das preces, Jacques. — Dunross sorriu para ele, e De Ville se afastou. Dunross soltou um suspiro, triste pelo amigo. — Vou para o escritório, Aleksei. Ligue para mim às seis.

— Tai-pan...

— Sim?

Travkin hesitou. Depois falou, simplesmente:

— Só queria que soubesse... que eu o admiro imensamente.

Dunross ficou intrigado com o gesto inesperado, e com a melancolia curiosa e sem disfarce que emanava do outro homem.

— Obrigado — disse, com carinho, e bateu no ombro do outro. Nunca anteriormente havia tocado nele como amigo. — Você também não é nada mau.

Travkin ficou olhando enquanto ele se afastava, sentindo uma dor no peito, lágrimas de vergonha misturando-se à chuva. Enxugou o rosto com as costas da mão, e voltou a observar Noble Star, tentando concentrar-se.

Na periferia da sua visão, viu alguém e se virou, espantado. O homem do KGB estava num canto das tribunas, e outro homem vinha reunir-se a ele. 0 homem era velho e curtido pelo tempo, e muito conhecido como apostador em Hong Kong. Travkin procurou lembrar-se do nome. Clinker. Era isso! Clinker!

Estupefato, fitou-os por um momento. Jason Plumm estava nas tribunas, logo atrás do homem do KGB, e ele viu Plumm levantar-se para retribuir o aceno de Jacques de Ville, depois descer os degraus para ir ao seu encontro. Nesse momento o homem do KGB olhou na sua direção, e ele se virou cautelosamente, tentando não ser muito brusco de novo. O homem levou o binóculo aos olhos, e Travkin não sabia se fora notado ou não. Ficou arrepiado ao imaginar aquele binóculo potente focalizado na sua pessoa. "Será que o homem conhece leitura labial?", pensou, aterrorizado. "Jesus, Maria e José, graças a Deus não contei a verdade ao tai-pan. "

Seu coração batia dolorosamente, e sentia-se nauseado. Um raio cortou o céu, no oriente. A chuva fazia poças no concreto e na parte inferior e descoberta das tribunas. Tentou acalmar-se e olhou ao seu redor, impotente, sem saber o que fazer, desejando muito saber quem era o homem do KGB. Distraidamente, notou que Pilot Fish estava terminando o seu treino em excelente forma. Atrás dele, Richard Kwang conversava animadamente com um grupo de outros chineses que ele não conhecia. Linbar Struan e Andrew Gavallan apoiavam-se nas grades com o americano Rosemont e outros do consulado, que conhecia de vista. Todos observavam os cavalos, indiferentes à chuva. Perto do vestiário, abrigado, Donald McBride conversava com outros administradores, Sir Shi-teh T'Chung, Pugmire e Roger Crosse entre eles. Viu McBride olhar para o lado de Dunross, acenar e pedir-lhe que se reunisse a eles. Brian Kwok esperava por Roger Crosse, um pouco afastado dos administradores. Travkin conhecia os dois, mas não sabia que pertenciam ao sei.

Involuntariamente, seus pés começaram a impulsioná-lo na direção deles. O gosto amargo de bile subiu-lhe à boca. Dominou o impulso de correr até eles e contar-lhes toda a verdade. Ao invés disso, falou para o seu principal ma-foo:

— Mande os nossos cavalos para casa. Todos eles. Certifique-se de que estejam secos antes de alimentá-los.

— Sim, senhor.

Desanimado, Travkin foi se arrastando para o vestiário. Pelo canto dos olhos, viu que o homem do KGB focalizava-o com o binóculo. A chuva escorreu pelo seu pescoço, misturando-se ao suor provocado pelo medo.

— Ah, Ian, estávamos pensando que, se chover amanhã, é melhor cancelarmos a corrida. Digamos amanhã às seis da tarde — disse McBride. — Concorda?

— Não, para falar a verdade, não concordo. Sugiro que tomemos a decisão final às dez horas de sábado.

— Não é um pouco tarde, meu chapa? — perguntou Pugmire.

— Não, se os administradores alertarem o pessoal do rádio e da TV. Vai aumentar a animação. Especialmente se vocês derem a notícia hoje.

— Boa idéia — disse Crosse.

— Então, está resolvido — disse Dunross. — Mais alguma coisa?

— Não acha... é por causa da pista — disse McBride. — Não queremos estragá-la.

— Concordo inteiramente, Donald. Tomaremos a decisão final no sábado às dez. Todos a favor? — Não houve votos contrários. — Ótimo! Nada mais? Lamento, mas tenho uma reunião daqui a meia hora.

— Ah, tai-pan, lamento muito o que houve ontem... foi terrível — disse Shi-teh, constrangido.

— É. Shitee, quando nos reunirmos com o governador no conselho ao meio-dia, devemos sugerir que implante regulamentos contra incêndio novos e muito severos em Aberdeen.

— De acordo — falou Crosse. — É um milagre que mais gente não tenha morrido.

— Está falando em fechar os restaurantes, meu chapa?

— Pugmire estava chocado. Sua companhia tinha participação em dois deles. — Isso prejudicaria demais o turismo. Não dá para se colocar mais saídas... Teria que se começar do zero! Dunross voltou a olhar para Shi-teh.

— Por que não sugere ao governador que ordene que todas as cozinhas sejam instaladas imediatamente em barcaças que possam ser atracadas ao lado do navio-mãe? Carros de bombeiro poderiam ficar por perto até que todas as alterações tenham sido feitas. O custo seria modesto, haveria facilidade de operação, e o risco de incêndio seria eliminado de uma vez por todas.

Eles o fitaram. Shi-teh abriu um amplo sorriso.

— Ian, você é um gênio!

— Não. Só lamento que não tenhamos pensado nisso antes. Nunca me ocorreu. Foi uma pena a morte do Zep... e da mulher do Christian, não é? Já acharam o corpo dela?

— Acho que não.

— Sabe lá Deus quantos outros se foram! Os deputados se salvaram, Pug?

— Sim, meu velho. Exceto Sir Charles Pennyworth. O pobre coitado esmagou a cabeça contra uma sampana, quando caiu.

Dunross ficou chocado.

— Simpatizei com ele! Mas que azar desgraçado!

— Dois outros deputados estiveram perto de mim, a certa altura. Aquele filho da mãe radical, como se chama? Grey? Ah, sim, Grey, é isso. E o outro, o maldito cretino socialista, Broadhurst. Achei que os dois até que se comportaram muito bem.

— Ouvi dizer que o seu Superfoods também escapou, Pug. O nosso "Chame-me Chuck" não foi o primeiro a chegar a terra?

Pugmire deu de ombros, sem jeito.

— Não sei dizer. — Depois, abriu um sorriso. — Eu... ouvi dizer que Casey e Bartlett fizeram um belo trabalho, não foi? Quem sabe não deviam receber uma medalha?

— Por que não o sugere? — falou Dunross, ansioso por partir. — Se houver mais alguma coisa...

Crosse falou:

— Ian, se eu fosse você, tomaria uma vacina. Deve haver micróbios naquela baía que ainda nem foram inventados.

Todos riram junto com ele.

— Para falar a verdade, fiz mais do que isso. Depois que saímos da água, agarrei Linc Bartlett e Casey, e nos mandamos para o dr. Tooley. — Dunross sorriu de leve. — Quando lhe contei que estivéramos nadando na baía de Aberdeen, ele quase teve um derrame. "Bebam isso", disse, e, como um bando de cretinos, nós bebemos; antes de nos darmos conta do que acontecia, estávamos vomitando até as tripas. Se eu tivesse alguma força sobrando, teria dado um soco nele, mas estávamos todos de quatro, procurando a privada, feito uns alucinados. Depois, Casey começou a rir, por entre as ânsias de vômito, e logo estávamos rolando de rir no chão! — Acrescentou, com tristeza fingida: — Depois, antes de nos darmos conta do que estava acontecendo, o velho doutor enfiou comprimidos aos montes pela nossa goela abaixo, até que Bartlett disse "Pela madrugada, doutor, agora só falta um supositório para completar o serviço!" Eles riram de novo.