Todos ficaram olhando, esperançosos. Crosse afastou-se com Brian Kwok, chegando mais para perto.
Dunross agora subia correndo os degraus das tribunas, com sua força serena, e parou ao lado deles.
— Alô, querida, acordou cedo — falou.
— Oh, alô, papai — disse Adryon, espantada. — Não o tinha vis... O que houve com o seu rosto?
— Bati na traseira de um ônibus. Bom dia, Haply.
— Bom dia, senhor.
Haply fez menção de se levantar, mas voltou a se sentar.
— Um ônibus? — falou ela, e então, subitamente: — Amassou o Jaguar? Foi multado? — perguntou, esperançosa, tendo sido já multada três vezes naquele ano.
— Não. Acordou cedo, não foi? — falou, sentando-se ao lado dela.
— Para falar a verdade, ainda nem dormi. Passamos a noite toda acordados.
— Ah, é? — Guardou as quarenta e oito perguntas imediatas que vieram à sua mente, e comentou: — Deve estar cansada.
— Não, para falar a verdade, não estou.
— Estão comemorando alguma coisa?
— Não, na verdade o problema é o pobre Martin.
Colocou a mão meigamente no ombro do rapaz. Com esforço, Dunross manteve o sorriso tão meigo quanto a mão dela. Depois, virou-se para o jovem canadense:
— O que está havendo?
Haply hesitou, depois contou-lhe o que acontecera no jornal, quando o editor telefonara e Christian Toxe mandara que ele suspendesse a sua série de artigos sobre os boatos.
— O filho da mãe nos vendeu. Permitiu que o editor nos censurasse. Sei que estou certo. Sei que estou certo.
— Como? — indagou Dunross, pensando "Mas que filho da mãe insensível você é!"
— Desculpe, não posso revelar minha fonte.
— Não pode mesmo, papai, estaria violando a liberdade de imprensa — disse Adryon, na defensiva.
Haply mantinha os punhos cerrados. Depois, distraidamente, pôs a mão no joelho de Adryon. Ela a cobriu com a sua própria mão.
— O Ho-Pak está sendo enfiado na terra por nada.
— Por quê?
— Não sei. Mas Gor... mas há tai-pans por trás do ataque, e isso não tem sentido.
— Gornt está por trás disso? — perguntou Dunross, franzindo o cenho ante a nova idéia.
— Eu não falei Gornt, senhor, não falei mesmo.
— Ele não falou, papai — disse Adryon. — O que Martin deve fazer? Deve se demitir ou engolir o orgulho e...
— Isso eu não posso fazer, Adryon — disse Martin Haply.
— Deixe meu pai falar, ele saberá o que você deve fazer. Dunross viu que ela voltava para ele seus lindos olhos, e sentiu uma emoção ante a sua confiança inocente que nunca sentira antes.
— Duas coisas: primeiro, volte para o jornal imediatamente. Christian vai precisar de toda a ajuda que puder obter, segundo, vo...
— Ajuda?
— Não soube o que houve com a mulher dele?
— O que foi?
— Não sabe que está morta?
Eles o fitaram, assustados. Rapidamente, contou-lhes sobre Aberdeen. Os dois ficaram chocados, e Haply gaguejou:
__ Meu Deus, nós... não ouvimos rádio, nem nada... estávamos apenas dançando e conversando... — Pôs-se de pé num salto, e começou a se retirar, depois voltou: — É... é melhor eu ir logo para lá. Meu Deus!
Adryon também se levantara.
— Deixo você lá.
— Haply — disse Dunross —, peça ao Christian para enfatizar em negrito que qualquer pessoa que submergiu ou nadou naquelas águas deve procurar com urgência o seu médico... é muito importante.
— Entendido!
— Papai, você foi consultar o dr. Too... — perguntou Adryon, ansiosa.
— Claro que sim — disse Dunross. — Estou limpo por dentro e por fora. Vão andando!
— Qual era a segunda coisa, tai-pan? — perguntou Haply.
— A segunda é que você deve se lembrar de que o dinheiro é do editor. O jornal é dele, e ele pode fazer o que bem entender. Mas os editores podem ser persuadidos. Eu me pergunto, por exemplo, quem entrou em contato com ele, ou com ela, e por que eles concordaram em ligar para o Christian... se você tem tanta certeza de que sua história é verdadeira.
Subitamente, Haply abriu um amplo sorriso.
— Vamos, meu bem — falou, e gritou os seus agradecimentos. Saíram correndo de mãos dadas.
Dunross ficou sentado nas tribunas, por um momento. Soltou um profundo suspiro, depois se levantou e foi embora.
Roger Crosse e Brian Kwok estavam ocultos junto ao vestiário dos jóqueis. Crosse fizera a leitura labial da conversa do tai-pan. Observou enquanto ele se afastava, seguido pelo guarda do sei.
— Não há motivo para perdermos mais tempo aqui, Brian. Vamos indo. — Dirigiu-se para a saída mais afastada. — Será que Robert achou alguma coisa em Sha Tin?
— Aqueles malditos Lobisomens vão ficar numa boa. Hong Kong inteira vai morrer de medo. Aposto que nós... — Brian Kwok se deteve, subitamente. — Senhor! Olhe! — Indicou com um gesto de cabeça as tribunas, tendo percebido Suslev e Clinker no meio dos grupos dispersos que olhavam os cavalos, protegidos da chuva. — Não imaginei que ele já estaria acordado!
Os olhos de Crosse se estreitaram.
— É curioso. — Hesitou, depois mudou de direção, observando atentamente os lábios deles. — Já que ele nos honrou com a sua presença, é melhor batermos um papinho. Ah... já nos viram. Clinker não gosta nem um pouquinho de nós.
Vagarosamente, caminhou para as arquibancadas, Kwok atrás.
O russo grandão armou um sorriso, pegou um frasco fino e tomou um gole. Ofereceu-o a Clinker.
— Não, obrigado, companheiro, só tomo cerveja. — Os olhos frios de Clinker estavam pousados nos policiais que se aproximavam. — O ambiente está meio esnobe, não está? — falou em voz alta.
— Bom dia, Clinker — disse Crosse, com igual frieza. Depois, sorriu para Suslev. — Bom dia, comandante. Diazinho horrível, não é?
— Estamos vivos, továrich. Como o dia pode ser horrível, hem? — Suslev estava cheio de bonomia exterior, continuando a representar o seu papel de boa-praça. — Vai haver corrida no sábado, superintendente?
— Provavelmente. A decisão final será tomada no sábado de manhã. Quanto tempo vai ficar atracado aqui?
— Não muito, superintendente. Os reparos do timão são feitos com certo vagar.
— Não com vagar demasiado, espero. Ficamos muito nervosos se os nossos convidados importantes ancorados não são atendidos com toda a presteza. — A voz de Crosse era viva. — Falarei com o mestre do porto.
— Obrigado, é... muita gentileza da sua parte. E foi gentileza do seu departamento... — Suslev hesitou, depois virou-se para Clinker. — Amigão, importa-se de nos deixar a sós um instante?
— Nem um pouco — falou Clinker. — Os meganhas me deixam nervoso. — Brian Kwok olhou para ele. Clinker devolveu-lhe o olhar, sem medo, — Estou no meu carro.
Afastou-se.
A voz de Suslev endureceu.
— Foi gentileza do seu departamento devolver o corpo do nosso pobre camarada Voranski. Já achou os assassinos?
— Infelizmente, não. Podiam ser mercenários... de qualquer ponto da bússola. Naturalmente, se ele não tivesse se esgueirado para terra misteriosamente, ainda seria um operador útil do... do departamento a que servia.
— Era apenas um marujo, e um bom homem. Pensei que Hong Kong fosse um lugar seguro.
__ Passou adiante as fotos dos assassinos e a informação sobre o telefonema deles para os seus superiores do KGB?
— Não sou do KGB, dane-se o KGB! É, a informação foi passada adiante... pelo meu superior — disse Suslev, irritado.
__ Sabe como é, superintendente. Mas, pelo amor de Deus,
Voranski era um bom homem, e seus assassinos precisam ser apanhados.
— Logo os encontraremos — disse Crosse, serenamente.
__ Sabia que Voranski era na realidade o major Iúri Bakian, do Primeiro Diretório, Departamento 6, KGB?
Viram o choque estampado no rosto de Suslev.
— Ele era... apenas um amigo, para mim, e vinha conosco de vez em quando.