— Desde Genghis Khan. — Suslev riu. — Mas, agora... agora temos que ser pacientes. Você não precisa ser. — Indicou com um gesto do polegar a figura de Brian Kwok. — Por que não desacreditar aquele matieriebiets? Não gosto dele nem um pouquinho.
— O jovem Brian é muito bom. Preciso de gente boa. Informe ao Centro que Sinders, da MI-6, chega amanhã de Londres para receber os papéis de Alan Medford Grant. Tanto a MI-6 quanto a CIA suspeitam que Alan foi assassinado. Foi?
— Não sei. Devia ter sido, há anos. Como vai obter uma cópia?
— Não sei. Tenho quase certeza de que Sinders deixará que eu leia os documentos antes de voltar.
— E se não deixar? Crosse deu de ombros.
— Nós os leremos, de uma forma ou de outra.
— Dunross?
— Só em último caso. Ele é valioso demais onde está, e prefiro tê-lo sob meus olhos. E quanto ao Travkin?
— Sua informação não tem preço. Tudo foi confirmado. — Suslev contou-lhe o resumo do seu encontro com Travkin, acrescentando: — Agora, ele será nosso cão eternamente. Fará qualquer coisa que quisermos. Qualquer coisa. Acho que até mataria Dunross, se necessário.
— Ótimo. Quanto do que você lhe contou era verdade?
— Não muito — respondeu Suslev, sorrindo.
— A mulher dele está viva?
— Oh, sim, továrich, está viva.
— Mas não na sua própria dacha?
— Agora, está.
— E antes?
Suslev deu de ombros.
— Contei a ele o que me mandaram que contasse.
— O que sabe sobre o Irã? — perguntou Crosse, acendendo um cigarro.
Suslev olhou para ele vivamente, de novo.
— Um bocado. É um dos nossos oito grandes alvos restantes, e há uma grande operação funcionando lá, agora.
— A 92a Divisão de Pára-Quedistas dos Estados Unidos esta na fronteira soviético-iraniana neste exato momento! — O quê? — exclamou Suslev, boquiaberto. Crosse relatou tudo o que Rosemont lhe contara sobre a Dry Run. Quando se referiu às armas nucleares que as forças americanas possuíam, Suslev empalideceu visivelmente.
— Mãe de Deus! Qualquer dia esses americanos amaldiçoados vão cometer um erro, e então nós não conseguiremos nos safar! São idiotas de desenvolver tais armas.
— Vocês podem combatê-los?
— Claro que não, ainda não — disse Suslev, com irritação. — A essência da nossa estratégia é evitar um confronto direto até que os Estados Unidos estejam totalmente isolados e não haja dúvidas sobre a vitória final. Um confronto direto agora seria suicídio. Vou me comunicar com o Centro imediatamente.
— Enfatize que os americanos consideram a operação apenas experimental, um exercício. Mande o Centro evacuar as suas forças e acalmar a situação. Que eles o façam imediatamente, caso contrário haverá encrenca. Não ofereçam nenhuma provocação às forças americanas. Daqui a alguns dias os americanos irão embora. Não deixem "vazar" a invasão para os seus espiões internos em Washington. Deixe que a informação venha primeiro do seu pessoal na CIA.
— A 92a está mesmo lá? Parece impossível.
— É melhor que vocês aumentem o seu poderio de pára-quedistas, tornem seus exércitos mais móveis, com mais potência de fogo.
Suslev resmungou.
— As energias e recursos de trezentos milhões de russos estão canalizados para a solução desse problema, továrich. Se tivermos vinte anos... só mais vinte anos...
— E então?
— Na década de 80 dominaremos o mundo.
— Já estarei morto há muito tempo.
— Não você. Governará a província ou o país que desejar. A Inglaterra?
— Lamento, o clima lá é terrível. Exceto por um ou dois dias no ano, quando é o lugar mais belo do mundo.
— Ah, devia ver minha casa na Geórgia e as redondezas de Tiflis. — Os olhos de Suslev brilhavam. — É o Éden.
Crosse não deixava de olhar para todos os lados, enquanto conversavam. Sabia que não podiam ser ouvidos. Brian Kwok estava sentado na tribuna, esperando, quase dormindo. Rose-mont e os outros observavam-no disfarçadamente. Junto do círculo dos vencedores Jacques de Ville passeava naturalmente com Jason Plumm.
— Já falou com o Jason?
— Claro que sim, enquanto estávamos nas tribunas.
__ Ótimo. O que ele disse de De Ville?
__ Que também duvida de que Jacques seja escolhido tai-pan. Depois do encontro que tive com ele, ontem à noite, concordo, ele é obviamente fraco demais, ou amoleceu com o tempo. — E Suslev acrescentou: — Isso geralmente acontece com os agentes supersecretos que não têm nada pra fazer, só esperar. É o trabalho mais duro de todos.
— É.
__ Ele é um bom homem, mas temo que não leve a cabo a sua missão.
— O que planeja fazer com ele? — Ainda não decidi.
— Convertê-lo de espião interno em espião condenado?
— Apenas se você ou os outros da Sevrin forem ameaçados. — Para impressionar os possíveis observadores, Suslev levou o frasco aos lábios, e ofereceu-o a Crosse, que sacudiu a cabeça. Ambos sabiam que ele continha apenas água. Suslev baixou a voz. — Tenho uma idéia. Estamos aumentando nossas atividades no Canadá. É evidente que o Movimento Separatista Francês é uma tremenda oportunidade para nós. Se Quebec se desligasse do Canadá, isso abalaria o continente norte-americano inteiro, criando uma estrutura de poder inteiramente nova. Estava pensando que seria perfeito se De Ville assumisse a direção da Struan no Canadá. Que tal?
— Muito bom. Muito, muito bom — disse Crosse, sorrindo. — Também gosto de Jacques. Seria uma pena desperdiçá-lo. É, seria um golpe muito inteligente.
— É mais do que isso, Roger. Ele tem alguns amigos franco-canadenses muito importantes, dos seus dias de Paris do pós-guerra, todos abertamente separatistas, todos esquerdistas. Alguns estão se tornando uma força política nacional de destaque no Canadá.
— Ele revelaria sua posição falsa?
— Não. Jacques poderia dar impulso ao movimento separatista sem pôr sua posição e disfarce em risco. Como chefe de um ramo importante da Struan... e se um dos seus amigos especiais se tornasse ministro do Exterior, ou primeiro-ministro, hem?
— Isso é possível?
— É possível.
Crosse soltou um assobio.
Se o Canadá se bandeasse para longe dos Estados Unidos, seria o golpe dos golpes.
Depois de uma pausa, Crosse falou:
— Era uma vez um sábio chinês a quem um amigo pediu que abençoasse o seu filho recém-nascido. Sua bênção foi "Rezemos para que ele viva numa época interessante". Bem, Grigóri Petróvitch Suslev, cujo nome verdadeiro é Piotr Oleg Mzitrik, certamente vivemos numa época interessante. Não vivemos?
Suslev fitava-o, chocado.
— Quem lhe contou o meu nome?
— Seus superiores. — Crosse fitava-o, os olhos subitamente impiedosos. — Você me conhece, eu o conheço. É justo, não?
— Mas... claro. Eu... — A risada do homem era forçada. — Eu não uso esse nome há tanto tempo que... quase tinha me esquecido dele. — Voltou a fitar os olhos do outro, lutando para controlar-se. — O que há? Por que está tão nervoso, hem?
— Alan Medford Grant. Acho melhor encerrarmos esta reunião, por hoje. Nossa desculpa é que tentei suborná-lo, mas você se recusou. Vamos nos encontrar amanhã, às sete. — Sete era o número de código para o apartamento vizinho ao de Ginny Fu, em Mong Kok. — Tarde. Lá pelas onze horas.
— Dez é melhor.
Crosse indicou cautelosamente Rosemont e os outros. — Antes de você ir, preciso de alguma coisa para eles.
— Está certo. Amanhã ter...
— Tem que ser agora. — Crosse ficou duro. — Algo especial... se eu não conseguir ler a cópia de Sinders, terei que barganhar com eles.
— Você não divulgará a fonte para ninguém. Para ninguém.
— Está bem.
— Nunca?
— Nunca.
Suslev pensou por um momento, sopesando as possibilidades.