— Esta noite um dos nossos agentes receberá material ultra-secreto do porta-aviões. Que tal?
O rosto do inglês se iluminou.
— Perfeito! Foi por esse motivo que você veio?
— Um dos motivos.
— Quando e onde vai ser feita a entrega? Suslev lhe contou, depois acrescentou:
— Mas ainda vou querer cópias de tudo.
— Naturalmente. Ótimo, isso servirá muito bem. Rosemont ficará me devendo de verdade. Há quanto tempo seu auxiliar está infiltrado a bordo?
— Dois anos, pelo menos foi quando começou a trabalhar para nós.
— Ele lhe dá bom material?
— Qualquer coisa que se tire daquele prostituto é valiosa.
— Qual o preço dele?
— Para isso? Dois mil dólares. Ele não é caro, nenhum dos nossos auxiliares o é, exceto você.
Crosse deu um sorriso igualmente sem alegria.
— Ah, mas eu sou o melhor que vocês têm na Ásia, e provei minha qualidade cinqüenta vezes. Até agora tenho trabalhado praticamente por amor, meu velho.
— Seus custos, meu velho, são os maiores que temos! Compramos todo o plano de batalha da OTAN, códigos, tudo, anualmente por menos de oito mil dólares.
— Esses amadores safados estão arruinando o nosso negócio. É um negócio, não é?
— Não para nós.
— Não, uma ova! O pessoal do KGB é mais do que bem-recompensado. Dachas, casas em Tiflis, lojas especiais para fazer compras. Amantes. Mas, deixe que lhe diga: tirar dinheiro da sua companhia está ficando pior a cada ano que passa. Espero um grande aumento pela notícia da Dry Run e pelo caso Alan Medford Grant, quando estiver concluído.
— Fale diretamente com eles. Não tenho jurisdição sobre o dinheiro.
— Mentiroso! Suslev achou graça.
— É bom... e seguro... lidar com um profissional. Prosit!
Ergueu o frasco e esvaziou-o.
— Por favor, retire-se raivosamente. Sinto binóculos sobre nós! — disse Crosse abruptamente.
Prontamente, Suslev começou a xingá-lo em russo, em voz baixa, mas com veemência, depois sacudiu o punho cerrado no rosto do policial e se retirou.
Crosse ficou olhando para a figura que se afastava.
Na Sha Tin Road, Robert Armstrong estava olhando para o cadáver de John Chen, enquanto policiais de capa de chuva o enrolavam novamente no cobertor, depois o carregavam por entre a multidão embasbacada até a ambulância que esperava, peritos em impressões digitais e outros estavam por toda parte, procurando pistas. A chuva caía agora mais intensamente, e havia grande quantidade de lama em todo canto.
— Está tudo remexido, senhor — disse o sargento Lee, com azedume. — Há pegadas, mas podem ser de qualquer pessoa.
Armstrong concordou com um gesto de cabeça, e usou o lenço para secar o rosto. Havia muitos espectadores por trás das barreiras toscas erigidas ao redor da área. O tráfego que passava pela rua estreita estava vagaroso, quase congestionado, todo mundo buzinando, irritado.
— Que os homens continuem revistando numa área de cem metros. Mande alguém à aldeia mais próxima, alguém pode ter visto alguma coisa. — Deixou Lee e foi até o carro da polícia. Entrou, fechou a porta e apanhou o transmissor. — Aqui fala Armstrong. Ligue-me com o inspetor-chefe Donald Smyth em Aberdeen Leste, por favor.
Começou a esperar, sentindo-se péssimo.
O motorista era jovem, esperto e ainda estava seco.
— A chuva é uma maravilha, não é, senhor? Armstrong olhou para ele, com azedume. O jovem empalideceu.
— Fuma?
— Sim, senhor. — O rapaz pegou o seu maço e ofereceu-o. Armstrong ficou com o maço inteiro. — Por que não se reúne aos outros? Precisam de um rapaz esperto como você para ajudá-los. Ache algumas pistas, tá?
— Sim, senhor — respondeu o jovem, fugindo para dentro da chuva.
Cuidadosamente, Armstrong apanhou um cigarro. Contemplou-o. De cara fechada, devolveu-o ao maço, e enfiou-o num bolso lateral. Encolhendo-se no banco do carro, resmungou:
— Danem-se todos os cigarros, dane-se a chuva, dane-se aquele sabichão, e, mais do que tudo, danem-se os danados dos Lobisomens!
Dali a pouco o intercomunicador começou a funcionar.
— Fala o inspetor-chefe Donald Smyth.
— Bom dia! Estou aqui em Sha Tin — começou Armstrong, contando-lhe o que acontecera e como encontrara o corpo. — Estamos examinando toda a área, mas não creio que possamos encontrar alguma coisa nesta chuva. Quando os jornais souberem do cadáver e da mensagem, vão cair no nosso pêlo. Acho melhor prendermos a velha amah imediatamente. Ainda é a única pista que temos. Vocês ainda a mantêm sob vigilância?
— Ora, ainda!
— Ótimo. Espere por mim, depois atacaremos. Quero revistar a casa dela. Deixe uma equipe a postos.
— Quanto tempo você vai demorar?
__ Vou levar umas duas horas para chegar até aí. O tráfego está engarrafado daqui até as balsas.
— Aqui também. Por toda a área de Aberdeen. Mas não é só por causa da chuva, meu rapaz. Deve haver uns mil mórbidos espiando o desastre de ontem, e ainda temos as malditas turbas no Ho-Pak, no Victoria... para falar a verdade, em toda porra de banco da vizinhança, e já me contaram que deve haver umas quinhentas pessoas se reunindo diante do Vic, na zona central.
— Santo Deus! Todas as minhas economias de merda estão lá, porra!
— Não lhe falei ontem para retirar tudo, meu velho? — Armstrong ouviu a risada do Cobra. — E, a propósito, se tiver algum dinheiro sobrando, venda ações da Struan a descoberto... ouvi dizer que a Casa Nobre vai entrar em colapso.
41
8h29m
Claudia apanhou um bolo de notas, cartas e respostas da bandeja de "saída" de Dunross e começou a folheá-las. Chuva e nuvens baixas obscureciam a vista, mas a temperatura era baixa e muito confortável, depois da forte umidade da semana anterior. O relógio antigo, preso por argolas de prata, que ficava sobre a cornija da lareira, bateu oito e meia.
Um dos telefones tocou. Ela ficou olhando, mas sem fazer menção de atender. Continuou tocando e tocando, até cessar. Sandra Yi, a secretária de Dunross, entrou com nova leva de documentos e correspondência e voltou a encher a bandeja de "entrada".
— A minuta do contrato da Par-Con está em cima, Irmã Mais Velha. Eis aqui a lista dos compromissos dele para hoje, pelo menos aqueles de que tenho conhecimento. O superintendente Kwok ligou faz dez minutos. — Ela enrubesceu ante o olhar de Claudia, o cheong-sam justo e fendido até em cima, o colarinho alto, como estava na moda. — Ligou para o tai-pan, não para mim, Irmã Mais Velha. Pediu para o tai-pan fazer a gentileza de telefonar depois para ele.
— Mas espero que tenha batido um longo papo com o Honorável Jovem Garanhão, e soltado suspiros e gemidos maravilhosos — replicou Claudia em cantonense. Depois passou para o inglês, sem perceber, ainda folheando os papéis enquanto falava, arrumando-os em duas pilhas diferentes. — Afinal de contas ele deve ser traçado e anexado rapidamente à família, antes que alguma puxa-saco de outro clã o agarre.
— É, sim. Também acendi cinco velas em cinco templos diferentes.
— Espero que nas suas horas de folga, não no horário de trabalho da companhia.
— Oh, sem dúvida! — As duas riram. — Mas temos um encontro marcado... vamos jantar amanhã.
— Excelente! Seja recatada, vista-se discretamente, mas não use sutiã... como Orlanda.
— Oh, então foi verdade! Puxa, acha que devo? — perguntou Sandra Yi, chocada.
— Para o jovem Brian, deve. — Claudia deu uma risadinha abafada. — Ele tem faro, o rapaz!
— Minha cartomante disse que este ia ser um ano maravilhoso para mim. Que coisa terrível o incêndio, não foi?
— Foi. — Claudia examinou a lista de compromissos. Linbar dali a alguns minutos, Sir Luís Basílio às oito e quarenta e cinco. — Quando Sir Luís chegar...
— Sir Luís está esperando agora na minha sala. Sabe que chegou cedo... já lhe dei café, e os jornais da manhã. — A fisionomia de Sandra Yi ficou apreensiva. — O que vai acontecer às dez?