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— Não, absolutamente, sr. Kirk.

— Alan me deu um pacote para lhe ser entregue, e também queria que eu conversasse com o senhor. Minha... minha mulher e eu passaremos três dias em Hong Kong, portanto eu... gostaria de saber se podemos nos encontrar.

— Naturalmente. Onde está hospedado? — perguntou calmamente, embora seu coração estivesse disparado.

— No Nove Dragões, em Kowloon, quarto 455.

— Quando viu Alan pela última vez, sr. Kirk?

— Quando saímos de Londres, está fazendo agora duas semanas. É, exatamente duas semanas. Estivemos... estivemos em Cingapura e na Indonésia. Por quê?

— Seria conveniente para o senhor depois do almoço?

Lamento, mas estarei ocupadíssimo até três e vinte. Poderia recebê-lo, então, se for conveniente para o senhor.

— Para mim, três e vinte está ótimo.

— Mandarei um carro ir apanhá-lo e...

— Oh, não há necessidade de se... incomodar. Saberemos como chegar ao seu escritório.

— Não é incômodo algum. Um carro os apanhará às duas e meia.

Dunross desligou o telefone, imerso em pensamentos.

O relógio bateu oito e quarenta e cinco. Uma batidinha. Claudia abriu a porta.

— Sir Luís Basílio, tai-pan.

Johnjohn, do Victoria, estava berrando ao telefone:

— ... estou me lixando para o que vocês, cretinos, em Londres pensem, estou lhe dizendo que estamos com um começo de corrida aqui, e a coisa está fedendo mesmo. Eu... o quê? Fale mais alto, homem! A ligação está péssima... O quê?... Pouco se me dá que seja uma e meia da madrugada... onde diabo você estava metido?... há quatro horas que venho tentando falar com você!... O quê?... Aniversário de quem? Deus todo-poderoso... — Suas sobrancelhas avermelhadas subiram bem alto, e ele tentou se controlar. — Ouça, vá para a City e a Casa da Moeda o mais cedo possível e diga a eles... Alô?... É, diga-lhes que esta porra de ilha pode ficar completamente sem dinheiro e... Alô?... Alô?... Ora, puta que o pariu! — Começou a apertar repetidamente o interruptor. — Alô? — Largou com violência o fone no gancho, soltou alguns palavrões, e depois apertou o botão do intercomunicador. — Srta. Mills, a ligação foi cortada, por favor, refaça a ligação o mais depressa que puder.

— Certamente — respondeu a voz serena, muito inglesa. — O sr. Dunross está aqui.

Johnjohn olhou para o relógio e empalideceu. Eram nove e trinta e três.

— Ah, meu Deus! Não faça a ligação agora, é... não faça, eu... — Apressadamente, largou o fone, correu até a por-ta, forçou uma fisionomia serena e abriu a porta com naturalidade estudada. — Meu caro Ian, desculpe tê-lo feito esperar. Como vão as coisas?

— Muito bem, e com você?

— Tudo maravilhoso!

Maravilhoso? Que interessante! Deve haver uns seiscentos ou setecentos clientes impacientes formando fila do lado de fora, e ainda falta meia hora para o banco abrir. Também há alguns diante do Blacs.

— Mais do que alguns... — Johnjohn interrompeu-se a tempo. — Não há motivo para preocupação, Ian. Quer tomar um café ou vamos direto para a sala de Paul?

— Para a sala do Paul.

— Ótimo. — Johnjohn foi na frente, descendo o corredor forrado de espesso carpete. — Não, não há nenhum problema, só alguns chineses supersticiosos... sabe como são, boatos e tudo o mais. Uma coisa horrível, o incêndio. Ouvi dizer que Casey tirou a roupa e mergulhou como um salva-vidas. Esteve no hipódromo, hoje? Esta chuva está formidável, hem?

A inquietação de Dunross aumentou.

— É. Ouvi dizer que há filas diante de quase todos os bancos da colônia. Exceto do Banco da China.

Johnjohn soltou uma risada oca.

— Nossos amigos comunistas não veriam com bons olhos uma corrida ao seu banco. Enviariam tropas!

— Então a corrida existe?

— Ao Ho-Pak, sim. Ao nosso banco? Não. De qualquer maneira, não estamos nem de longe tão fora dos nossos limites quanto Richard Kwang. Parece que ele realmente fez alguns empréstimos bem perigosos. Infelizmente, o Ching Prosperity também não está numa boa. Bem, mas o Ching Sorridente bem que merece uma esfrega depois de tantos anos lidando com empreendimentos tão dúbios.

— Drogas?

— Não sei dizer, Ian. Não oficialmente. Mas os boatos são fortes.

— Mas você afirma que a corrida não vai alcançar vocês?

— Não mesmo. Se alcançar... bem, tenho certeza de que tudo ficará bem.

Johnjohn continuou a descer o largo corredor de lambris. Tudo no ambiente era faustoso, sólido e seguro. Fez um gesto de cabeça para a secretária inglesa idosa, passou por ela e abriu a porta em que se lia paul Havergill, vice-presidente da junta diretora. A sala era ampla, com lambris de carvalho, a escrivaninha imensa e livre de papéis. As janelas davam para a praça.

— Ian, meu caro! — Havergill se levantou e estendeu a mão. — Lamento muito não ter podido atendê-lo ontem, e a festa de ontem à noite não era exatamente o local para se tratar de negócios, não é? Como está se sentindo?

— Bem. Acho. Até agora. E você?

— Estou um pouco desarranjado, mas Constance está bem, graças a Deus. Logo que chegamos a casa, os dois tomamos uma boa dose do velho e bom Remédio do Dr. Colicos.

Era um elixir inventado durante a Guerra da Criméia pelo dr. Colicos para curar distúrbios estomacais quando dezenas de milhares de soldados britânicos morriam de tifo, cólera e disenteria. A fórmula ainda era um segredo.

— Um remédio fantástico! O dr. Tooley também nos deu um pouco.

— Uma desgraça o que houve com os outros, não? A mulher de Toxe, hem?

Johnjohn disse, solenemente:

— Ouvi dizer que encontraram o corpo dela sob uma das estacas, hoje de manhã. Se eu não tivesse recebido um bilhete cor-de-rosa, Mary e eu também teríamos estado lá.

Um bilhete cor-de-rosa significava que você tinha a permissão da sua mulher para sair sem ela à noite, para jogar cartas com amigos, para ir ao Clube, para mostrar a cidade a visitantes, ou lá o que fosse... mas com a permissão benevolente dela.

— É? — Havergill sorriu. — Quem era a moça de sorte?

— Eu estava jogando bridge com McBride no Clube. Havergill riu.

— Bem, a discrição é uma coisa importantíssima, e temos que pensar na reputação do banco.

Dunross sentiu a tensão na sala entre os dois homens. Sorriu educadamente, esperando.

— Em que posso servi-lo, Ian? — indagou Havergill.

— Quero cem milhões extras de crédito por trinta dias. Fez-se um silêncio mortal. Os dois homens o fitavam.

Dunross pensou ver a sombra de um sorriso surgir por trás dos olhos de Havergill.

— Impossível! — ouviu-o dizer.

— O Gornt está preparando um ataque contra nós, é óbvio para qualquer um. Vocês dois sabem que estamos firmes, seguros e em boa forma. Preciso do seu apoio aberto e maciço, então ele não ousará prosseguir, e eu não precisarei realmente do dinheiro. Mas preciso do compromisso de vocês. Agora.

Novo silêncio. Johnjohn esperava e observava. Havergill acendeu um cigarro.

— Como está a situação com a Par-Con, Ian? Dunross contou-lhes.

Assinamos na terça-feira — concluiu. Podemos confiar no americano?

— Fizemos um trato.

Outro silêncio. Constrangido, Johnjohn rompeu-o.

— É um negócio muito bom, Ian.

— É. Com o apoio aberto de vocês, Gornt e o Blacs retirarão o seu ataque.

— Mas cem milhões? — exclamou Havergill. — Está além de qualquer possibilidade.

— Já disse que não precisarei da quantia toda.

— Isso são suposições, meu caro. Poderíamos nos envolver num grande jogo de forças contra a nossa vontade. Ouvi boatos de que Quillan tem financiamento externo, apoio alemão. Não podemos correr o risco de entrar em luta com um consórcio de bancos alemães. Você já ultrapassou o limite do seu crédito. E ainda há as quinhentas mil ações que você comprou hoje, que terão que ser pagas até segunda-feira. Desculpe, mas a resposta é não.