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— Oh... desculpe, doutor — disse ela rapidamente, interrompendo-o, subitamente muito branca. — Eu... acho...

Saiu da cama e dirigiu-se rápida e desajeitadamente para o banheiro. A porta se fechou atrás dela. Havia uma gota de sangue nas costas da sua camisola.

— Ela está bem? — perguntou Marlowe, a fisionomia rígida.

— Está com trinta e oito e meio de febre, a pulsação está alta. Pode ser apenas uma gastroenterite... — disse o médico, olhando para ele.

— Pode ser hepatite?

— Não, não tão depressa. O período de incubação vai de seis semanas a dois meses. Infelizmente, essa espada está pendendo sobre a cabeça de todos. Lamento. — Uma rajada de chuva e vento fustigou as vidraças. Ele olhou naquela direção e franziu o cenho, lembrando-se de que não havia mencionado o perigo de hepatite a Dunross e aos americanos. "Talvez seja melhor esperar para ver no que dá, e ser paciente. Joss", pensou. — Dois meses, para ficar completamente seguro. Os dois tomaram todas as vacinas, portanto não deve haver perigo de tifo.

— E o bebê?

— Se as cólicas piorarem, ela poderá sofrer um aborto espontâneo, sr. Marlowe — disse o médico, suavemente. — Lamento, mas é melhor saber. Seja como for, não será fácil para ela. Só Deus sabe os vírus e bactérias que existem em Aberdeen. O lugar é um esgoto público, faz já um século. É chocante, mas nada podemos fazer a respeito. — Remexeu no bolso, procurando o bloco de receitas. — Não se pode modificar os chineses, ou os hábitos de séculos. Sinto muito.

— Joss — disse Peter Marlowe, sentindo-se péssimo. — Todo mundo vai ficar doente? Devia haver uns quarenta ou cinqüenta de nós nos debatendo na água... era impossível não engolir um pouco daquela sujeira.

O médico hesitou.

— Dos cinqüenta, talvez cinco fiquem muito doentes. Cinco ficarão incólumes, e o resto vai ficar no meio. Os yan de Hong Kong, o pessoal local, deverão ser menos afetados do que os visitantes. Mas, como você disse, tem muito a ver com Joss. — Achou o bloco. — Vou lhe receitar um antibiótico intestinal moderno, mas continuem com o velho e bom Remédio do Dr. Colicos... vai dar um jeito nas suas barriguinhas, Vigie-a com muito cuidado. Tem um termômetro?

— Sim, claro! Com... — Um espasmo percorreu Peter

Marlowe, sacudiu-o e se foi. — Viajando com crianças, a gente tem que ter um estojo de emergência.

Os dois homens tentavam não olhar para a porta do banheiro. Podiam ouvi-la parcialmente, enquanto sua dor aumentava e diminuía.

— Quantos anos têm seus filhos? — perguntou o dr.

Tooley, distraidamente, tentando não demonstrar na voz a preocupação que sentia. Ao chegar, notara o caos alegre do minúsculo segundo dormitório que dava para a sala pequena e singela. No quartinho mal cabia o beliche duplo, e havia brinquedos espalhados por toda parte. — Minhas filhas já são crescidas. Tenho três moças.

— Como? Ah, as nossas têm quatro e oito anos... duas meninas.

— Têm uma amah?

— Temos, sim. Com toda essa chuva, hoje de manhã, ela levou as crianças à escola. Vão até o porto e pegam um bo-pi.

— O bo-pi era um táxi sem licença, totalmente ilegal, mas quase todo mundo se utilizava dele, de vez em quando. — A escola fica numa transversal da Garden Road. Na maior parte dos dias, elas insistem em ir por conta própria. Sentem-se perfeitamente seguras.

— Mas, sim, claro que sim.

Estavam agora de ouvidos atentos ao tormento dela. Cada esforço abafado refletia-se nos dois homens.

— Bem, não se preocupe — disse o médico, hesitante.

— Mandarei entregar aqui os remédios... há uma farmácia no hotel. Mandarei pôr na sua conta. Voltarei logo mais às seis horas, o mais próximo das seis que puder. Se houver algum problema... — Estendeu gentilmente uma folha do receituário.

Aqui está meu telefone. Não hesite em me chamar, ouviu?

— Obrigado. Bem, e quanto à sua conta?

— Não se preocupe com isso, sr. Marlowe. O que importa primeiro é que fiquem bem. — O dr. Tooley concentrava-se na porta. Estava com receio de ir embora. — Pertenceu ao exercito?

— Não. À força aérea.

— Ah! Meu irmão foi piloto. Espatifou-se em... Interrompeu-se. Fleur Marlowe chamava, hesitante, do outro lado da porta:

— Doutor... será que... por favor... Tooley foi até junto da porta. — Sim, sra. Marlowe? Está bem? — Será que... que... por favor...

Ele abriu a porta e fechou-a atrás de si. O fedor azedo no banheiro minúsculo era intenso, mas ele não ligou.

— Eu... — começou ela, interrompendo-se ao sentir novo espasmo.

— Vamos, não se preocupe — disse, acalmando-a, e colocou uma das mãos nas costas dela e outra no seu estômago, ajudando-a a sustentar seus torturados músculos abdominais. As mãos a massagearam suavemente, e com perícia. — Pronto, pronto! Pode relaxar, não vou deixá-la cair. — Sentiu os músculos retesados sob os dedos, e transmitiu sua força e calor para ela. — Você tem mais ou menos a idade de minha filha, a mais moça. Tenho três, e a mais velha tem dois filhos... Pronto, pode relaxar, pense que a dor vai passar. Logo vai se sentir bem, sem dor...

Dali a pouco as cólicas passaram.

— Eu... Deus, des... desculpe. — A moça tateou em busca de papel higiênico, mas logo foi tomada por outra cólica, e mais outra. Era desconfortável para ele, ali no banhei-rinho, mas cuidou dela e manteve as mãos fortes sustentando-a da melhor maneira possível. Sentiu uma pontada nas costas. Ela disse: — Estou... estou bem, agora. Obrigada.

Ele sabia que não era verdade. Estava ensopada de suor. Ele passou um pano molhado no rosto dela, depois secou-o. A seguir, ajudou-a a se levantar, sustentando-lhe o peso, acalmando-a o tempo todo. Limpou-a. O papel deixava ver vestígios de sangue, e havia vestígios de muco com sangue também na água suja do vaso, mas ela ainda não estava tendo hemorragia, e ele soltou um suspiro de alívio.

— Vai ficar boa — disse ele. — Pronto, espere um minuto. Não tenha medo! — Fez com que ela se segurasse na pia. Rapidamente, dobrou uma toalha seca ao comprido e amarrou-a na barriga dela, bem apertada, dobrando as pontas para dentro para ficar bem firme. — Isso é o melhor que existe para dor de barriga, o melhor mesmo. Sustenta a barriga e aquece-a. Meu pai também era médico, no exército indiano, e jurava que não havia coisa melhor. — Olhou para ela, atentamente. — É uma moça muito corajosa. Vai ficar boa. Pronta?

— Sim. Des... desculpe o que...

Ele abriu a porta. Peter Marlowe correu a ajudar. Puseram-na na cama.

Ela ficou largada ali, exausta, uma mecha de cabelo molhado na testa. O dr. Tooley afastou-a e fitou-a, pensativo.

— Acho, mocinha, que vamos interná-la numa casa de saúde, por um ou dois dias.

— Ah, mas... mas...

— Não há com que se preocupar. Mas é melhor darmos ao futuro bebê todas as chances, não é? E com duas crianças pequenas aqui para cuidar... Dois dias de descanso serão o bastante. — A voz áspera dele os tocou, acalmando-os. — Tomarei as providências e voltarei daqui a um quarto de hora. — Olhou para Peter Marlowe por sob as sobrancelhas espessas. — A casa de saúde fica em Kowloon. Isso evitará qualquer viagem longa para a ilha. Muitos de nós a usamos, e é boa, limpa, e equipada para qualquer emergência. Não quer arrumar uma maleta para ela? — Anotou o endereço e o telefone. — Pronto, mocinha, volto daqui a pouquinho. Vai ser melhor. Assim não terá que se preocupar com as crianças. Sei como isso angustia, quando se está doente. — Sorriu para ambos. — Não se preocupe com coisa alguma, ouviu, sr. Marlowe? Vou falar com o seu criado e pedir-lhe que ajude a manter tudo em ordem por aqui. E não se preocupem com dinheiro. — As rugas fundas ao redor dos seus olhos ficaram ainda mais fundas. — Somos muito filantrópicos, aqui em Hong Kong, com nossos jovens convidados.