Выбрать главу

Retirou-se. Peter Marlowe sentou-se na cama. Desconsolado.

— Espero que as crianças tenham chegado direitinho ao colégio — disse ela.

— Claro que sim. Ah Sop é ótima.

— Como vai se arranjar?

— Muito bem. Vou bancar a dona-de-casa por um dia ou dois.

Ela se moveu, cansada, apoiando-se numa das mãos e observando a chuva, e, para além dela, o hotel cinzento do outro lado da rua estreita, que ela detestava porque tirava a vista do céu.

— Eu... espero que não vá... custar muito — falou, a voz tênue.

— Não se preocupe com isso, Fleur. Não haverá problemas. A Associação dos Escritores pagará.

— Pagará mesmo? Aposto que não, Peter, não a tempo. Droga! O nosso... nosso orçamento já está tão apertado!

— Sempre posso fazer um empréstimo contando com o dinheiro do dane-se do ano que vem. Não...

— Oh, não! Não vamos fazer isso, Peter. Não podemos. Já resolvemos. Caso... contrário, você vai ficar enredado de... novo.

— Alguma coisa vai aparecer — disse ele, confiante. — mês que vem há uma sexta-feira 13, e isso sempre nos trouxe sorte. — Seu romance tinha sido publicado num dia 13, e entrara para a lista de best sellers num dia 13. Há três anos, quando eles estavam na pior, fora num dia 13 que ele assinara um bom contrato como roteirista. Seu primeiro trabalho como diretor fora confirmado num dia 13. E em abril do ano anterior, na sexta-feira 13, um dos estúdios de Hollywood comprara os direitos cinematográficos do seu romance por cento e cinqüenta e sete mil dólares. O agente ficara com dez por cento, e então Peter Marlowe dividira o restante pelos próximos cinco anos. Cinco anos de dinheiro do dane-se para a família: vinte e cinco mil a cada mês de janeiro. O suficiente, com controle, para despesas médicas e escolares, hipoteca, carro e outros pagamentos... cinco anos gloriosos de libertação de todos os problemas de costume. E liberdade de recusar um serviço de diretor-roteirista para vir passar um ano em Hong Kong, sem ganhar nada, mas livre para pesquisar o segundo livro. "Oh, Deus", pensou Peter Marlowe, subitamente aterrorizado. "Que diabo estou procurando afinal? Que diabo estou fazendo aqui?" — Meu Deus — falou, infeliz —, se eu não tivesse insistido para irmos àquela festa, isso não teria acontecido.

— Joss. — Ela deu um débil sorriso. — Joss, Peter. Lembre-se do que você está... sempre me dizendo. Destino, sorte, azar, é só joss, Peter. Ah, Meu Deus, como me sinto mal!

42

10h01m

Orlanda Ramos abriu a porta do seu apartamento e pôs o guarda-chuva ensopado num porta-guarda-chuvas.

— Entre, Linc — disse, radiante. — Minha casa é sua casa — falou em português, traduzindo depois.

— Tem certeza? — perguntou Linc, sorrindo. Ela riu e falou, brincalhona:

— Ah! Isso vamos ver. É só um velho costume português, de oferecer a casa da gente.

Ela estava tirando a capa de chuva brilhante, na última moda. No corredor, ele fazia o mesmo com um impermeável ensopado e muito usado.

— Pronto, deixe que eu penduro — disse a moça. — Ah, e não ligue para o molhado, a amah enxugará. Entre.

Ele notou que a sala era jeitosa e impecável, muito feminina, de bom gosto e acolhedora. Ela fechou a porta atrás dele e pendurou seu casaco num gancho. Ele foi até as portas envidraçadas que davam para uma varandinha. O apartamento ficava no oitavo andar do Rose Court, na Kotewall Road.

— A chuva é sempre assim tão forte? — perguntou ele.

— Num tufão de verdade é muito pior. Talvez de trezentos a quatrocentos e cinqüenta milímetros num dia. Há também os deslizamentos de lama, e as áreas de recolonização são destruídas pelas águas.

Ele olhava para baixo, através da neblina. A maior parte da vista era bloqueada pelos prédios altos, construídos ao longo das estradas sinuosas cavadas na encosta das montanhas. Aqui e ali ele podia ver trechos da zona central e da orla marítima, lá embaixo.

— É como estar num avião, Orlanda. Numa noite gostosa deve ser fantástico.

— É. É, sim. Eu adoro isso aqui. Dá para se ver Kowloon inteira. Antes de construírem o Sinclair Towers, aquele prédio bem em frente, tínhamos a vista mais linda de Hong Kong.

Sabia que a Struan é dona do Sinclair Towers? Acho que Ian Dunross mandou construí-lo para irritar a Quillan. Quillan tem o apartamento de cobertura aqui no prédio... pelo menos, tinha.

— E atrapalhou a vista dele?

— Arruinou-a.

— Foi um ataque dispendioso.

— Não. Os dois prédios são altamente rendosos. Quillan me contou que tudo em Hong Kong é amortizado ao longo de três anos. Tudo. O negócio é possuir imóveis. Você podia ficar... — Ela riu. — Podia aumentar sua fortuna se quisesse.

— Se eu ficar, onde devo morar?

— Aqui em Mid Leveis. Subindo mais o Pico, é tudo muito úmido, as paredes suam, tudo fica mofado.

Ela tirou o lenço de cabeça, sacudiu a cabeleira, depois sentou-se no braço de uma cadeira, olhando para as costas dele, esperando pacientemente.

— Há quanto tempo você mora aqui? — indagou ele.

— Há cinco, quase seis anos. Desde que o prédio foi construído.

Ele se virou, apoiando-se na janela.

— É formidável — disse ele. — E você também é.

— Obrigada, gentil senhor. Quer um pouco de café?

— Por favor. — Linc Bartlett correu os dedos pelos cabelos, olhando para um quadro a óleo. — É um Quance?

— É. É, sim. Foi Quillan quem me deu. Espresso?

— Sim. Preto, por favor. Gostaria de entender mais de pintura... — Já ia acrescentar "Casey entende", mas se deteve e ficou vendo a moça abrir uma das portas. A cozinha era grande, moderna e muito bem equipada. — Puxa, está parecendo coisa de Casa e Jardim!

— Foi tudo idéia do Quillan. Ele adora comida e adora cozinhar. Tudo aqui foi ele que projetou... o resto do apartamento foi decorado por mim, embora tenha aprendido com ele a diferenciar o bom do cafona.

— Lamenta ter acabado tudo com ele?

— Sim e não. É o destino, carma. Ele... era joss. Tinha chegado a hora. — A serenidade dela emocionou-o. — Nunca poderia ter durado. Nunca. Não aqui. — Notou que uma tristeza a invadiu, momentaneamente, mas ela a afastou e se ocupou com a impecável máquina de café. Todas as prateleiras brilhavam. — Quillan era maníaco por ordem e limpeza, e graças a Deus eu peguei o hábito. Minha amah, Ah Fat, me deixa maluca.

— Ela mora aqui?

— Ah, sim, naturalmente, mas saiu para fazer compras... o quarto dela fica no fim do corredor. Pode dar uma olhada por aí, se quiser. Não vou demorar quase nada.

Cheio de curiosidade, ele aceitou a sugestão. Uma boa sala de jantar com uma mesa redonda de oito lugares. O quarto dela era branco e rosa, leve e delicado, com cortinas macias cor-de-rosa que caíam do teto ao redor da cama enorme. Havia flores, num arranjo delicado. Um banheiro moderno, ladrilhado e perfeito, com toalhas combinando. Um segundo dormitório, com livros, telefone, hi-fi e uma cama menor, tudo muito arrumado e de bom gosto.

"Ela é mais organizada do que Casey", pensou, lembrando-se da desarrumação gostosa e informal da sua casinha no vale de Los Angeles, tijolinhos vermelhos, pilhas de livros por toda parte, churrasqueira, telefones, copiadoras e máquinas de escrever elétricas. Aborrecido por ter pensado e por estar automaticamente comparando-as, voltou à cozinha com passos silenciosos, ignorando o quarto da amah. Orlanda concentrava-se na máquina de fazer café, sem perceber que ele agora a observava. Gostava de observá-la.