Pela manhã ligara para ela bem cedo, muito preocupado, acordando-a, querendo lembrar-lhe de procurar um médico, por via das dúvidas. Na confusão da véspera, quando ele e Casey tinham finalmente chegado em terra, ela já tinha ido para casa.
— Ah, obrigada, Linc, quanta gentileza em me telefonar! Não, estou bem — disse, atropelando as palavras, contente. — Pelo menos, agora estou. Você está bem? E Casey está bem? Ah, nem sei como agradecer, eu estava apavorada... Você salvou minha vida, você e Casey...
Tagarelaram alegremente ao telefone, e ela prometeu ir ao médico, de qualquer forma, e depois ele a convidou para tomarem café juntos. Ela aceitou imediatamente, e ele se mandou para o lado de Hong Kong, curtindo a chuvarada, a temperatura agradável. Tomaram o desjejum no topo do Mandarim, ovos Benedict, torradas e café, sentindo-se ótimos, Orlanda animadíssima e muito agradecida a ele e a Casey.
— Pensei que era uma mulher morta. Sabia que ia me afogar, Linc, mas estava assustada demais para gritar. Se você não tivesse agido tão rapidamente, eu jamais... Mal mergulhei a querida Casey estava lá, e eu estava viva de novo, e segura, antes de me dar conta do que acontecera...
Foi o melhor desjejum que já tivera. Ela o paparicou, em pequenas coisas, passando-lhe a torrada, servindo o café, sem que ele precisasse pedir, apanhando o guardanapo dele quando caiu, entretendo, e sendo entretida, confiante e feminina, fazendo com que ele se sentisse masculino e forte. E uma vez estendeu a mão e apoiou-a no braço dele, dedos longos, unhas bem-tratadas. A sensação daquele toque permanecia na sua pele. Depois, ele a levara para casa, e dera um jeito para que ela o convidasse a subir, e agora ali estava ele, observando-a concentrar-se na cozinha, saia de seda e botas de chuva de estilo russo, uma blusa solta ajustada na cintura minúscula, deixando seus olhos percorrerem-na.
"Meu Deus", pensou, "é melhor eu tomar cuidado. "
— Oh, não o tinha visto, Linc. Você tem o andar leve para um homem da sua altura!
— Desculpe.
— Não se desculpe, Linc! — O vapor chiou até um crescendo. Gotinhas negras começavam a encher as xícaras. — Um pouquinho de limão?
— Obrigado. E você?
— Não. Prefiro cappuccino.
Ela esquentou o leite, o barulho gostoso e o cheiro do café fantástico, depois levou a bandeja até a copa. Colheres de prata e porcelana fina, ambos cônscios do clima reinante no aposento, mas fingindo não haver nenhum.
Bartlett sorveu o seu café.
— Está uma delícia, Orlanda! O melhor que já tomei. Mas é diferente.
— É a pitada de chocolate.
— Gosta de cozinhar?
— Gosto, sim, muito. Quillan disse que eu era boa aluna. Adoro cuidar da casa e organizar festas, e Quillan sempre... — Havia uma pequena ruga no seu rosto, agora. Olhou diretamente para ele. — Parece que estou sempre falando nele. Desculpe, mas ainda é... ainda é automático. Ele foi o primeiro homem na minha vida... o único... portanto é uma parte indelével de mim.
— Não precisa explicar, Orlanda, eu compreen...
— Eu sei, mas quero explicar. Não tenho amigos de verdade, nunca falei dele com ninguém, nunca tive vontade, mas agora... bem, gosto de estar com você e... — Um sorriso imenso e repentino iluminou-a. — Mas é claro! Tinha me esquecido! Agora você é responsável por mim!
Ela riu e bateu palmas com as mãozinhas delicadas.
— O que quer dizer?
— Segundo os costumes chineses, você interferiu no joss, ou o destino. Foi, sim. Interferiu nos desígnios dos deuses. Você salvou minha vida, porque sem você eu teria morrido na certa, ou provavelmente teria morrido, mas cabia aos deuses decidir. Mas porque você interferiu e assumiu as responsabilidades deles, agora tem que cuidar de mim para sempre! É um costume chinês sensato e bom! — Os olhos dela dançavam, e ele nunca tinha visto brancos dos olhos tão brancos, pupilas castanho-escuras tão límpidas, ou um rosto tão agradável. — Para sempre!
— Negócio feito! — riu ele junto com a moça, a força da alegria dela a cercá-lo.
— Ah, que bom! — falou, depois ficou um pouco mais séria, e tocou-lhe o braço. — Estava só brincando, Linc. Você é tão galante... e não estou acostumada com tanta galanteria. Eu o libero formalmente... a minha metade chinesa o libera.
— Talvez eu não queira ser liberado. Imediatamente, notou que os olhos dela estavam maiores.
Sentia uma opressão no peito, o coração batendo mais rápido. O perfume dela o tantalizava. Abruptamente, a força entre eles se manifestou. Estendeu a mão e tocou o cabelo dela, sedoso e fino, sensual. Primeiro toque. Acariciando-a. Um pequeno arrepio, e logo estavam se beijando. Sentiu os lábios macios dela, acolhedores, só um pouco úmidos, sem batom, o gosto tão limpo e bom!
A paixão aumentou. A mão dele moveu-se para o seio dela, e o calor atravessou a seda. Ela estremeceu de novo e tentou debilmente recuar, mas ele a segurava com firmeza, o coração disparado, acarinhando-a. Depois as mãos dela dirigiram-se para o peito dele, e ali ficaram por algum tempo, tocando-o. Depois o empurraram de leve, e ela interrompeu o beijo, mas continuou junto dele, recobrando o fôlego, o coração disparado, tão intoxicada quanto ele.
— Linc... você...
— Você é tão gostosinha! — disse ele, suavemente, abraçando-a. Inclinou-se para beijá-la de novo, mas ela evitou o beijo.
— Espere, Linc, primeiro...
— Primeiro beijar, depois esperar!
Ela riu. A tensão foi rompida. Ele se xingou por ter cometido aquele erro, o seu desejo forte, atiçado pelo dela. Agora, o momento havia passado, e estavam esgrimindo de novo. A raiva o invadiu, mas, antes que ela tomasse conta dele, a moça se esticou e beijou-o com toda a perfeição. A raiva desapareceu imediatamente. Só o calor permaneceu.
— Você é forte demais para mim, Linc — disse, a voz roufenha, os braços ao redor do pescoço dele, mas cautelosamente. — Forte demais, atraente demais e simpático demais, e verdadeiramente, verdadeiramente devo-lhe a vida.
A mão dela acariciou-lhe o pescoço, e ele sentiu a carícia aquecer-lhe o sexo, enquanto ela erguia os olhos para ele, suas defesas estabelecidas, fortes, mas invioláveis. "Talvez", pensou ele.
— Primeiro conversar — disse ela, afastando-se —, depois, quem sabe, nos beijamos de novo.
— Ótimo — disse ele, dirigindo-se de imediato para perto dela, os dois agora de bom humor, mas ela tocou-lhe os lábios com o dedo, impedindo-o.
— Sr. Bartlett! Será que todos os americanos são como o senhor?
— Não — respondeu ele, prontamente, mas ela não engoliu a isca.
— É, eu sei. — A voz dela estava séria. — Eu sei. Era sobre isso que queria lhe falar. Café?
— Sim — disse, esperando, perguntando-se como agir, avaliando-a, desejando-a, sem conhecer direito essa selva, fascinado por ela e pela moça.
Ela serviu o café com cuidado. Tinha o mesmo gosto bom da primeira xícara. Ele estava controlado, embora a dor continuasse.
— Vamos para a sala — disse ela. — Eu levo a sua xícara. Ele se pôs de pé, a mão à volta da cintura dela. Ela não fez objeção, e ele sentiu que o contato dele lhe agradava, também. Sentou-se numa das poltronas fundas e chamou-a:
— Sente-se aqui — disse, batendo no braço da poltrona. — Por favor.
— Depois. Primeiro quero conversar. — Sorriu um tanto timidamente e sentou-se no sofá em frente, de veludo azul-escuro, combinando com o tapete chinês no chão de parquete lustroso. — Linc, só o conheço há dias, e não sou... não sou uma garota de programa. — Orlanda enrubesceu ao pronunciar essas palavras, e continuou, rapidamente, abafando o que ele pretendia dizer: — Desculpe, mas não sou. Quillan foi o primeiro e único, e não estou querendo um caso. Não quero uma trepada amistosa ou alucinada, e uma despedida tímida ou dolorosa. Aprendi a viver sem amor, não posso passar por tudo aquilo de novo. Amei Quillan, agora não amo. Tinha dezessete anos quando... começamos, e agora tenho vinte e cinco. Estamos separados há quase três anos. Tudo já acabou há três anos, e não mais o amo. Não amo ninguém, e sinto muito, sinto muito, mas não sou uma garota de programa.