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— Nunca pensei que fosse — disse ele, sabendo no íntimo que era mentira, e amaldiçoou o seu azar. — Que diabo, o que pensa que sou?

— Acho que é um bom homem — retrucou ela, de pronto, com sinceridade —, mas na Ásia uma moça, qualquer moça, descobre muito depressa que os homens querem ir para a cama, e que é só o que querem. Desculpe, Linc, mas ir para a cama por ir não faz o meu gênero. Pode ser que venha a fazer, mas não faz agora. É, sou eurasiana, mas não sou... sabe o que estou querendo dizer?

— Claro — falou, e acrescentou, antes que pudesse se conter —, está querendo dizer que é intocável, proibida.

O sorriso dela desapareceu, e ela o fitou. O coração dele confrangeu-se ao notar sua tristeza.

— É — disse, levantando-se devagar, quase em lágrimas. — É, acho que sou.

— Meu Deus, Orlanda! — Ele foi para junto dela, abraçou-a. — Não quis ser grosseiro, não quis falar no mau sentido.

— Linc, não estou tentando provocar ou gozar com a sua cara ou bancar a difí...

— Compreendo. Que diabo, não sou criança e não estou forçando ou... nem uma coisa nem outra.

— Ah, mas que bom! Por um momento... — Ela ergueu os olhos para ele, e sua inocência derreteu-o. — Não está com raiva de mim, Linc? Quero dizer... não lhe pedi para subir, foi você que insistiu.

— Eu sei — disse ele, abraçando-a e pensando: "É verdade, e também é verdade que quero você agora, e que não sei o que você é, quem é, mas quero você. Mas o que quero de você? O que realmente quero? Quero magia? Ou só uma trepada? Você é a magia que venho buscando eternamente, ou mais uma fulana qualquer? Como se compara com a Casey? Será que devo medir a lealdade contra a seda da sua pele?" Lembrou-se do que Casey dissera, certa vez: "O amor consiste em muitas coisas, Linc. Apenas uma parte do amor é o sexo. Apenas uma. Pense em todas as outras partes. Julgue uma mulher pelo seu amor, sem dúvida, mas compreenda o que uma mulher é". Mas o calor dela o invadia, seu rosto contra o peito dele, e mais uma vez sentiu-se excitado. Beijou o pescoço dela, não querendo conter sua paixão.

— O que é você, Orlanda?

— Sou... só posso lhe dizer o que não sou — falou, na sua vozinha. — Não sou uma provocadora. Não quero que pense que estou tentando excitá-lo. Gosto de você, gosto muito, mas não sou... garota para uma noite.

— Eu sei. Meu Deus, quem meteu isso na sua cabeça?

— Viu que os olhos dela estavam úmidos. — Não precisa chorar. Mesmo. Está bem?

— Está bem. — Ela se afastou, abriu a bolsa, pegou um lencinho de papel e usou-o. — Ayeeyah, estou agindo como uma adolescente ou como uma vestal. Desculpe, mas foi tudo muito repentino. Eu não estava preparada para... senti que ia ceder. — Inspirou fundo. — As mais abjetas desculpas.

— Recusadas — disse ele, rindo.

— Graças a Deus! — Ela o fitou. — Na verdade, Linc, geralmente sei lidar com os fortes, os mansos, os astutos, até mesmo os muito astutos, sem muita dificuldade. Acho que já recebi todo tipo de cantada que é possível uma garota receber, e sempre achei que já tinha um plano de jogo automático para driblá-las quase antes que começassem. Mas com você...

— Hesitou, depois acrescentou: — Desculpe, mas com quase todo homem que conheço, bem, é sempre a mesma coisa.

— Isso é errado?

— Não, mas é exasperante entrar numa sala ou num restaurante e sentir aqueles olhares obscenos. Gostaria de saber como vocês, homens, se sentiriam. Você é moço e bonitão. O que faria se as mulheres agissem assim com você, em todo lugar a que fosse? Digamos que, quando atravessou o saguão do Victoria, hoje de manhã, tivesse visto que todas as mulheres de todas as idades, as vovós de dentadura postiça, as bruxas de peruca, as gordas, as feias, as grosseiras, todas elas lhe lançavam abertamente olhares lascivos, despindo-o mentalmente, procurando chegar perto de você, tentando passar a mão no seu traseiro, olhando abertamente para a sua virilha ou o seu peito, a maioria com mau hálito, a maioria suando e fedendo, e você sabendo que elas o imaginam na cama delas, entusiástica e alegremente fazendo as coisas mais íntimas com elas.

— Não gostaria nem um pouco. Casey disse a mesma coisa com palavras diferentes quando veio trabalhar comigo. Sei o que quer dizer, Orlanda. Pelo menos, posso imaginar. Mas é assim que o mundo é.

— É, e às vezes é horrível. Oh, não gostaria de ser homem, Linc, estou muito feliz sendo mulher. Mas, realmente, às vezes é um horror. Saber que a consideram apenas um recipiente que pode ser comprado, e que depois de tudo deve agradecer muito ao velho safado e corpulento de mau hálito, aceitar sua nota de vinte dólares e ir embora, esgueirando-se como um ladrão dentro da noite.

— Como foi que esse assunto começou? — disse ele, franzindo o cenho.

Ela riu.

— Você me beijou.

Ele abriu um sorriso, contente por estarem juntos.

— Isso mesmo. Vai daí que talvez eu tenha merecido o sermão que levei. Sou culpado das acusações. Bem, e quanto àquele beijo que me prometeu... — Mas não se mexeu. Estava tateando, sondando. "Tudo mudou agora", pensou. "Claro que queria ir para a cama com ela. Claro. Ainda quero, mais do que antes. Mas agora estamos mudados. Agora estamos num jogo diferente. Não sei se quero participar. As regras mudaram. Antes, era simples. Agora, quem sabe não é mais simples?" — Você é bonita. Já lhe disse isso? — falou, desviando-se do assunto que ela queria esclarecer.

— Eu ia falar sobre esse beijo. Sabe, Linc, a verdade é que não estava preparada para o modo como, falando francamente, como fui levada de roldão, acho que foi isso.

Ele deixou a frase no ar.

— Isso é bom ou ruim?

— Ambos. — Os olhos dela apertaram-se quando ela sorriu. — É, levada de roldão pelo meu próprio desejo. Você é demais, sr. Bartlett, e isso também é muito ruim, ou muito bom. Eu, eu gostei do seu beijo.

— Eu também. — Novamente, sorriu para ela. — E pode me chamar de Linc.

Depois de uma pausa, ela disse:

— Nunca me senti tão carente e envolvida, e por isso estou muito assustada.

— Não precisa ficar assustada — falou. Mas perguntava-se o que fazer. Seus instintos diziam-lhe que partisse. Seus instintos diziam-lhe que ficasse. O bom senso dizia-lhe que ficasse calado e esperasse. Podia ouvir seu coração bater e a chuva fustigar as vidraças. "É melhor eu ir", pensou. — Orlanda, acho que está...

— Tem tempo para conversar? Só um pouquinho? — perguntou, sentindo a indecisão dele.

— Claro. Claro que sim.

Ela afastou os cabelos do rosto.

— Queria lhe falar a meu respeito. Quillan era o patrão do meu pai em Xangai, e parece que o conheci toda a minha vida. Ajudou a pagar meus estudos, especialmente nos Estados Unidos, e sempre foi muito bondoso para mim e para minha família... tenho quatro irmãs e um irmão, e sou a mais velha, e estão todos em Portugal, agora. Quando voltei a Xangai, vinda de San Francisco, após me formar, estava com dezessete, quase dezoito anos, e... Bem, ele é um homem atraente, ao menos para mim, embora muito cruel, às vezes. Muito.

— Como?

— Acredita em vingança pessoal, que a vingança é um direito do homem, se ele for homem. E Quillan é homem à beça. Sempre foi bom para mim, ainda é. — Olhou-o atentamente. — Quillan ainda me dá mesada, ainda paga este apartamento.

— Não precisa me contar nada.

— Eu sei. Mas quero contar... se você quiser ouvir. Depois, pode decidir.

Ele a olhou atentamente.

— Está bem.

— Sabe, parte do problema é o fato de eu ser eurasiana. A maioria dos europeus nos despreza, aberta ou secretamente, especialmente os britânicos daqui... Linc, acabe de me ouvir. A maioria dos europeus despreza os eurasianos. Todos os chineses os desprezam. Assim, estamos sempre na defensiva, quase sempre desconfiados, quase sempre suspeitos de sermos ilegítimos, e sem dúvida uma trepada fácil. Deus, como odeio essa expressão! Como é nojenta, vulgar e barata! E reveladora da mentalidade do homem americano, que sempre a usa... embora tenha sido nos Estados Unidos, estranhamente, que adquiri respeito próprio e superei o meu complexo de culpa eurasiano. Quillan me ensinou muita coisa, e me formou, de muitas maneiras. Devo muito a ele. Mas não o amo. Era o que eu queria dizer. Quer mais um pouco de café?