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— Quero, sim, obrigado.

— Vou fazer café fresco.

Ela se levantou, o andar inconscientemente sensual, e novamente ele amaldiçoou o seu azar.

— Por que rompeu com ele? Gravemente, ela lhe contou sobre Macau.

— Eu me deixei persuadir a ir para a cama com o tal sujeito, e dormi com ele, embora nada tenha acontecido, nada... o pobre coitado estava bêbado e impotente. No dia seguinte, fingi que ele tinha sido ótimo. — A voz dela era calma e natural, mas podia-se sentir a sua angústia. — Nada aconteceu, mas alguém contou a Quillan. Ele ficou furioso, e com razão. Eu não tenho justificativa. Foi... Quillan estava fora. Sei que isso não é desculpa, mas eu tinha aprendido a gostar de sexo e... — Uma sombra toldou-lhe o semblante. Deu de ombros. — Joss. Carma. — Na mesma voz apagada ela lhe contou a vingança de Quillan. — É o modo de ele ser, Linc. Mas tinha razão de estar furioso comigo. Eu estava errada. — O vapor chiou, e o café começou a gotejar. As mãos dela pegavam xícaras limpas, biscoitos feitos em casa e guardanapos limpos e engomados enquanto falava, mas os pensamentos deles estavam concentrados no triângulo amoroso.

— Eu ainda me encontro com ele, de vez em quando. Só para conversar. Agora somos apenas amigos, ele é bom para mim, e faço o que quero, saio com quem quero. — Desligou o aparelho e ergueu os olhos para ele. — Nós... tivemos uma filha, há quatro anos. Eu queria o bebê, ele não. Disse que eu poderia ter a criança, mas na Inglaterra. Ela agora está em Portugal, com meus pais... meu pai é aposentado, e ela mora com eles — concluiu ela, uma lágrima rolando-lhe pela face.

— Foi idéia dele manter a criança lá?

— Foi. Mas ele está certo. Uma vez por ano vou até lá. Meus pais... minha mãe queria a criança, pediu para criá-la. Quillan também é generoso com eles. — Às lágrimas agora corriam pelo seu rosto, mas o choro era silencioso. — Agora você já sabe de tudo, Linc. Nunca contei a mais ninguém, só a você, e agora você sabe que não sou, não fui uma amante fiel, e não sou, não sou boa mãe e, e...

Ele foi para junto dela, abraçou-a bem apertado e sentiu que ela se derretia de encontro a ele, tentando sufocar os soluços, agarrando-se a ele, assimilando o seu calor e a sua força. Ele a acalmava, abraçando-a, o corpo contra o dele, inteirinho, quente, macio, tudo se encaixando.

Quando ela conseguiu se controlar, ergueu-se na ponta dos pés, beijou-o levemente, mas com grande carinho, e olhou para ele.

Ele retribuiu o beijo.

Olharam-se nos olhos, profundamente, depois beijaram-se de novo. A paixão aumentou, e parecia uma eternidade, mas não era, e ambos ouviram a chave na fechadura na mesma hora. Separaram-se, tentando recobrar o fôlego, escutando as batidas de seus corações, e ouvindo a voz áspera da amah, vinda do corredor:

— Weyyyyy?

Debilmente, Orlanda endireitou o penteado, deu ligeiramente de ombros, como a pedir desculpas.

— Estou na cozinha — disse em xangaiense. — Por favor, vá para o seu quarto até que eu a chame.

— Ah, quer dizer que o demônio estrangeiro ainda está aqui? E as minhas compras? Fiz algumas compras!

— Deixe junto à porta!

— Ah, está bem, Jovem Patroa — respondeu a amah, e se afastou, resmungando. A porta bateu com força às suas costas.

— Elas sempre batem as portas? — perguntou Linc, o coração ainda disparado.

— É, é, parece que sim. — Ela voltou a pôr a mão no ombro dele, as unhas acariciando o seu pescoço. — Desculpe.

— Não há do que se desculpar. Vamos jantar? Ela hesitou.

— Se você levar a Casey.

— Não. Só você.

— Linc, acho melhor não. Agora não estamos em perigo. É melhor dizermos adeus agora.

— Jantar. Às oito. Virei buscá-la. Você escolhe o restaurante. Comida de Xangai.

Ela fez que não com a cabeça.

— Não. Já está mexendo demais comigo. Desculpe.

— Virei buscá-la às oito. — Bartlett beijou-a de leve, depois foi até a porta. Ela apanhou o impermeável dele e lhe entregou. — Obrigado — falou Linc, meigamente. — Não há perigo, Orlanda. Tudo vai ficar numa boa. Até às oito. Está bem?

— É melhor não.

— Quem sabe? — Ele sorriu para ela, estranhamente. — Isso seria joss... carma. Temos que nos lembrar dos deuses, não? — Ela não respondeu. — Estarei aqui às oito.

Ela fechou a porta atrás dele, caminhou devagar até a poltrona e se sentou, imersa em pensamentos, imaginando se o teria afugentado, apavorada de o ter feito. Imaginando se ele realmente voltaria às oito, e, se voltasse, como poderia mantê-lo afastado, como manobrá-lo até que estivesse louco de desejo, louco o bastante para casar-se com ela.

Seu estômago deu voltas. "Tenho que agir depressa", pensou. "Casey o mantém cativo, enredou-o, e minha única saída é comida gostosa, lar e carinho, carinho, carinho, carinho, e tudo o que Casey não é. Mas nada de cama. Foi assim que Casey o prendeu. Tenho que fazer o mesmo.

"Então, ele será meu.”

Orlanda sentia-se fraca. Tudo saíra perfeito, concluiu. Depois, novamente se lembrou do que Quillan dissera: "É a lei imemorial que todo homem é forçado pelas circunstâncias a se casar, preso na armadilha da sua luxúria, do seu sentimento de posse, da avareza, do dinheiro, do medo, da preguiça, ou seja lá o que for, mas forçado. E nenhum homem jamais se casa de bom grado com a sua amante".

"É. Quillan está certo, mais uma vez", pensou. "Mas está errado a meu respeito. Não vou me contentar com a metade do prêmio. Vou tentar conquistá-lo todo. Vou ter não apenas o Jaguar, e este apartamento, e tudo o que ele contém, mas uma casa na Califórnia e, principalmente, fortuna americana, longe da Ásia, onde não serei mais uma eurasiana, mas uma mulher como qualquer outra, bela, despreocupada e carinhosa.

"Ah, serei para ele a melhor mulher que um homem poderia ter. Atenderei a todos os seus desejos, farei o que ele quiser. Senti sua força, e serei boa para ele, maravilhosa para ele.”

— Ele já foi? — Ah Fat entrou na sala sem fazer barulho, arrumando as coisas automaticamente, enquanto falava no dialeto de Xangai. — Bom, muito bom. Quer que faça um chá? Deve estar cansada. Um pouco de chá, heya?

— Não. Sim, sim, faça um chá, Ah Fat.

— Faça um chá! Trabalho, trabalho, trabalho! — A velha foi arrastando os pés até a cozinha. Usava calças pretas tipo bombacha, uma bata branca e uma trança comprida que lhe descia pelas costas. Cuidava de Orlanda desde o seu nascimento. — Dei uma boa olhada nele, lá embaixo, quando chegaram. Ele é bem apresentável para uma pessoa incivilizada — disse, com ar especulador.

— É? Não a vi. Onde você estava?

— Junto das escadas. — Ah Fat casquinou. — Eeeee, tomei o cuidado de me esconder direitinho, mas queria olhar para ele. Hum! Você manda a sua pobre escrava para a rua na chuva, com seus pobres ossos velhos, quando pouco importa se estou aqui ou não? Quem vai levar os seus doces e chá ou bebidas na cama quando você acabar seus afazeres, heya?

— Ora, cale a boca, cale a boca!

— Não mande a sua pobre e velha mãe calar a boca! Ela sabe como cuidar de você! Ah, sim, Pequena Imperatriz, mas era bem evidente que em ambos o yang e o yin estavam prontos para combater. Vocês dois pareciam tão contentes quanto gatos num barril de peixes! Mas não havia necessidade de eu sair!